Crianças e adolescentes que mergulham na pornografia correm o risco de criar para si mesmas uma fantasia onde não existe rejeição nem imperfeições. As consequências vêm em série: medo de construir relacionamentos fora das telas, baixa autoestima, dificuldades de aceitar limites e prejuízos ao cérebro.
O alerta é da renomada psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, que chama a atenção para os riscos do consumo precoce de conteúdo pornográfico, cada vez mais acessível na era digital. De acordo com a especialista, já existem estudos de neuroimagem demonstrando que assistir vídeos de sexo pode retardar o desenvolvimento cerebral na infância.
“O mínimo que vai acontecer é a criança se tornar refém de práticas altamente performáticas que não vai conseguir alcançar ao longo da vida, gerando prejuízos sociais e de autoimagem”, afirma.
O lobo frontal, parte do cérebro responsável por funções executivas e tomada de decisões, só termina de se desenvolver por volta dos 25 anos. O público infantojuvenil, portanto, ainda não tem total capacidade de discernir o bom do mau, e pode ter dificuldades para interromper comportamentos negativos que geram prazer. Daí a necessidade de impor limites e manter um diálogo aberto com os mais jovens sobre o assunto, defende Abdo.
“É importante saber o que a criança ou adolescente está buscando na internet e o que está despertando o interesse deles. Como, onde e por que? Tudo isso é material para a gente educar, conversar e, de alguma forma, estar mais informado sobre o que está acontecendo na vida virtual, que, às vezes, é até mais ampla e mais impactante do que a real para eles”, aponta.
Continua após a publicidade
Em entrevista a VEJA, a psiquiatra analisa os possíveis efeitos da pornografia sobre o cérebro, discute o papel da educação sexual na prevenção e destaca a importância de uma rede de apoio no tratamento da dependência.
O que configura vício em pornografia? Acessar pornografia não configura vício. Do ponto de vista médico, nós caracterizamos o vício quando essa atividade deixa de ser controlável, ou seja, quando a pessoa se torna refém daquilo. Ela não consegue, por vontade própria e deliberação pessoal, parar com determinado hábito.
O dia inteiro ela vai recorrendo a esse hábito, várias vezes por dia, com prejuízo a outras atividades. Por exemplo, dorme menos, se alimenta rapidamente, ou no trabalho não consegue se concentrar porque quer praticar esse hábito, evita a vida social em benefício dessa atividade…
Continua após a publicidade
O que acontece no cérebro de quem tem esse vício? Quando você acessa algo que te dá prazer, o cérebro libera substâncias que são muito agradáveis. A dopamina é a principal delas.
Então, diante dessa possibilidade de ter o cérebro mais ativado pela dopamina, com uma sensação de bem-estar e de recompensa, a pessoa é levada a uma nova busca e mais outra, no sentido de manter essa sensação agradável mais duradoura. Ou seja, a pessoa não consegue mais ficar fora desse estado.
Ela vai buscar repetidamente um momento de recompensa, de sensação de leveza, de disposição, de conforto. É isso que faz com que ela comece a fazer de forma repetitiva o acesso à pornografia, ao jogo, à bebida…
Continua após a publicidade
Muitas vezes, a pessoa que tem um vício em sexo acaba acessando a pornografia, porque é um sexo, vamos dizer assim, que tem mais possibilidades de ela encontrar na internet de forma muito acessível e privativa. O custo também é baixo. Esses são outros elementos que levam ao vício.
Então, a pessoa deseja um estágio de bem-estar permanente, mas acaba fazendo mal a ela mesma nessa busca? Num primeiro momento, ela não se dá conta de que está ficando habituada. Ela percebe que vai buscar aquele determinado hábito, mas ainda tem algum nível de controle.
Esse aprisionamento vai acontecer ao longo do tempo. Ela nem percebe quando ela está passando de uma fase de controle para uma fase de total descontrole. É o prazer que acaba mascarando essa possibilidade de percepção de que a coisa está fugindo do controle.
Continua após a publicidade
Todas as pessoas se viciam? Não. Não é uma coisa que é generalizada. Algumas pessoas têm mais capacidade de manter o controle e outras pessoas, não.
E no caso de crianças e adolescentes? A criança não tem a capacidade discriminatória, ou seja, ela não consegue separar a realidade de fantasia, e não consegue separar algo que seja positivo de algo que é absolutamente inadequado.
Ao entrar em contato com a pornografia, ela pode entender aquele material como habitual, como corriqueiro, como natural, como sendo a prática do sexo de uma forma geral. Ou seja, ela vai entender o sexo sempre como algo daquela natureza.
Continua após a publicidade
O mínimo que vai acontecer é ela se tornar refém de corpos exuberantes e práticas altamente performáticas que ela não vai conseguir alcançar ao longo da vida.
Sem entrar no mérito de que o material é feio ou proibitivo, porque isso é muito relativo, mas é importante pensar que isso já está acontecendo com muitos adolescentes que não vão mais fazer contato físico, na medida em que eles não se sentem atraídos pela parceria possível. Eles não se sentem atraídos nem se desenvolvem no contato, porque têm muito receio de não performar como assistiram nos vídeos pornográficos.
Então, eles evitam e passam a não se lançar numa atividade sexual presencial. Isso é um problema? Desde que ele quisesse se lançar e não estivesse conseguindo, aí temos um problema. Não quer dizer que todo mundo tem que fazer sexo necessariamente, mas o que acontece nesses casos é que a pessoa acaba não fazendo não por uma escolha, mas por uma autolimitação.
Ou seja, ele tem uma autoimagem e uma autoestima muito aquém daquilo que ele consideraria necessário para um bom desempenho sexual.
Pornografia afeta o cérebro de crianças (Towfiqu Photography/Getty Images)
Além desses prejuízos na relação com o outro e consigo mesmo, dá para afirmar que a pornografia afeta o cérebro das crianças e adolescentes? Sim, claro. A gente vai percebendo que, com essa e qualquer outra atividade que se torna repetitiva e que exclui outras formas de viver de um modo mais complexo, o cérebro acaba tendo mudanças estruturais, não só funcionais.
Os estudos mostram que, com o tempo, há uma mudança que deixa de ser apenas na funcionalidade. O que eu chamo de funcional? Aquilo que depende das substâncias que são lançadas na circulação que vão determinar um tipo ou outro de comportamento. Aí, de repente, esse comportamento faz da pessoa uma refém.
Aquele comportamento já se tornou tão habitual que pode até ter determinadas mudanças cerebrais estruturais, que agora estamos começando a estudar. Ou seja, numa criança, as chances dessas mudanças acontecerem são muito maiores.
O cérebro se desenvolve da parte posterior para anterior ao longo da vida. Então, a primeira estrutura cerebral a se desenvolver é o cerebelo, que dá o equilíbrio físico, fazendo com que a criança consiga se posicionar, aprender os movimentos…
Já ao longo da vida, outras partes vão sendo desenvolvidas, até que, ao nível de 21 até 25 anos, o lobo pré-frontal está pronto. É só nessa idade que o lobo pré-frontal é finalizado. Ele representa o raciocínio, a capacidade de organização, a capacidade decidir por isso e não por aquilo de uma forma racional.
Ou seja, antes dos 21 até 25 anos, a pessoa vai responder de forma muito mais impulsiva do que de forma mais dedutiva. Portanto, tudo antes disso é muito mais conduzido e gerenciado pelo impulso. É por isso que o adolescente é tão difícil de ser controlado.
Portanto, dá para a gente supor que, enquanto o cérebro está se formando, enquanto ele está sem a capacidade de discernimento de fazer uma escolha baseada em racionalidade, é claro que ele precisaria estar sendo conduzido ou orientado.
Quando uma criança fica dentro de um ambiente fechado, sem nenhum controle, livremente, fazendo todos os acessos a todo tipo de material que ela possa acessar, ela acaba não tendo essa capacidade de ser orientada e conduzida, enquanto não tem a maturidade cerebral suficiente para fazer suas escolhas e para entender de uma forma mais adequada o que ela está acessando.
O vício em pornografia pode interromper esse desenvolvimento de alguma maneira? Não que ele vá interromper, mas vai influenciar. E as atitudes da criança ou do adolescente serão influenciadas de forma desenfreada.
Não dá para você querer que um adolescente coloque, por si só, um limite naquilo que está lhe dando prazer. Quando ele tem o seu pré-frontal desenvolvido, ele atingiu já a idade dos 21 aos 25 anos, ele já consegue, pela sua maturidade cerebral, um controle, que é mais difícil numa idade mais precoce.
Muitos artistas, como Billie Eilish, têm compartilhado relatos sobre os danos da pornografia na infância, que vão desde pesadelos a problemas psiquiátricos. O que os estudos mostram que a pornografia pode causar na vida das crianças? E isso pode repercutir na vida adulta? Vamos pensar de uma forma geral como o mundo virtual pode levar essa criança a se distanciar do mundo real. As escolhas que ela faz no mundo virtual podem ser tanto mais distantes da realidade quanto ela resolver e não tiver nenhum tipo de apoio no sentido de poder fazer esse discernimento e dizer ‘isso aqui é virtual, isso não compatibiliza com a realidade’.
Ela acaba tendo um entendimento da realidade muito negativo, acaba fugindo da realidade cada vez mais. Por quê? Porque a recompensa não está no real, está no virtual. A criança vai pensar: “eu sou muito mais feliz e muito menos frustrada quando eu estou no mundo virtual”.
Até porque ela foge daquilo que não é confortável, e vai criando uma realidade paralela. E essa realidade paralela é bem entre aspas, porque não é realidade: é uma virtualidade que se torna a sua realidade.
Se a gente for pensar, isso se aproxima muito de uma vivência completamente desconectada do que é interessante para a vida prática daquela pessoa, porque ela acaba não tendo condição de aceitar a vida exatamente como ela é e de se preparar para os embates da vida. Ela fugiu tanto, se distanciando do real, que acabou se tornando frágil, vulnerável, uma pessoa que não consegue lidar com os estressores comuns próprios da vida.
Por exemplo, é lógico que você vai encontrar pessoas que gostam de você e vai encontrar pessoas que não gostam de você. Como lidar com isso? No mundo virtual, você se afasta do que é negativo e aquilo deixa de existir, mas no mundo real não é assim.
Eu não preciso sofrer nem me desequilibrar porque alguém deixou claro que eu não sou a escolha dessa pessoa. Mas, se eu não estou preparada para a rejeição, porque eu não estive em contato com a rejeição ao longo da vida, eu não sou livre de uma depressão em função de ter sido rejeitada.
Ou seja, aquilo que não abalaria alguém que ao longo da vida foi tendo esse contato com o real e foi aprendendo a lidar com a rejeição abala muito mais essa outra pessoa, podendo levar a problemas sérios, como estamos assistindo hoje a um aumento de casos de ansiedade e depressão entre crianças e adolescentes. Há muito mais casos de desequilíbrio mental por conta de a realidade ser entendida como muito cruel comparativamente com o mundo virtual.
E também tem outro aspecto. Se essa pessoa nunca viveu limites, ela também não consegue, no mundo real, enfrentar limites. Então, ela vai ter um comportamento inadequado de não conseguir aceitar regras. Por exemplo, há uma regra social básica que diz “aqui é um terreno que você não pode passar”. Se a pessoa está dentro de um ambiente social e não quer aceitar que há ali uma porta de acesso restrito, ela vai querer entrar.
Ou seja, coisas básicas que qualquer um entende como fazendo parte parte da vivência social essa pessoa não entende, porque no mundo virtual não existe isso. O limite se torna cada vez mais frouxo até que ela se acostuma e aceita só o que é ilimitado. E, quando eu aceito o ilimitado, vou buscar cada vez mais o vício, porque preciso de estímulos maiores para ter a mesma sensação.
Aquilo que a dopamina conseguia jogar na circulação com o estímulo X, hoje eu preciso de 2X. E assim sucessivamente. Além da frequência ser mais alta, os estímulos têm que ser mais intensos.
Então, dá para a gente comparar o vício da pornografia às alterações que a gente vê em outros comportamentos de vício também, como as drogas, por exemplo? Exatamente, é o mesmo princípio. Droga, sexo, comida, jogo: é tudo um princípio igual.
Não vamos demonizar a pornografia: ela é real, ela existe. Não vamos negar que ela acaba fazendo parte da vida, especialmente adolescentes gostam de acessar a pornografia, porque é algo novo e estimulante.
A pornografia está fartamente distribuída. O que a gente tem que entender? É que os nossos adolescentes e nossas crianças precisam estar mais bem amparados. Você está acessando o que você gosta na internet? O que te chama a atenção? Por que você acessa esse conteúdo? Isso tudo precisa ser perguntado para a criança ou adolescente.
No passado, você sabia que as crianças e os adolescentes iam atrás das revistas que tinham conteúdo sexual. E guardavam debaixo da gaveta ou em lugares onde iam acessar escondido. A diferença é que a fantasia dependia da pessoa: quanto mais ela fosse, vamos dizer, criativa, mais ela fantasiava em cima de uma foto. Agora, a coisa é mais explícita.
Inclusive, tem um outro risco do acesso aos vídeos pornográficos que eu gostaria de apontar, que é o risco de você limitar o pensamento, o raciocínio e a criatividade, porque tudo já vem pronto; é sempre uma conduta pré-estabelecida. E não é só em relação à pornografia, mas em tudo que já vem pronto na internet que você acaba se conduzindo de uma forma pré-definida e não tem mais o que criar.
E isso a gente vem observando que os jovens vêm tendo muito mais dificuldade que gerações anteriores em sair do usual, do habitual, do previsível e ter mais criatividade em cima de novas possibilidades.
Mas, como eu disse, a pornografia existe e precisamos encarar que ela existe. Vamos encarar que eu, como adulto, tenho que estar mais preparado para essa abordagem com crianças e adolescentes. Se o adulto só proibir a pornografia, como vai coibir de forma efetiva que ela seja acessada?
Prevenção do vício passa pelo diálogo aberto com crianças e adolescentes, defende psiquiatra (Thinkstock/VEJA)
Essa é a pergunta de milhões: como fazer isso? É importante dizer que isso é muito diferente de você levar o jovem a esse acesso e ficar junto com ele assistindo, porque isso se vê em algumas famílias. Eu não estou falando disso.
Estou falando de você se interessar por saber o que aquela pessoa, que tem poucos anos de vida, está buscando na internet e o que está despertando o interesse dela. Como, onde e por quê? Tudo isso é material para a gente educar, para a gente conversar e para a gente, de alguma forma, conseguir estar mais informado sobre o que está acontecendo na vida virtual, que, às vezes, é até mais ampla e mais impactante do que a real nesses púberes e nesses adolescentes.
A criança está sempre em risco, porque ela não tem um cérebro desenvolvido a ponto de estabelecer ‘agora eu paro, deixa eu fazer uma coisa mais importante agora, não posso continuar aqui’.
E o que leva uma criança a buscar esse tipo de conteúdo? Seria a curiosidade? A criança é muito curiosa. Tudo aquilo que você proíbe é como se você estivesse estimulando ainda mais essa curiosidade.
Por isso que eu digo: importante não é você fechar ou tentar de forma definitiva tirar aquilo da vida daquela criança, mesmo porque isso é impossível, uma vez que ela tem as telas à disposição ou vai buscar em algum lugar e vai conseguir. “Ah, mas vai ser muito mais difícil”. Pois é, talvez quanto mais difícil, mais estimulada ela estará pela busca. É preciso entender que a curiosidade é natural.
Então, a melhor forma de prevenir seria conversar com a criança sobre sexo? Exatamente. A educação sexual começa com a primeira pergunta da criança. E a primeira pergunta não vai ser aos 10 anos; provavelmente vai ser aos três, aos dois.
Claro que a resposta vai ser adequada à pergunta e à idade da criança. Não adianta o adulto fazer uma palestra a respeito daquilo que o filho perguntou. O ideal é responder exatamente o que a pergunta questiona.
Se a criança diz, por exemplo, “por que eu tenho um pipi e a minha irmã não tem?”. O adulto não precisa dar uma aula sobre fertilização; basta responder a pergunta.
Os pais precisam estar prontos para falar disso com seus filhos. Algum poderia dizer: “mas eu nunca falei disso, não estou em condições de discutir esse assunto com meu filho, me constranjo demais”. Bom, então é hora de buscar como sair dessa. Será que é a escola? Será que é você se preparando através da busca de material sobre educação sexual? Será que é alguém da família próximo dessa criança que seja mais tranquilo e mais resolvido em relação a esse assunto? É fundamental que alguma dessas alternativas sejam efetivadas.
E dá para dizer também que o vício em pornografia pode esconder outros problemas, como a solidão ou a ansiedade? Costuma estar por trás desse vício. Aí nós vamos fazer o seguinte paralelo. Se eu posso entrar saudável e adoecer com o uso abusivo, eu também já posso entrar no vício porque já não estou saudável.
Então, eu posso ser levada à depressão pela perda da minha autoestima diante de um prejuízo à minha autoimagem. Aí, eu deprimo porque eu olho aquilo e não tenho a capacidade de performar daquela forma. Eu não tenho aquele corpo, eu não tenho aquela habilidade. Não é todo mundo que vai deprimir porque viu corpos exuberantes em ação de performance, mas, dependendo da minha disposição, posso me deprimir.
O contrário também: eu posso fugir do real porque o real me machuca, porque o real me confronta, porque eu não me sinto capaz de ser feliz ou de ser adequada e eu vou fugir para uma realidade paralela. No mundo virtual, posso me projetar em algum personagem e aí me sentir capaz, poderosa, ilimitada. Aí nós entramos numa condição que a pessoa sai da realidade e passa a viver em uma fantasia total.
E como funciona o tratamento? Do ponto de vista formal, a gente vai utilizar tanto a psicoterapia quanto, dependendo da gravidade e da intensidade, medicações que vão controlar os impulsos.
Não necessariamente todo indivíduo que está nessa situação vai precisar ser medicado, mas, dependendo da intensidade, do tempo em que aquilo está acontecendo e da gravidade e repercussão para sua vida, nós precisamos cortar mais rapidamente do que uma terapia conseguiria fazer.
Esses remédios acabam controlando os impulsos. Não é um controle seletivo, não vai ser só o impulso da pornografia, mas esse é o target. Isso está tão generalizado que não tem outros impulsos. Essa é a vida da pessoa.
Então, se eu estou controlando aquele impulso, eu estou controlando praticamente tudo que aquela pessoa faz e dando espaço para que outras atividades, que vão sendo estimuladas pela terapia, passem a ocupar esses espaços que agora eu controlei com o auxílio dos medicamentos.
Às vezes você precisa usar a medicação, porque esse indivíduo está tão alienado e tão prejudicado, até mesmo emagrecido e doente, porque ele não consegue sair das telas, ele faz aquilo em detrimento do sono e da alimentação. Então, a gente vai medicá-lo para que ele tenha os seus impulsos mais controlados e, com isso, consiga mais rapidamente ir retornando a uma vida mais mais habitual.
Casos mais leves podem responder a um entendimento gradual e a um controle que vai sendo alcançado pelo processo terapêutico, existem técnicas próprias para esse tipo de abordagem.
E isso tem cura? Ou a pessoa vai precisar lidar com isso a vida inteira de alguma maneira? Não, isso pode ser curado. Mas é algo que demanda muita, muita adesão.
Quanto mais suporte social essa pessoa tiver, quanto mais vontade própria ela tiver, quanto menos tempo tiver transcorrido entre o início dessa situação e a busca por tratamento, quanto mais for algo que a própria pessoa rejeita em si, maiores serão as chances de ela se recuperar.
Se a pessoa não adere, ela cai fora. Ela não consegue. Ela precisa de ajuda. Se ela conseguisse, ela não estaria refém da situação. É isso que diferencia ela da outra pessoa que entra, vê, se diverte um pouco, se distrai e sai com toda liberdade. Ela não é livre para isso. Por isso que ela precisa de tratamento.
É por isso que a rede de apoio é tão importante. Às vezes, a pessoa perde a grande chance de sair dessa situação porque há preconceito.
Ninguém se torna viciado porque quis. É muito importante entender essa situação como uma incapacidade, uma fragilidade, uma vulnerabilidade, e não como um uma deliberada condição, assim como o alcoolismo.
A pessoa que bebe foi discriminada durante muito tempo, até que se entendeu, a família entendeu, a sociedade entendeu: que ali estava um limite de controle. Da mesma forma acontece com a pornografia e outros vícios.
É fundamental entender que aqui temos alguém que pode ser ser uma outra história, dependendo do quanto o seu entorno puder fazer o papel daquele controle, daquela força, daquela ajuda que a própria pessoa não está conseguindo dar para si mesma.
A gente vê pelos estudos que pessoas que tiveram familiar e rede social mais envolvida têm melhor prognóstico do que aquele que, sozinho, sem nenhum tipo de apoio, vai buscar sair dessa situação. Porque ele volta para o seu ambiente e não tem nenhum tipo de alternativa. Não tem quem vá distraí-lo com outra coisa, vá conversar com ele sobre a questão…Então, a rede de apoio é um determinante para ajudar essas pessoas.