‘Precisamos de mais mulheres nos estudos sobre cancer pulmao’, diz medica premiada em congresso europeu

O câncer de pulmão não é uma doença restrita a fumantes. Embora o tabagismo seja o principal fator de risco para o problema, crescem os casos entre quem nunca colocou um cigarro na boca, especialmente em mulheres. A participação feminina na pesquisa clínica, porém, ainda é desigual, o que pode limitar o conhecimento sobre a doença e seus tratamentos nesse público.
O alerta foi feito pela oncologista espanhola Pilar Garrido, durante a abertura do congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), em Madri, nesta sexta-feira, 23.

Professora da Universidade de Alcalá e chefe do Departamento de Oncologia Médica do Hospital Universitário Ramón y Cajal, ambos na Espanha, ela recebeu o prêmio “ESMO Women for Oncology”, por sua contribuição ao tratamento do câncer de pulmão e pela atuação em defesa da equidade de gênero na oncologia.
Historicamente, a doença era vista sobretudo como um problema de homens mais velhos, com histórico de tabagismo intenso. À medida que passou a atender mais mulheres com câncer de pulmão, Garrido disse que percebeu a necessidade de investigar diferenças relacionadas ao sexo para oferecer o tratamento adequado.

Ela chamou a atenção para possíveis diferenças biológicas na resposta ao tabaco. Mulheres podem ser mais suscetíveis aos efeitos carcinogênicos do cigarro por diferenças no metabolismo de substâncias tóxicas, na formação de danos ao DNA e nos mecanismos de reparação celular. Essas hipóteses, destacou a pesquisadora, ainda são objeto de investigação.

Continua após a publicidade

“O tabaco continua sendo o principal fator de risco evitável para o câncer de pulmão”, afirmou Garrido em sua apresentação. “E as mulheres podem ser mais suscetíveis ao tabaco”, acrescentou a pesquisadora, que lidera grupos de pesquisa dedicados ao câncer de pulmão e a tumores torácicos.
Outra preocupação é a participação feminina nos estudos que embasam as estratégias de rastreamento do câncer de pulmão.
No ensaio clínico americano NLST, 59% dos participantes eram homens. E, no estudo europeu NELSON, as mulheres representaram apenas cerca de 16% dos recrutados, segundo os dados apresentados pela oncologista. “Precisamos de mais mulheres nas pesquisas sobre cancer de pulmao, diz.

Continua após a publicidade

Para Garrido, os critérios de rastreamento merecem atenção. A seleção de candidatos com base na idade e na carga tabágica, medida em maços-ano, pode deixar de identificar mulheres sob risco que não se enquadram nos parâmetros adotados, diz ela.
Atualmente, as diretrizes de rastreamento da doença no Brasil e no mundo deixam de fora o público não-tabagista — e também não há nenhuma particularidade sobre o público feminino.
A doença em quem nunca fumou
O câncer de pulmão em pessoas que nunca fumaram tem características próprias e representa um desafio para a pesquisa. Cerca de dois terços dos casos nesse grupo ocorrem em mulheres, principalmente em populações do Leste Asiático, de acordo com os dados apresentados por Garrido.

Continua após a publicidade

Nos Estados Unidos, mais de 55% das mulheres asiáticas e mais de 30% das mulheres hispânicas diagnosticadas com câncer de pulmão de células não pequenas nunca fumaram. Pacientes mais jovens também têm maior probabilidade de pertencer a esse grupo.
No Brasil, a proporção de casos em mulheres não tabagistas tambem cresce de forma consistente, segundo uma revisao publicada recentemente no periódico JCO Global Oncology.
A ausência do tabagismo, portanto, não elimina o risco. Histórico familiar, predisposição genética, exposição à fumaça de outras pessoas e poluição do ar estão entre os fatores associados à doença.

Continua após a publicidade

A pesquisadora citou ainda a poluição em ambientes domésticos, relacionada à queima de combustíveis sólidos e à exposição a partículas liberadas durante frituras em altas temperaturas. Também destacou os efeitos do fumo passivo, com risco maior entre pessoas que conviveram por pelo menos 30 anos com um fumante.
A predisposição hereditária é outro aspecto relevante. Alterações em genes como EGFR, HER2, BRCA2, CHEK2, MET e YAP1 foram mencionadas entre as possíveis causas de maior risco familiar.
Para Garrido, conhecer melhor os diferentes perfis de pacientes é necessário para aprimorar a prevenção, o diagnóstico e o tratamento da doenca.

Continua após a publicidade

A equidade de gênero na oncologia, diz ela, envolve tanto o acesso das mulheres a posições de liderança quanto a produção de evidências científicas que contemplem adequadamente diferentes grupos de pacientes.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo