John Malkovich dá uma aula de atuação no ótimo filme ‘Cavalo Selvagem Nove’

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Cavalo Selvagem Nove” traz John Malkovich como um agente da CIA com demência, revelando segredos sobre golpes de Estado e até o assassinato de JFK. Ao lado de Sam Rockwell, ele embarca numa jornada de culpa e humor ácido, enquanto o filme explora os cantos obscuros da história com a maestria de Martin McDonagh. Malkovich é aposta ao Oscar.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

É o início de 1973 e, ao contrário da maioria de seus vizinhos latino-americanos, o Chile vive uma democracia, liderada pelo socialista Salvador Allende, presidente abraçado pela juventude do país. “Todo mundo gosta dele”, responde uma universitária a um senhor americano em um aeroporto, após ser questionada sobre a popularidade instável do líder chileno. O idoso gargalha da resposta e sugere que ela e os demais apoiadores aproveitem o presidente enquanto podem. “Estamos aqui para desestabilizar sua democracia”, diz ele, com naturalidade, afirmando ser um agente da CIA. O amigo ao lado desconversa, garante que o colega é um brincalhão, afinal, eles não são da CIA — e, se fossem, não diriam em voz alta em um aeroporto. Pois bem, a dupla é, sim, da CIA e, de fato, vão apoiar o golpe encabeçado pelo general Augusto Pinochet. A cena de Cavalo Selvagem Nove (Wild Horse Nine, Reino Unido/Estados Unidos/Chile, 2026), já em cartaz nos cinemas, é uma de várias sequências cômicas — e de alfinetadas irônicas ao passado dos Estados Unidos — em que o espião interpretado por Sam Rockwell deve controlar a língua solta do parceiro, papel de John Malkovich, que está com sinais de demência e não controla mais a habilidade de guardar segredos, essencial para o ofício.

SURPREENDENTE - Quero Ser John Malkovich: exercício de autoparódia (Universal Pictures/Divulgação)

O descompasso mental do protagonista vai se confundir com um sentimento de culpa pelo passado sanguinolento, envolvendo uma série de participações em guerras e golpes de Estado pelo mundo. Certo de que sua vida está no fim, ele viaja à Ilha de Páscoa com o colega, ansioso por ver as “cabeças gigantes” — as centenas de estátuas históricas chamadas moais, de 4 a 10 metros de altura. Não bastasse soltar informações secretas sem querer por aí, o protagonista ainda quer escrever uma autobiografia para expurgar seus pecados — incluindo seu possível envolvimento no assassinato de John F. Kennedy, em 1963 — o que deixa o alto escalão da CIA de cabelo em pé. “Ele diz algumas verdades e também provocações”, explicou a VEJA o diretor e roteirista Martin McDonagh sobre a mescla de fatos e teorias conspiratórias da trama. “Não quero validar tudo isso, mas é inegável que onde há fumaça há fogo.”
O cineasta irlandês conquistou Hollywood com os ótimos Três Anúncios para um Crime (2017) e Os Banshees de Inisherin (2022), títulos que combinavam roteiros ácidos e inteligentes com personagens carismáticos, mas questionáveis. “Não creio que o filme simpatize ou desculpe o protagonista por participar dessas histórias, mas demonstra que, esperançosamente, pessoas como ele podem sentir culpa por suas atrocidades”, entende o diretor. Em Cavalo Selvagem Nove, ele repete a fórmula de provocar e emocionar ao mesmo tempo, mas com o reforço inestimável de Malkovich.

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CLÁSSICO - Em Ligações Perigosas: visconde sofisticado e sedutor (Etienne GEORGE/Warner Bros/Christophel/AFP)

Aos 72 anos, com uma carreira que atravessa cinco décadas, mais de noventa filmes e uma dezena de produções televisivas, fora o amplo currículo no teatro, John Malkovich consolidou-se como um dos atores mais singulares de sua geração. Magnético e carismático, deu vida a figuras excêntricas, manipuladoras e perigosas, mantendo em rédea curta a atenção da plateia. Em Ligações Perigosas (1988), foi um visconde sedutor e cruel; em Na Linha de Fogo (1993), um assassino calculista. Sem receios de ser tachado de estranho, interpretou a si mesmo na paródia Quero Ser John Malkovich (1999).

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Tanta experiência e reputação faz com que muitos se enganem achando que ele já tenha ganhado um Oscar. Cavalo Selvagem Nove pode representar uma virada. Com voz trêmula, olhar distante e graciosidade para entregar as sacadas do roteiro, o ator despontou como aposta para a próxima edição do prêmio, rivalizado por Matt Damon, de A Odisseia, e Tom Cruise, do polêmico Digger. Para o diretor McDonagh, seria uma honra ser o cineasta responsável pela aguardada estatueta do ator e sua consagração em Hollywood: “Além do mais, a conversa sobre prêmios significa que mais pessoas verão esse filme, que explora os cantos obscuros da história”. Saber demais pode ser mesmo um trunfo.
Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2026, edição nº 3020

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