Ler Resumo
Uma pesquisa com idosos nos EUA revela que sonecas diurnas frequentes podem ser um marcador precoce de risco de demência. O estudo associou cochilos a 48% mais chances de desenvolver a condição, sugerindo que padrões de sono podem indicar alterações cerebrais antes do diagnóstico. Saiba mais sobre essa importante descoberta.
Este resumo foi útil?
👍👎
Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
As sonecas durante o dia podem dar pistas sobre o risco de desenvolver demência no futuro. É o que aponta uma pesquisa que acompanhou 995 idosos nos Estados Unidos ao longo de uma década.
Segundo o estudo, publicado no início deste mês na revista científica The Journal of Gerontology: Medical Sciences, os participantes que cochilavam com frequência foram associados a um risco 48% maior de desenvolver demência em comparação com aqueles que raramente ou nunca tiravam sonecas.
Os resultados foram mantidos independentemente de fatores demográficos, condições de saúde e características do sono noturno dos voluntários, como duração do sono, sonolência diurna e o risco de apneia obstrutiva do sono.
O estudo não é causal, ou seja, ele não prova que a soneca causa demência. O que ele encontrou foi uma associação entre essas duas variáveis, indicando que os cochilos, especialmente não intencionais e longos, podem ser um marcador precoce e acessível para ajudar a identificar idosos com maior risco de demência e orientar intervenções para a prevenção do problema.
“Mesmo que essa associação não seja causal, os cochilos podem ser um marcador útil do risco futuro de demência para orientar estudos de prevenção subsequentes em populações de alto risco”, escreveram os autores na publicação.
Continua após a publicidade
Como o estudo foi feito
A pesquisa utilizou dados do Estudo Nacional de Tendências de Saúde e Envelhecimento (NHATS), um levantamento realizado anualmente desde 2011 com idosos do Medicare, famoso programa de saúde do governo dos Estados Unidos. Todos os voluntários tinham 65 anos ou mais.
Os pesquisadores usaram especificamente os dados de uma rodada do NHATS sobre sono, em que os participantes foram questionados sobre frequência, intenção e duração dos cochilos.
A frequência de cochilos foi definida com base na pergunta: “No último mês, com que frequência você tirou cochilos durante o dia? ”. Os voluntários que responderam “nunca” ou “raramente” foram categorizados como “não-cochiladores“, enquanto aqueles que responderam “alguns dias” foram categorizados como “cochiladores ocasionais“.
Continua após a publicidade
Já aqueles que responderam “na maioria dos dias” ou “todos os dias” foram considerados “cochiladores frequentes“.
Entre os participantes adeptos da soneca, a intenção do cochilo foi medida a partir do questionamento “Em geral, esses cochilos foram planejados ou você adormeceu sem querer? “.
Os participantes que responderam “cochilos planejados” foram classificados como “cochiladores intencionais“, e aqueles que responderam “adormeci sem querer” ou “ambos (alguns planejados/outros não)” foram classificados como “cochiladores não intencionais“.
Continua após a publicidade
Aqueles que tiravam cochilos também informaram quanto tempo, em média, duravam esses cochilos. As respostas foram categorizadas como menos ou igual a 30 minutos ou mais do que 30 minutos para análise.
Além disso, um algoritmo de classificação de demência classificou os participantes como não apresentando demência, com “demência possível” ou com “demência provável”.
“Demência provável” foi definida como o atendimento a critérios como diagnóstico de demência ou doença de Alzheimer relatado por um participante ou um respondente substituto e comprometimento abaixo da média em pelo menos dois dos três domínios cognitivos (orientação, memória e função executiva). “Demência possível“, por sua vez, foi definida como comprometimento em um domínio cognitivo.
Continua após a publicidade
Os resultados
Entre os 995 participantes, 417 desenvolveram demência possível ou provável durante um acompanhamento mediano de 5 anos. Entre eles:
37,8% entre os 482 não-cochiladores;
41,8% entre os 292 cochiladores infrequentes; e
51,1% entre os 221 cochiladores frequentes.
Em comparação com aqueles que não cochilam, o hábito frequente de cochilar foi associado a um risco maior de desenvolver demência possível/provável, segundo o estudo.
Um total de 48,1% daqueles que cochilavam não intencionalmente desenvolveram possível/provável demência. O número caiu para 43% entre aqueles que cochilavam intencionalmente.
Continua após a publicidade
“Cochilos não intencionais foram associados à incidência de possível/provável demência, independentemente de dados demográficos, covariáveis de saúde e características do sono”, diz o estudo.
Já em relação à duração dos cochilos, 46,3% dos participantes que cochilavam por ≤30 minutos desenvolveram a condição, enquanto 45,4% dos que cochilavam por >30 minutos tiveram a doença.
Tanto cochilos de ≤30 minutos quanto de >30 minutos apresentaram um risco maior de desenvolver demência quando comparados a pessoas que não cochilavam. Mas, com ajuste adicional para características do sono, apenas cochilos de ≤30 minutos permaneceram associados à demência, segundo os pesquisadores.
Qual a relação entre cochilos e demência?
A relação entre cochilos e saúde cognitiva permanece incerta. O estudo aponta que pesquisas anteriores apresentaram resultados inconsistentes sobre o tema.
Isso porque algumas sugeriram uma associação entre cochilos de maior duração e comprometimento cognitivo, enquanto outras encontraram uma associação nula ou até mesmo potenciais benefícios de cochilos curtos ou moderados na função cognitiva.
Esses resultados variados podem refletir, em parte, diferenças no contexto geográfico e nas normas culturais relacionadas ao cochilo. “Uma revisão sistemática e meta-análise relatou que, de modo geral, cochilos diurnos mais longos estão associados a comprometimento cognitivo, mas, quando estratificada por região, a associação foi encontrada na América do Norte e na Europa, mas não na Ásia”, ilustram os autores.
Segundo os pesquisadores, grandes coortes populacionais podem ajudar a identificar subpopulações nas quais a ligação entre cochilos e demência é mais forte ou mais fraca.
Ao que tudo indica, porém, assim como ocorre com os distúrbios do sono, a associação entre cochilos e demência pode ser bidirecional, aponta o estudo.
Ou seja, cochilar é um fator de risco potencial para demência, ao mesmo tempo que a degeneração de regiões cerebrais responsáveis pela regulação da vigília — que pode ocorrer precocemente durante a demência — também pode levar a cochilos diurnos mais frequentes.
No estudo, a equipe excluiu os casos de demência diagnosticados nos primeiros cinco anos de acompanhamento e descobriu que as associações para cochilos frequentes e não intencionais permaneceram semelhantes. O resultado reforça a ideia de que os padrões de cochilo podem preceder significativamente um diagnóstico de demência.
“Sonecas mais frequentes podem ser um indicador de alterações cerebrais, em vez de uma causa de alterações cerebrais que levam à demência”, resume Adam Spira, autor principal do artigo e professor do Departamento de Saúde Mental da Escola Bloomberg, em comunicado à imprensa.
Os pesquisadores apontam ainda que também são necessários estudos de longo prazo para determinar se a mudança nos hábitos de cochilo poderia ajudar a retardar ou prevenir o início da demência.