Os exames que podem revolucionar o diagnóstico e o tratamento da depressão

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A depressão afeta milhões, mas seu tratamento ainda é um desafio, com muitos pacientes demorando a encontrar a medicação certa. Uma nova abordagem, a psiquiatria de precisão, busca identificar subtipos biológicos da doença para oferecer terapias personalizadas, usando fMRI e células-tronco, prometendo mais eficácia e esperança.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Mais de 280 milhões de pessoas vivem atualmente com depressão no mundo, maior causa de incapacidade mundial. No Brasil, estima-se que cerca de 10% da população sofra ou já tenha experienciado o transtorno.
Além de provocar sofrimento intenso, a depressão está associada a afastamentos do trabalho, piora de doenças cardiovasculares, maior utilização de serviços de saúde, risco aumentado do desenvolvimento de demência, aumento do risco de suicídio. O custo econômico resultante é da ordem de trilhões de dólares. Embora existam vários tratamentos disponíveis, uma das maiores dificuldades da saúde mental continua sendo prever qual deles funcionará para cada paciente.

Há duas décadas, o STAR*D (um grande estudo clínico pragmático sobre tratamento para a depressão financiado pelo governo norte-americano) mostrou que apenas cerca de 30% dos pacientes alcançaram remissão com a primeira medicação prescrita.

Os resultados desse estudo revelaram também que as chances de sucesso diminuem progressivamente a cada nova tentativa terapêutica. Pouco menos de metade dos participantes alcançaram remissão após múltiplas intervenções, mas isso exigiu meses de tratamento e sucessivas trocas de medicação. Anos de sofrimentos, perdas, efeitos colaterais. Para quase metade dos pacientes, a remissão completa nunca foi alcançada.

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O diagnóstico de depressão reúne pessoas que compartilham alguns sintomas, mas não necessariamente os mesmos mecanismos biológicos. Quais dessas diferenças (dormir muito ou não conseguir dormir, ganhar muito peso ou não conseguir comer, ter mais apatia, menos prazer ou mais dificuldades cognitivas, ficar mais lentificado ou agitado, por exemplo) são variações de sintomas e quais representam, de fato, pistas sobre mecanismos subjacentes da doença?  
A dificuldade não é surpreendente.

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Diferentemente do que ocorre em muitas áreas da medicina, os transtornos mentais continuam sendo diagnosticados principalmente a partir da história clínica, dos sintomas apresentados e da observação cuidadosa da evolução do paciente.
Enquanto um oncologista pode analisar diretamente células de um tumor ou um hematologista pode estudar alterações no sangue, não é possível obter rotineiramente amostras de tecido cerebral de pessoas com depressão para investigar os mecanismos biológicos envolvidos em cada caso. O cérebro continua sendo um dos órgãos mais complexos e menos acessíveis da medicina.

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Uma nova era?
Foi justamente na tentativa de lidar com esse desafio que nasceu o campo da psiquiatria ou saúde mental de precisão (precision psychiatry).  A psiquiatria de precisão parte da ideia de que o que hoje chamamos de depressão talvez inclua alguns subgrupos biológicos distintos, capazes de responder melhor a tratamentos diferentes. Pesquisadores procuram identificar alterações nos circuitos cerebrais envolvidos em cada paciente e utilizar essas informações para orientar tratamentos mais personalizados.
Uma das principais lideranças desse movimento é a neurocientista australiano-americana Leanne Williams, diretora do Center for Precision Mental Health and Wellness da Stanford Medicine. Williams traz para a área tanto rigor científico quanto uma profunda motivação pessoal, marcada pela perda do parceiro por suicídio após anos sofrendo de depressão. Recentemente, a pesquisadora foi escolhida para liderar a Comissão de Precisão em Saúde Mental (Commission on Precision in Mental Health), uma iniciativa internacional voltada a redefinir com maior precisão o diagnóstico, o monitoramento e o tratamento dos transtornos psiquiátricos.

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Em uma série de estudos de destaque publicados por seu grupo de pesquisa — incluindo um ensaio de grande escala envolvendo mais de 800 participantes —, a equipe de Williams utilizou ressonância magnética funcional (fMRI) para mapear o cérebro e identificar seis biotipos neurobiológicos distintos de depressão e ansiedade.
As descobertas revelaram também diferenças cruciais de resposta aos tratamentos. O biotipo de hiperatividade no circuito de controle cognitivo (pacientes apresentavam maiores níveis de anedonia – inabilidade de sentir prazer) apresentou melhor resposta à venlafaxina, um antidepressivo de uso amplo. Já o biotipo caracterizado pela dificuldade de concentração e tomadas de decisão, respondeu significativamente melhor à terapia de resolução de problemas (Problem-Solving PST — uma variante da terapia cognitivo-comportamental focada em estratégias práticas para enfrentar desafios cotidianos), enquanto apresentou baixa eficácia aos antidepressivos convencionais.

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O trabalho pioneiro do grupo de Williams demonstra que, potencialmente, o mapeamento do funcionamento cerebral poderá indicar o caminho terapêutico ideal logo no início do diagnóstico, poupando os pacientes do desgastante ciclo de tentativa e erro que ainda marca o tratamento da depressão.
Outra abordagem promissora está sendo desenvolvida pela equipe de Daphna Leifenfeld, neurocientista com pós-doutorado na Harvard University e cofundadora da empresa de biotecnologia NeuroKaire. Em vez de examinar diretamente o cérebro por meio de exames de imagem, sua equipe utiliza células sanguíneas dos próprios pacientes.
Com base na tecnologia de células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs) — criada pelo cientista japonês Shinya Yamanaka e laureada com o Nobel de Medicina em 2012 —, células adultas do sangue perdem sua identidade original em uma espécie de ‘regressão celular’ para, em seguida, serem direcionadas a se tornarem neurônios do próprio paciente. A ciência é linda, não?   O resultado é um modelo neuronal individual do paciente, criado antes mesmo da escolha do tratamento medicamentoso.
Esses neurônios são então expostos a diferentes antidepressivos para medir alterações na neuroplasticidade — a capacidade de reorganização e formação de conexões neurais —, considerada um dos mecanismos centrais da resposta aos psicotrópicos.  A promessa é atraente: substituir parte do atual processo de tentativa e erro por um teste laboratorial capaz de indicar quais medicamentos têm maior probabilidade de funcionar para aquele paciente específico.
Ainda estamos longe de uma aplicação ampla dessas tecnologias. Muitas perguntas permanecem sem resposta. Não está claro quais biomarcadores serão mais úteis, quais métodos sobreviverão à validação científica rigorosa ou quais deles conseguirão chegar ao sistema de saúde com custo acessível.
Existe ainda uma questão conceitual importante. A depressão não é apenas uma doença do cérebro. Experiências de vida, traumas, isolamento social, relações afetivas, pobreza, desemprego e desigualdade também influenciam seu surgimento e evolução. Nenhuma ressonância magnética e nenhuma cultura de neurônios conseguirá capturar toda essa complexidade.
A psiquiatria de precisão não parece caminhar para substituir a psicoterapia ou reduzir o sofrimento humano a exames laboratoriais. Seu objetivo mais plausível talvez seja outro: reconhecer que pacientes aparentemente semelhantes podem estar adoecendo por mecanismos diferentes — e que tratamentos distintos podem funcionar melhor para cada um deles.
A oncologia levou décadas para sair da classificação baseada apenas no órgão afetado e chegar à medicina personalizada que conhecemos hoje. A psiquiatria talvez esteja começando a percorrer um caminho semelhante.
*Ilana Pinsky é psicóloga clínica, doutora pela Unifesp e coautora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto), e Longevidade hoje (Fósforo). Foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Colúmbia. Siga a colunista no Instagram: @ilanapinsky_

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