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No Dia do Médico, o artigo discute a dualidade da medicina atual: a que se baseia na ética e evidências científicas, e a que prioriza o faturamento e a pseudociência. Alerta para a exploração de desejos legítimos por soluções mágicas e o risco de danos, defendendo a proteção do paciente e a formação médica qualificada.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
A melhor frase para encerrar uma consulta deveria ser: “Você está bem”, dita depois de uma avaliação cuidadosa. Mas, em certos consultórios, tornou-se comercialmente inconveniente. O exame está normal, porém poderia estar “otimizado”. O corpo funciona bem, porém, pode render muito mais. A idade avança, mas se oferece uma maneira não validada de negociar com o calendário. A pessoa entrou buscando cuidar da saúde. Sai convencida de que precisa consertar a própria existência.
Neste 18 de outubro, Dia do Médico, penso nas duas Medicinas que estão disponibilizadas atualmente: a Medicina de verdade, baseada na ética e nas evidências científicas, e a “medicina” baseada no faturamento e na pseudociência.
Uma medicina procura reconhecer doenças, aliviar sofrimento e preservar possibilidades de vida saudável. Outra se apropria da linguagem do cuidado e da prevençãopara vender insatisfação, inadequação alarmista e ilusões. As duas podem usar jaleco e exibir diplomas na parede.
A divisão é ética. Honestidade não pode ser medida pela decoração da sala ou pela popularidade nas redes. Seria injusto confundir remuneração com mercantilismo, pois médicos precisam receber dignamente pelo trabalho. O desvio começa quando a decisão clínica passa a servir à venda; quando, antes de saber do que alguém precisa, já se pensa emquanto pode deixar no caixa.
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Emagrecer, ganhar força, recuperar a disposição, melhorar a vida sexual e envelhecer com autonomia são desejos legítimos. Merecem olhar e, quando necessário, uma abordagem adequada. A exploração começa quando o desejo vira garantia, a insegurança vira falso diagnóstico e qualquer limite humano ganha uma solução mágica.
O roteiro pode ser sedutor. Primeiro, informa-se à pessoa que os parâmetros convencionais são insuficientes. Depois, sugere-se que ela tem uma deficiência que a medicina “tradicional” não compreende.
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Por fim, oferece-se a combinação exclusiva de hormônios, medicação manipulada ou até contrabandeada, soros, fórmulas, vitaminas e retornos. A promessa tem uma vantagem extraordinária para quem a vende: sempre será possível querer mais e gerar recorrência ampliada. Mais músculos, mais disposição, mais potência, menos idade.
Exames desnecessários disputam tempo e dinheiro com necessidades reais. A receita passa a funcionar como pedido de compra e o consultório, como balcão de negócios.
É preciso dizer isso sem produzir medo de tratamentos legítimos. Hormônios têm indicações importantes. Medicamentos contra a obesidade podem transformar trajetórias de doenças. A terapia hormonal da menopausa tem lugar quando adequadamente indicada.
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A manipulação farmacêutica também pode atender a necessidades individuais reais. O problema é retirar essas ferramentas de seu contexto e apresentá-las como mercadorias capazes de entregar juventude, superioridade física e proteção ilimitada.
O dano pode ir além do dinheiro perdido – intervenções sem indicação podem gerarcomplicações cardiovasculares, hepáticas, reprodutivas e psiquiátricas. Quando a complicação aparece, o percurso muda. O tratamento da complicação não cabe no modelo que a gerou. Aí é o médico de verdade que acolhe e cuida.
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Não falta apenas informação ao paciente. Falta proteção contra quem usa a autoridade médica para faturar. Conselhos profissionais, vigilância sanitária e órgãos de defesa do consumidor precisam agir de forma articulada, com apuração rigorosa e punição com respeito ao devido processo.
Também precisamos olhar para quem ensina a vender esse modelo. Um curso de fim de semana pode atualizar conhecimentos específicos, mas não pode fabricar um especialista. O problema se agrava quando se vende um atalho de autoridade e, junto dele, um cardápio de procedimentos lucrativos.
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Aprende-se a convencer e a responder à objeção do paciente comprador sem aprender critérios éticos e científicos de indicações e contraindicações de tratamento.
O debate deve chegar às faculdades de medicina. O Brasil precisa de acesso ao cuidado, profissionais bem distribuídos e oportunidades de formação. A expansão deve vir acompanhada de professores qualificados, cenários de prática, supervisão e avaliação efetiva de competências. Mensalidades elevadas e endividamento não autorizam concluir que o jovem formado se tornará explorador de pacientes. Há profissionais exemplares em diferentes trajetórias acadêmicas. A pressão financeira pode criar vulnerabilidades; mas não deve determinar caráter nem absolver condutas.
A resposta exige compromisso público: avaliar cursos com transparência, corrigir deficiências, impedir a expansão sem estrutura e assegurar prática clínica bem supervisionada. É preciso ampliar oportunidades de residência e formação qualificada, fortalecer a integração com o SUS e ensinar a ciência de forma crítica. Não basta cobrar do estudante uma prova final se a instituição passou anos sem lhe oferecer condições adequadas de aprender.
Mas há muito com que se entusiasmar. Vivemos avanços reais no tratamento de doenças que limitam e encurtam a vida. A ciência pode superar expectativas justamente porque aceita testá-las, medir fracassos e reconhecer limites. É aí que a desigualdade se torna ainda mais dolorosa.
Enquanto se oferece o desnecessário a quem pode pagar, pessoas com indicação clínica enfrentam barreiras para receber o necessário. Precisamos discutir preços, financiamento, avaliação de tecnologias, organização dos serviços e acesso responsável.
No Dia do Médico, quero celebrar quem sustenta esses compromissos, muitas vezes longe dos holofotes. Quem enfrenta uma conversa difícil sem substituí-la por uma receita conveniente. Essa medicina existe. Merece aplausos e condições dignas de trabalho, reconhecimento e a defesa firme de suas instituições.
Gostaria que mais pessoas pudessem sair de uma consulta aliviadas e bem orientadas. Algumas levando uma prescrição necessária. Outras, a notícia de que não precisam dela. Em ambas, o mesmo compromisso deverá estar presente: que o médico honre seu juramento e ajude a prevenir e a tratar doenças reais, aliviar sofrimentos e aumentar a saúde e a qualidade da vida de quem o procura.
*Clayton Macedo é doutor em Endocrinologia e Metabologia e especialista em Medicina do Esporte, coordenador do núcleo de Endocrinologia do Exercício da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, atual diretor e presidente eleito (biênio 2029-2030) da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – SBEM.