As novidades da medicina para aprimorar o controle da insuficiência cardíaca no Brasil

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A insuficiência cardíaca afeta milhões de brasileiros e é subestimada, apesar de sua gravidade. A Sociedade Brasileira de Cardiologia lançou novas diretrizes para otimizar o tratamento, focando no diagnóstico precoce, na combinação de medicamentos, no acompanhamento multidisciplinar e na prática de exercícios. Um problema sério que exige atenção urgente.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Em 2017, aos 55 anos, a representante comercial Mara Martins começou a sentir um cansaço excessivo, a ponto de não conseguir acompanhar as amigas nas caminhadas. Seu peito também passou a disparar com frequência. “Eu percebia meu coração batendo 24 horas por dia”, recorda a moradora de São Paulo. Os sintomas de Mara são o que os médicos poderiam chamar de “caso de livro”, sinais clássicos de uma doença — no caso, a insuficiência cardíaca. A vendedora, hoje com 64 anos, viria a receber um diagnóstico compartilhado com outros 2 a 4 milhões de brasileiros, um contingente que pode ser subestimado se levarmos em conta as causas do problema, como envelhecimento, hipertensão, diabetes ou histórico prévio de infarto. Nessas circunstâncias, por fadiga ou rigidez, o órgão que bombeia o sangue para o corpo deixa de cumprir seu papel direito.
O diagnóstico de Mara Martins foi acompanhado de uma odisseia entre consultas e procedimentos — ela inclusive precisou realizar cirurgias para sanar falhas na irrigação e nas válvulas cardíacas. O descompasso no peito, de mãos dadas com a hipertensão e o diabetes, abriu caminho a problemas circulatórios que geraram acúmulo de líquido no organismo, o que, por sua vez, dificultava a respiração e a levava com frequência ao hospital. Tamanho impacto no cotidiano é uma realidade comum a quem convive com a insuficiência cardíaca. “Durante um tempo eu tinha dificuldade para realizar as tarefas mais simples”, lembra Mara, que depois veio a se tratar no Instituto Dante Pazza­nese de Cardiologia.

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A insuficiência cardíaca é uma ameaça das grandes: fora a alta letalidade, maior inclusive que a do câncer de mama, trata-se de uma das enfermidades que mais geram internações no mundo — são cerca de 250 000 hospitalizações por ano só no Brasil. Ainda assim, é ignorada por boa parte da população, e lacunas em seu controle fazem dela uma chaga para a saúde pública. É justamente para reverter esse cenário dramático que, durante o Congresso Mundial de Cardiologia, recém-ocorrido no Rio, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) apresentou uma nova diretriz de tratamento da doença.

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O documento, destaque em um evento que reuniu 15 000 profissionais, é uma oportunidade de chamar a atenção da sociedade para um problema que às vezes passa batido até no consultório médico. “Queixas como pernas inchadas, cansaço e falta de ar durante o esforço físico são vistas como coisas da idade, mas, na verdade, são sinais de alerta que devem ser investigados”, diz o cardiologista Marcus Vinicius Simões, presidente do Departamento de Insuficiência Cardíaca da SBC e coordenador da nova diretriz. Embora o envelhecimento em si cobre um pedágio do músculo cardíaco, fato é que anos de pressão alta ou diabetes fora de controle, obesidade e tabagismo aumentam a propensão ao quadro, que também pode surgir como sequela de um ataque do coração ou por problemas estruturais no órgão.

“CANSAÇO EXCESSIVO” – Mara Martins, de 64 anos, foi diagnosticada com insuficiência cardíaca depois de perceber fadiga após esforço e sentir o coração disparar. Passou por cirurgias, toma diversos remédios e aguarda novo procedimento para superar restrições. (Iara Brezeguello/.)

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É para evitar que pessoas com esse diagnóstico demorem a receber o devido cuidado e derrubar mitos que invadem até os domínios médicos que a SBC atualizou suas recomendações terapêuticas. Elas abrangem os dois principais tipos de insuficiência cardíaca e envolvem de mudanças no uso de remédios à prescrição de exercícios físicos. Uma das maiores transformações diz respeito à lógica na administração dos medicamentos. “Antigamente, eles eram introduzidos aos poucos, com um longo intervalo. Hoje sabemos que há um benefício em receitá-los o mais precocemente possível”, afirma Simões, da SBC. Assim, o lema é conjugar classes de comprimidos diferentes e vencer a inércia para adotá-los, o que engloba um ajuste gradual até chegar às doses máximas, que oferecem a proteção esperada.
No caso da insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, conhecida como “coração fraco”, o plano de ação prevê combinar quatro fármacos, todos disponíveis no SUS: drogas originalmente concebidas para baixar a pressão arterial da categoria da valsartana; aquelas que resguardam o músculo cardíaco, como betabloqueadores; as que impedem a formação de “cicatrizes” no órgão, caso da espironolactona; e, ainda, medicações criadas para o diabetes tipo 2 que se provaram aliadas do coração, como a empagliflozina. Sim, são muitos remédios. Por isso, a medicina vem pensando em soluções a fim de facilitar a adesão dos pacientes. O laboratório francês Servier, por exemplo, estuda no Brasil uma polipílula que combina quatro princípios ativos para atuar na insuficiência cardíaca — a previsão é que ela possa chegar ao mercado em três anos. Já na insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, apelidada pelos experts de “coração rígido” e bastante associada a diabetes e obesidade, a novidade foi a aprovação de um remédio chamado finerenona.

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SOB PRESSÃO - Hipertensão: um dos principais fatores de risco para o mal (Stock photo directors/Getty Images)

Indicado, a princípio, para pessoas com doença renal crônica, ele foi alvo de pesquisas que demonstraram seu potencial para o problema no coração. Outra terapia que passa a integrar as diretrizes é representada por ninguém mais, ninguém menos que as canetas emagrecedoras, como ficaram conhecidos os análogos de GLP-1. “Elas não só atuam na obesidade, que é uma das causas da insuficiência cardíaca, como reduzem a inflamação que afeta o coração”, explica Simões. O ganho de peso, aliás, é um dos fatores por trás do crescimento dessa versão da doença nas últimas duas décadas. “A gordura visceral, aquela que se acumula entre os órgãos, não poupa o coração e parece inflamar e enrijecer o músculo cardíaco”, descreve o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, da USP de Ribeirão Preto.

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Mas o tratamento não se resume a remédios. A bússola da SBC endossa a importância de um acompanhamento multidisciplinar, isto é, que congregue médicos, nutricionistas, educadores físicos, psicólogos e fisioterapeutas. É o pacote todo, que infelizmente ainda se mostra pouco acessível no Brasil. Só que faz toda a diferença. Uma das mudanças de paradigma nesse contexto, inclusive, é a recomendação da atividade física, que durante anos foi colocada de escanteio para priorizar o repouso aos pacientes. Hoje, treinos supervisionados — da caminhada à musculação — são extremamente bem-vindos. “Tanto para melhorar a capacidade cardiorrespiratória como para combater a perda de massa magra ligada à doença”, diz Simões.

SEM REPOUSO – Treino supervisionado: ele integra o plano terapêutico e pode agregar exercícios de força muscular (Luis Alvarez/Getty Images)

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Por fim, o documento que deve servir de guia aos cardiologistas do país exalta uma medida e pede cautela com outra. A SBC encoraja a vacinação dos indivíduos que vivem com insuficiência cardíaca, uma vez que infecções como a gripe desestabilizam o quadro e sobrecarregam o sistema cardiovascular. Imunização, nesses casos, é algo, portanto, prioritário. Na contramão, suplementos alimentares e vitamínicos que viraram panaceia nos últimos tempos não são indicados, pela falta de evidências científicas robustas a seu favor — isso vale para ômega-3, coenzima Q10, vitamina D e companhia.
Aprimorar o controle da insuficiência cardíaca no Brasil, ressalte-se, é uma tarefa complexa e urgente. “Estamos falando de uma condição em que, após o diagnóstico, se não houver tratamento, 50% dos pacientes vão morrer em cinco anos”, afirma a cardiologista Carolina Casadei dos Santos, do Instituto Dante Pazzanese. Felizmente, com o devido acompanhamento médico, pacientes como a representante comercial Mara Martins já deixaram para trás esse prognóstico. Mas ainda há desafios pela frente. “Apesar das melhoras com o último tratamento, ainda sinto bastante limitação no dia a dia”, diz. Que a medicina, cada vez mais empoderada, possa operar sua mágica por ela e por outros milhares de brasileiros.
Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017

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