A Globo continua sendo, com folga, a líder de audiência da televisão aberta, com suas novelas, jornalismo, esporte, grande estrutura e uma capacidade de produção que nenhuma concorrente consegue — pelo menos ainda — reproduzir na mesma escala. Os números registrados aos domingos, porém, mostram que o SBT preserva um patrimônio construído por Silvio Santos (1930-2024) há mais de quatro décadas que a empresa da família Marinho tem dificuldades de criar: uma intimidade nonsense com o telespectador.
Comandado por Patricia Abravanel, o Programa Silvio Santos alcançou, no domingo, 23, a liderança em São Paulo durante nove minutos não consecutivos, superando a transmissão de um show de Anitta pela Globo. No horário completo, das 19h09 à 0h06, a atração marcou 7,1 pontos de média, pico de 8,7 e share de 13%, tendo seu melhor resultado do semestre e a segunda maior audiência do ano.
Os resultados ajudam a explicar o que a emissora fundada por Silvio Santos faz de maneira muito particular. Em 45 anos, o SBT construiu uma televisão baseada em figuras que o público criou uma relação e a confiança de velhos conhecidos. Celso Portiolli, Patricia Abravanel, Carlos Alberto de Nóbrega e Ratinho não dependem apenas de um formato forte, basta a afinidade e a previsibilidade de entregar ao espectador o que ele sabe mais ou menos o que vai encontrar quando liga a televisão.
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Popular x sofisticado
Há uma espécie de “televisão sem vergonha” do conteúdo que exibe. Diferentemente da concorrente, o SBT nunca demonstrou grande preocupação em parecer sofisticado ao abraçar o público mais popular. Há décadas, seus programas convivem com as tradicionais pegadinhas de rua, brincadeiras de auditório, provas juvenis (como a torta na cara), improvisos, erros e momentos que dificilmente seriam aprovados por um controle de qualidade mais rigoroso. O que poderia ser visto como desleixo acabou se transformando em identidade.
Atualmente, a Globo até se arrisca a surfar na onda, como os quadros de humor do Caldeirão com Mion, mas não consegue bons resultados, já que tudo é cuidadosamente construído pelo “padrão Globo de qualidade”. Entre os movimentos recentes: tirou Eliana de lá, comprou Chaves e Chapolim, investiu nas novelas turcas (para bater as mexicanas), trouxe sertanejos para a grade… Enquanto isso, a família Abravanel segue como sempre fez seu fundador, desde os primórdios como camelô nas ruas do Rio: vende algo mais próximo da ideia de entrar na sala de um amigo ou familiar em um domingo à noite, por exemplo.
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O “padrão de qualidade” de hoje, aliás, é sombra do passado. A expressão ganhou força durante a gestão de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, associada à ideia de que a televisão deveria ter alto padrão técnico, cuidado artístico, qualidade de texto, cenografia, figurino, iluminação, direção e acabamento. Isso fez com que a Globo, nos idos dos anos 1970-80, passasse a investir fortemente em estúdios, equipamentos, formação de profissionais e dramaturgia, buscando uma programação mais sofisticada e profissionalizada. É como se todo o restante soasse improvisado diante da tela da emissora.
E isso deu certo. Sua liderança foi construída na soma de três pilares: apuros técnico, estético e criativo. Mas quando chegaram os streamings, nesta última década, se percebe que tais apuros também vieram com outras empresas para brigarem de igual para igual. Se antes a TV Globo dava 50 pontos de audiência numa novela das 9, seu carro-chefe no entretenimento, hoje se satisfaz com a metade disso. No SBT, a luta segue sendo a mesma: cutucar a liderança quando der e manter seus parcos 10 pontos, quando assim conseguir. Na Globo, o streaming causou maremoto; no SBT, uma marola. Como? O ingrediente que lhe segura é justamente o que só o SBT pareceu se importar e investir, enquanto a líder ganhava banho de loja – a simplicidade como atração.
Nas ‘portas da esperança’
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Outro diferencial é a história. O Programa Silvio Santos atravessou gerações e continua funcionando mesmo depois da morte de seu criador. Patricia não é Silvio, tem essa consciência, mas preserva a memória afetiva que poucas atrações da TV aberta ainda possuem ao manter os quadros, músicas, cenários e rituais que marcaram a história televisiva. Abre as portas da esperança, roda o roletrando e faz perguntas de um milhão de reais com a delicadeza que lhe é peculiar.
Nada disso ameaça a liderança geral da Globo, é verdade. O SBT nem é visto como um concorrente promissor pelas bandas dos Marinhos – mais assustados com a diversificação trazida pelas empresas de streaming. Mas a vitória de audiência, mesmo que por nove minutos, diante de um show de uma estrela da música é simbólica. Já aconteceu várias outras vezes (com Gugu Liberato, Celso Portioli, Ratinho, Hebe…).
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Isso não muda em nada a receita da emissora paulista, que segue fazendo o mesmo jogo desde sempre. Mas são cutucadas na concorrente carioca, que já não pode mais manter o nariz tão em pé. Ao ajustar a rota repetidamente para conquistar novos públicos, especialmente os mais jovens (seduzidos pelo streaming), a Globo acaba perdendo aquele telespectador tradicional que prefere não arriscar. Ele sabe que, entra no e vai ano, suas pegadinhas estão garantidas. Já as novelas das 9, bem, essas se distanciam mais e mais da sua essência construída lá atrás por Boni e companhia.