6 em cada 10 motociclistas já sofreram sinistro de trânsito, diz pesquisa

Seis em cada dez motociclistas já sofreram um sinistro de trânsito. O número, revelado por uma pesquisa que acaba de ser divulgada e ouviu 23.240 usuários de motos nos 27 estados brasileiros, deveria ser suficiente para dimensionarmos a gravidade de um problema que há anos se tornou parte da rotina das cidades brasileiras.
Mas ele representa apenas uma das faces de uma questão que ultrapassa a segurança viária e chega aos hospitais, aos centros cirúrgicos e à

capacidade de atendimento de todo o sistema público de saúde.
Realizado pelo Instituto Qualisa de Gestão (IQG), pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), o levantamento procurou entender a cultura de segurança no trânsito a partir de três dimensões: indivíduo, grupo e sistema. E seus resultados trazem uma constatação importante: o motociclista sabe dos riscos.

No pilar “Indivíduo”, o índice alcançou 91,2 pontos, em uma escala de zero a 100. A consciência sobre os riscos chegou a 95,9 pontos, enquanto a percepção de capacidade para adotar comportamentos seguros atingiu 86,4.

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Ou seja, não estamos diante de uma população que desconhece os perigos aos quais está exposta ou que não sabe como se proteger.
O problema aparece quando esse indivíduo é colocado dentro de um ambiente que nem sempre favorece escolhas seguras. No pilar “Grupo”, o índice caiu para 72 pontos.
Embora as normas sociais relacionadas à segurança tenham alcançado 85,1 pontos, a influência social ficou em apenas 41,2. No pilar “Sistema de Trânsito”, o resultado foi ainda mais baixo: 32,2 pontos.

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Essa diferença entre saber o que é seguro e conseguir efetivamente agir de maneira segura ajuda a explicar a dimensão do problema. Mais da metade dos entrevistados afirmou pilotar seis horas ou mais por dia.
Para muitos, a motocicleta não é apenas um meio de transporte: é instrumento de trabalho e fonte de renda. E, nesse ambiente, a pressão por produtividade, desempenho e entregas cada vez mais rápidas pode entrar em conflito direto com a segurança.
Não basta, portanto, dizer ao motociclista que ele deve ser cuidadoso. Ele já sabe que o risco existe. É preciso perguntar também quais condições estão

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sendo oferecidas para que possa, de fato, escolher a segurança.
Essa discussão é ainda mais urgente diante do impacto sobre a saúde pública. Ao longo de 15 anos, foram registradas 166.026 internações de motociclistas, em um universo de 251.699 hospitalizações relacionadas ao trânsito. Os motociclistas responderam por cerca de dois terços dessas internações.
São milhares de pessoas que chegam aos serviços de emergência com fraturas, lesões complexas, traumas e, em muitos casos, consequências permanentes. Cada leito ocupado por um trauma grave de trânsito também representa uma pressão adicional sobre um sistema que precisa atender a toda a população.

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A demanda provocada pelos sinistros com motocicletas ocupa equipes, leitos, centros cirúrgicos, exames, reabilitação e outros recursos. Como consequência, cirurgias eletivas de diferentes especialidades são adiadas, aumentando filas e prolongando o sofrimento de pacientes que aguardam procedimentos que não têm relação alguma com o trânsito.
Não se trata de colocar uma necessidade de saúde contra outra, mas de reconhecer que a violência do trânsito produz um efeito em cadeia sobre o SUS.
Prevenir um sinistro grave significa também evitar uma internação, uma cirurgia de emergência, uma sequela e uma longa trajetória de reabilitação. Significa preservar recursos para que o sistema possa cuidar de quem também precisa.

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O fenômeno do uso de motocicletas e de outros veículos de duas rodas como alternativa de mobilidade é uma realidade que se consolidou no Brasil. Nossas cidades passaram a conviver com uma quantidade de veículos que, em muitos casos, não foi prevista por sua infraestrutura.
É necessário adequar o ambiente urbano a essa nova realidade. Esse foi um dos objetivos da 1ª Cúpula Nacional do Movimento Brasil sobre Duas Rodas, realizada na FIESP com a participação da SBOT e de diversas instituições.
As soluções passam por todos os elos dessa cadeia. Para os indivíduos, envolvem a redução da velocidade, o respeito ao Código de Trânsito Brasileiro e o uso adequado de equipamentos de proteção.
Para empresas e plataformas, passam por negociações que valorizem a segurança, o respeito e a valorização dos condutores.
Para o poder público e toda a sociedade, incluem a humanização do ambiente de trânsito, o avanço no uso de tecnologias, o aprimoramento da fiscalização e melhorias nas vias e na sinalização. S
ão medidas diferentes, mas que precisam convergir para um mesmo objetivo: proteger a vida de quem está sobre duas rodas e de todos os demais usuários do trânsito brasileiro.
Os 60% de motociclistas que já sofreram um sinistro não podem ser tratados como uma estatística distante. São pessoas, famílias e histórias que carregam as consequências de uma realidade que precisa mudar.
A dimensão do problema mostra que não haverá uma solução isolada. Será necessário um pacto social pela vida nas ruas, no qual motociclistas, motoristas, empresas, plataformas, poder público e sociedade reconheçam sua parcela de responsabilidade.
*Miguel Akkari é ortopedista pediátrico e presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e Marcos Musafir, ortopedista e presidente da Comissão de Campanhas Públicas da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT).

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