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A amizade é a força motriz por trás de grandes canções populares brasileiras. De João Bosco e Aldir Blanc a Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes, e até as parcerias da nova geração, a sinergia entre amigos cria obras atemporais. Descubra como essas colaborações únicas moldaram a MPB e continuam a inovar.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Em uma noite de 2005, Aldir Blanc chegou à casa de João Bosco, no Rio de Janeiro, para buscar o colega e sua esposa para jantar fora. Trazia de supetão uma encomenda da TV Globo: um samba para o programa humorístico Toma Lá, Dá Cá, a ser entregue no dia seguinte. Bosco tinha uma ideia na cabeça, e os dois começaram a compor ali mesmo, na sala. As respectivas companheiras “ficaram esperando na copa, tomando vinho”, contou Bosco a VEJA. Em duas horas, a música estava pronta. O samba, afinal, foi só o aperitivo.
A canção está em Amigos Novos e Antigos, disco de regravações que acaba de chegar às lojas, com que Bosco celebra seus 80 anos de idade. A cena do jantar mostra como era a sinergia entre os dois, uma parceria de meio século entre um dos violonistas mais inventivos do país e um dos maiores letristas da música nacional — Blanc era psiquiatra de formação e um poeta do subúrbio por vocação. A dupla, que se conheceu através de outro amigo em comum, estreou em 1972, com a faixa Agnus Sei, no lado B de um compacto encartado no jornal O Pasquim. No lado A estava Águas de Março, de Tom Jobim. Se afastaram nos anos 1980 e reataram em 2001. Depois, conversavam quase todos os dias, especialmente por e-mail, até a morte de Aldir, vítima da covid-19, em 2020.
RELAÇÃO ORGÂNICA – Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto: amigos há trinta anos, enfim, gravaram disco em parceria (Leo Aversa/.)
A exemplo dessa clássica parceria, a música brasileira é repleta de composições feitas a quatro mãos, quase sempre por amigos de longa data. Da bossa nova ao Clube da Esquina, da Jovem Guarda à MPB dos anos 1970, os movimentos que mudaram a canção do país tiveram duplas no centro: Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Roberto e Erasmo Carlos, Bosco e Aldir. Na maioria delas, a divisão de tarefas era clara: um criava a melodia, o outro escrevia a letra. Tom, Bosco e Milton Nascimento, por exemplo, eram do time que fazia a música; Vinicius, Aldir e Fernando Brant cuidavam dos versos. Foi assim com Travessia, primeira obra de Milton e Brant, que ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1967. Anos depois, a dupla escreveria em Canção da América o verso mais citado sobre amizade na MPB: “Amigo é coisa pra se guardar”. Bosco e Aldir seguiam o modelo, mas em mão dupla, sem uma ordem definida: ora Bosco musicava os textos do parceiro, ora Aldir punha letra nas melodias dele. “Era um sistema”, relembrou Bosco. Para ele, o que sustenta o ofício é a admiração mútua. Daí nasce “uma terceira identidade que não é nem você nem o parceiro, mas o resultado dessa soma”.
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Recentemente, uma nova dupla se formou reforçando a tradição. Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes lançaram na semana passada o disco Vice-Versa, o primeiro juntos. Demoraram, diga-se. Amigos há mais de três décadas, só tinham uma canção em comum, Para Lá, de 2006. Nenhum dos dois se lembra do primeiro encontro. Adriana guarda uma lembrança de 1993, quando foi à casa dele ouvir música em plena hora do banho das filhas pequenas. Só perceberam o tamanho da amizade ao preparar o vídeo de abertura do novo projeto, quando precisaram do Google para datar inúmeros encontros. “Se revelou um arco, uma construção de afeto e de trabalho e de diálogo”, diz Adriana. Depois de um show em dupla no Coala Festival, em 2024, faltava vencer um medo. “A resistência era a timidez, o medo de dizer uma besteira”, admite Adriana, que evita compor com alguém na mesma sala. “Mas às vezes a besteira é o que acaba ficando de mais importante”, aprendeu ela com Arnaldo.
MEU IRMÃO, CAMARADA – Milton e Brant (à esq.) e Roberto e Erasmo: eles fizeram letras em homenagem aos colegas, entre elas a que diz: “Amigo é coisa pra se guardar” (Fotos Fernanda Brant; Paulo Salomão/.)
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As sessões se alternaram entre a casa dele, em São Paulo, e a dela, no Rio, onde saíram três canções em um só dia. Na Minha Carne Viva nasceu na residência de Marisa Monte, madrinha da parceria. O plano era “fazer uma canção antes do jantar”. Em meia hora, com Marisa ao violão e Arnaldo correndo para anotar as ideias, estava pronta. Como Bosco e Aldir, terminaram antes que a fome vencesse. “É tão orgânico que no fim eu nem sei dizer que verso eu fiz”, resume Arnaldo.
Roberto e Erasmo elevaram essa fusão ao limite. Assinaram juntos clássicos como Detalhes, mas não costumavam contar quem fez a melodia ou a letra. A autoria parecia não importar: o que saía do encontro era, simplesmente, de Roberto e Erasmo, essa entidade uníssona. Uma das raras exceções é a canção Amigo: o rei escreveu a letra escondido, homenageando o parceiro. Outro verso eternizado, que diz: “Meu amigo de fé, meu irmão camarada”.
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ME BEIJA COM RAIVA – Jão (à dir.) e Pedro Tófani: parceria do casal é marcada pelas idas e vindas da relação (Dimitrios Kambouris/Getty Images)
Já a nova geração vem levando a parceria para dentro de casa. Jão, um dos principais nomes do pop atual, compõe com o namorado, Pedro Tófani, que conheceu em 2013, quando estudavam na USP. As idas e vindas do casal estão espalhadas pela discografia do cantor. Os dois costumam escrever separadamente, com uma regra tácita: ninguém se explica. Neste ano, Pedro mostrou ao cantor a letra de João, feita de farpas e de uma sugestão de término. “A gente ficou uns quinze segundos calados, e aí ele falou: ‘Você quer me dizer alguma coisa?’. Eu disse ‘não’. E foi isso”, relembra Pedro. O resto, deixam para a música resolver. Outro nome em evidência dessa nova geração, Silva compõe com o irmão mais velho, Lucas. A primeira canção, A Visita, nasceu à distância, em 2009. Silva morava em Dublin e tocava na rua para pagar as contas. Mandou a melodia e parte da letra por e-mail, e minutos depois o irmão devolveu o resto. Certa noite, Lucas saía para encontrar amigos quando o irmão o chamou à beira da piscina para ouvir uma melodia. Dali saiu Deus de Batom, e ele chegou ao bar quase na hora de fechar. “A gente perde os amigos, mas não a inspiração”, diz Lucas. Em um mercado em que os hits somam mais de quatro compositores, os irmãos resistem. “Não gosto de muita gente temperando o meu feijão”, explica o mais velho.
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COISA DE IRMÃO – Silva (à dir.) e Lucas: “Temos liberdade para discordar e propor ideias um para o outro”, diz o cantor (@silvas_lucas/Instagram)
No disco novo, Bosco recebe amigos como Chico Buarque e Caetano Veloso. Em duas faixas, porém, canta sozinho. Uma é Boca de Sapo, que gravou com Clementina de Jesus. A outra é Toma Lá, Dá Cá. “O meu amigo nesse disco seria o Aldir”, explica. “Como ele não está aí, ficou uma cadeira vazia no estúdio.” No mundo imaginário, garante Bosco, Aldir e Clementina seguem cantando com ele.
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Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015