O sangue menstrual poderá se tornar uma ferramenta para auxiliar no diagnóstico da endometriose, doença ginecológica que afeta aproximadamente uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva. Pesquisadores franceses identificaram cinco genes que apresentam diferenças de expressão em amostras de mulheres com a condição, resultado que abre caminho para o desenvolvimento de um exame laboratorial menos invasivo.
Publicado na revista científica BMC Medicine, o estudo foi realizado por uma equipe vinculada ao Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da França (Inserm), ao Instituto Pasteur, à Universidade Lyon 1 e ao Centro Léon-Bérard. Os cientistas investigaram se o fluido menstrual poderia conter sinais biológicos capazes de distinguir mulheres com endometriose daquelas sem a doença.
A proposta é explorar uma amostra de fácil obtenção, coletada com o auxílio de um coletor menstrual, para identificar possíveis biomarcadores. No futuro, essa abordagem poderá complementar os métodos de diagnóstico existentes e reduzir a dependência de procedimentos mais complexos.
Os resultados, porém, são preliminares. A pesquisa envolveu apenas dez participantes, e ainda são necessários estudos maiores para verificar se os marcadores identificados são consistentes em diferentes mulheres e ao longo dos ciclos menstruais.
Por que o diagnóstico da endometriose ainda é um desafio?
A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao revestimento interno do útero cresce em outras regiões do organismo. A doença pode provocar cólicas menstruais intensas, dor pélvica persistente, desconforto durante as relações sexuais, alterações intestinais ou urinárias e dificuldades para engravidar.
Continua após a publicidade
A intensidade dos sintomas varia entre as pacientes, e algumas podem apresentar a doença sem manifestações evidentes. Além disso, esses sinais não são exclusivos da endometriose, o que pode dificultar a identificação do problema.
O intervalo entre o início dos sintomas e a confirmação do diagnóstico também é uma preocupação. Estimativas variam conforme o país e a população estudada, mas atrasos de vários anos são frequentemente relatados.
Atualmente, a investigação costuma começar com a avaliação do histórico clínico e dos sintomas, seguida de exames de imagem. A ultrassonografia transvaginal é uma das principais ferramentas utilizadas, enquanto a ressonância magnética pélvica pode ser indicada em situações específicas.
Continua após a publicidade
Mas a endometriose superficial, por exemplo, pode não aparecer nos exames de imagem convencionais.
Como o sangue menstrual pode ajudar?
O interesse dos cientistas pelo sangue menstrual está relacionado à sua composição. Além das células sanguíneas, esse material contém células provenientes do endométrio, tecido que reveste internamente o útero e participa do ciclo menstrual.
Entre elas estão células epiteliais, estromais, endoteliais e diferentes células do sistema imunológico. Como essas estruturas participam de processos relacionados à endometriose, os pesquisadores investigam se suas características moleculares podem revelar sinais da doença.
Continua após a publicidade
Um dos caminhos estudados é a análise da expressão gênica, processo que permite avaliar quais genes estão mais ou menos ativos em determinadas células. Diferenças nesse padrão podem funcionar como pistas biológicas associadas a uma condição específica.
A vantagem potencial do método é que o material poderia ser obtido sem a necessidade de uma punção venosa para coleta de sangue. A análise também poderia aproveitar o fluido menstrual como um todo, sem exigir, necessariamente, a separação e o estudo individual de cada tipo celular.
Isso não significa, contudo, que o exame já esteja disponível para uso clínico. A técnica ainda precisa passar por etapas de validação para demonstrar sua confiabilidade e sua utilidade na prática médica.
Continua após a publicidade
Estudo analisou amostras de dez mulheres
Para investigar essa possibilidade, os pesquisadores avaliaram amostras de sangue menstrual de dez mulheres com idades entre 18 e 45 anos. Cinco tinham diagnóstico de endometriose profunda, enquanto as outras cinco não apresentavam a doença e formaram o grupo de controle.
As amostras foram obtidas com coletores menstruais. Em seguida, a equipe utilizou técnicas de sequenciamento de RNA para examinar a atividade dos genes nas diferentes células presentes no material.
Uma das abordagens permitiu analisar o RNA de núcleos celulares individuais, ajudando a identificar os tipos de células e suas características moleculares. Paralelamente, os cientistas estudaram o RNA extraído da amostra completa, método que pode ser mais simples e menos dispendioso do que investigar cada população celular separadamente.
Continua após a publicidade
A comparação entre essas duas estratégias foi importante para verificar se os sinais encontrados nas células específicas também poderiam ser detectados no sangue menstrual como um todo.
Os pesquisadores observaram diferenças na expressão de diversos genes entre as participantes com endometriose e aquelas do grupo de controle. As alterações mais numerosas foram encontradas nas células epiteliais do endométrio, seguidas pelas células estromais.
A partir das análises, os cientistas identificaram cinco genes candidatos a biomarcadores que apresentaram sinais detectáveis também na análise global do sangue menstrual: TIMP2, AKR1C2, DMBT1, FERMT1 e KCNK5.
A identificação desses genes é um passo importante porque indica que determinadas diferenças moleculares podem continuar perceptíveis mesmo quando a amostra reúne células de origens e proporções variadas.
Essa característica poderá facilitar o desenvolvimento de um teste laboratorial mais acessível. Ao invés de depender de uma análise detalhada de cada célula, uma futura estratégia diagnóstica poderia investigar diretamente a presença ou os níveis de determinados sinais moleculares no material coletado.
O que ainda precisa ser investigado?
Um dos principais desafios é verificar se os resultados se mantêm em grupos maiores e mais diversos de mulheres. Como o estudo envolveu somente dez participantes, as conclusões precisam ser confirmadas antes de qualquer aplicação clínica.
Os pesquisadores também precisam avaliar se os marcadores permanecem estáveis de um ciclo menstrual para outro e se apresentam resultados semelhantes em diferentes pessoas.
A composição do sangue menstrual pode variar, inclusive na quantidade de células endometriais presentes em cada amostra, o que também representa uma dificuldade para a padronização do exame.
Outra etapa importante será investigar se o desempenho dos biomarcadores muda conforme o tipo de endometriose, a extensão das lesões ou os tratamentos utilizados pelas pacientes.
Essas informações ajudarão a determinar se o método poderá ser empregado como ferramenta de triagem, como complemento aos exames de imagem ou em outras etapas da investigação diagnóstica.