Até uma caminhada pode fazer diferença no controle dos sintomas da asma, mostra estudo da USP

Uma simples caminhada, se feita com frequência, pode ser tão eficiente no controle dos sintomas da asma quanto suar a camisa na academia. É o que aponta uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), que comparou os benefícios de duas abordagens de atividade física em pessoas com a doença.
Publicado na revista científica Pulmonology, o estudo reforça o papel da prática de exercícios como complemento ao tratamento da condição, que atinge cerca de 10% da população brasileira.

O trabalho avaliou 52 pessoas com idade entre 18 e 65 anos diagnosticadas com asma moderada a grave. Todas elas eram fisicamente inativas antes do estudo, ou seja, praticavam menos de 150 minutos de atividade física moderada a vigorosa por semana.
Os participantes foram divididos em dois grupos: 27 realizaram treinamento aeróbico e 25 participaram de uma intervenção comportamental para aumentar a atividade física diária. Em ambos os grupos, foram mantidos os medicamentos já utilizados pelos participantes para o controle da doença.

Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que tanto o treinamento aeróbico quanto o aumento da atividade física diária podem ajudar no controle da asma. Até então, porém, nenhum estudo havia comparado diretamente os benefícios dessas duas abordagens.

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“Até onde sabemos, nosso estudo é o primeiro a comparar os efeitos de ambas as intervenções e o primeiro a demonstrar seus benefícios a médio prazo”, escreveram os autores.
Como funcionou o programa de atividades
Os participantes eram, em sua maioria, mulheres com sobrepeso ou obesidade grau I, definida por um Índice de Massa Corporal (IMC) entre 30,0 e 34,9 kg/m².
Também apresentavam, em média, três comorbidades e utilizavam altas doses de corticosteroides inalatórios, medicamentos utilizados para controlar a inflamação crônica dos brônquios na asma.

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Os participantes do grupo de treinamento aeróbico realizaram o programa de exercícios duas vezes por semana, em uma esteira ergométrica. Cada sessão teve duração de 45 minutos e foi dividida em 5 minutos de aquecimento, 35 minutos de treinamento aeróbico e 5 minutos de desaquecimento.
A velocidade e a inclinação da esteira aumentaram de acordo com a resposta de cada voluntário.
Já a estratégia de intervenção comportamental tinha como objetivo aumentar a atividade física no cotidiano. Os integrantes desse grupo foram convidados a irem ao hospital uma vez por semana, em encontros de até 90 minutos.

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Nessas sessões, os pesquisadores estabeleciam metas individuais e utilizavam técnicas como a entrevista motivacional e o acompanhamento por meio de um relógio inteligente, que foi colocado na cintura de cada participante.
O dispositivo registrava a quantidade de passos e emitia um alerta após 60 minutos de sedentarismo. A equipe analisava os dados semanalmente e definia novas metas com base no desempenho anterior.
Os dois grupos do estudo foram avaliados antes e depois da intervenção de oito semanas (curto prazo) e 16 semanas depois (médio prazo).

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Os resultados
Segundo o estudo, os dois grupos apresentaram melhora no controle da asma e na qualidade de vida após oito semanas de intervenção. O resultado se manteve no acompanhamento de 16 semanas.
No grupo de intervenção comportamental, a proporção de participantes que tiveram melhora clinicamente significativa no controle dos sintomas foi de 88%, contra 78% no grupo de treinamento aeróbico. Quatro meses depois, os índices eram de 64% e 63%, respectivamente.
“Assim, nossos resultados sugerem que ambas as intervenções podem melhorar o controle da asma e a qualidade de vida, e a escolha da intervenção pode ser baseada em diversos fatores, incluindo as preferências dos pacientes e a disponibilidade de profissionais de saúde”, afirma o estudo.

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Ambos os grupos também apresentaram avanços progressivos nas atividades durante a pesquisa. Por exemplo, entre quem fez treinamento aeróbico, a velocidade média progrediu de 4,4 km/h para 6,1 km/h, um aumento de 40%.
Nos participantes que aumentaram a atividade física diária, o número médio de passos por dia saiu de 5.185 para 7.848, o que representa um aumento de 50%.
Além disso, os dois grupos também relataram melhoras nos sintomas de ansiedade e depressão, duas condições que eram muito frequentes entre os voluntários no início da pesquisa.
Exercício é complemento, não substituto
A prática frequente de exercícios físicos pode melhorar os sintomas da asma na medida em que aumenta a capacidade aeróbica do paciente, explica o pneumologista Marcelo Machiobe, especialista em pneumologia pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT).
“É fundamental falar dos benefícios da atividade física para pacientes com asma, mas é igualmente importante ressaltar que os participantes do estudo estavam recebendo tratamento farmacológico para a doença”, pondera o especialista, que não participou da pesquisa.
No trabalho, os próprios autores destacam que os programas de treinamento ajudaram no controle da doença, sem deixar de lado o uso dos medicamentos.
“Ou seja, não adianta a pessoa que tem asma achar que o exercício será a solução de todos os seus problemas”, acrescenta Machiobe.
A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas que exige tratamento contínuo e preventivo. Um dos maiores erros no controle do problema, segundo o médico, é recorrer aos remédios apenas em períodos de crise.
A chave do tratamento é justamente o uso contínuo de corticoides inalados. “O Brasil é um país com alta prevalência de asma e o que mais assusta é que estamos falando de uma doença subdiagnosticada e subtratada. Podemos afirmar que apenas um terço dos pacientes com asma segue o tratamento correto, o que é extremamente preocupante”, afirma.
Na avaliação do médico, a falta de conhecimento da doença por parte de pacientes e até profissionais da saúde é um dos empecilhos para o tratamento adequado, que permite à pessoa levar uma vida normal e fisicamente ativa.
“Muitos profissionais da saúde confundem asma com bronquite, acham que a doença apenas fecha os brônquios e prescrevem ao paciente um remédio para abrir os brônquios. Mas a asma é uma doença inflamatória“, explica.
O pneumologista afirma que ainda é cedo para afirmar que a atividade física poderia diminuir a inflamação das vias áreas associada à condição. O potencial do movimento é aumentar a capacidade ventilatória e a eficiência da troca gasosa, reduzindo sintomas típicos da doença, como falta de ar e fadiga.
Nesse sentido, o estudo ajuda a desmistificar a ideia de que o asmático deve evitar o movimento, avalia o médico.
“Se a doença estiver bem controlada, não há nenhum impedimento para praticar, inclusive, atividade física intensa“, reforça, citando como exemplo recente o velocista Noah Lyles, que conquistou a medalha de ouro na prova dos 100 metros rasos em uma das finais dos Jogos Olímpicos de Paris 2024, tornando-se o homem mais rápido do mundo.
Para pacientes que desejam iniciar uma rotina de treinos, o especialista recomenda passar por avaliação prévia para alinhar o nível de esforço. Se a doença estiver fora de controle, porém, a orientação é primeiro estabilizar o quadro e só depois partir para o movimento.

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