Lanterna Verde entra na seara dos super-heróis antirracistas

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A nova série “Lanternas”, da HBO, mergulha sem receio no tema antirracista, gerando debate entre fãs. A trama explora a origem de John Stewart, o primeiro herói negro da DC, e sua jornada para provar seu valor. A produção desafia a ideia de que histórias de super-heróis não devem abordar questões sociais, relembrando o DNA político dos quadrinhos.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

O método de recrutamento dos Lanternas Verdes não é lá muito ortodoxo. A guarda intergaláctica, com representantes em todo o universo, é selecionada sem aviso prévio, através de uma luz ofuscante esverdeada e uma voz estrondosa que os questiona: “Você tem medo?” Aquele com sangue-frio para responder “não” ganha o anel e os superpoderes que o acompanham na série Lanternas, da HBO. Assim, o piloto da Força Aérea americana Hal Jordan (Kyle Chandler) se torna o herói da atração — passando na frente da fila de um fuzileiro naval que recusou o chamado. Esse fuzileiro vem a ser o pai de John Stewart (Aaron Pierre) — jovem que, anos mais tarde, vira aprendiz de Hal.
Com a recusa do marido, a mãe de Stewart “ofereceu” o filho ainda bebê aos aliens que chefiam os Lanternas. “Sabe o que significa perguntar a um homem negro da Terra se ele tem medo?”, argumentou ela sobre a abordagem sobrenatural, deixando a alienígena intrigada. Stewart, então, foi criado com rigor militar, para não ter medo — e, um dia, ter a chance de ser um super-herói.

OFICIAL - Kyle Chandler como Hal Jordan: o peso de possuir o anel poderoso (./HBO Max)

A produção, nova aposta da DC Studios no personagem após o vergonhoso filme Lanterna Verde, de 2011, com Ryan Reynolds como Hal, vem causando polêmica. A desaprovação vem daqueles com apego excessivo à história original. O roteiro de Lanternas voa livre sem apreço por fidelidade. Se não bastasse, provoca irritação dos que bradam que história de super-herói não é lugar para falar de problemas do mundo real. Na verdade, é a falsa ideia de que o mundo dos quadrinhos nunca esbarrou em questões políticas.

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A história do Lanterna Verde é um bom exemplo. Em 1971, John Stewart assumiu o anel, tornando-se o primeiro herói negro da DC, no rastro do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos — sua estreia nas HQs foi justamente defendendo dois homens negros de um policial abusivo. Na concorrente Marvel, Pantera Negra já havia dado as caras em 1966, e Falcão, em 1969. A mensagem antirracista é parte do DNA dos super-heróis das duas maiores editoras do segmento. Expandi-la para os filmes e séries seria nada mais que natural, mas o assunto continua espinhoso, comprovando sua urgência.
A Marvel fez uma forte investida em protagonistas diversos após o sucesso do filme Pantera Negra (2018), sendo a ação mais ousada dar o uniforme de seu principal herói, o Capitão América, para Sam Wilson, o Falcão. Em 2021, a minissérie Falcão e o Soldado Invernal evidenciou com sagacidade as dificuldades de ser um homem negro nos Estados Unidos — mesmo com um carimbo de super-herói na carteira de trabalho. Já em 2025, deu dez passos para trás com o medonho filme Capitão América: Admirável Mundo Novo, no qual Wilson assumiu de vez o figurino — numa trama anódina e em esforço exagerado para não ser muito política.

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PARALELOS – Watchmen (acima) e Magnum (abaixo): minissérie da DC tinha supremacistas brancos como vilões; já a produção mais recente da Marvel com um protagonista negro foi cancelada sem muita explicação (HBO Max; Marvel/Disney+)

Coincidência ou não, o longa saiu remendado às pressas poucos meses após o presidente Donald Trump revogar as políticas públicas de incentivo à diversidade no país — o que causou um efeito cascata em Hollywood. Um episódio mais recente reacendeu o tema. Após quatro anos em desenvolvimento, a minissérie Magnum, do Disney+, foi lançada no início de 2026, estrelada por Yahya Abdul-Mateen II. A produção é excelente e logo teve uma segunda temporada confirmada — meses depois, ela foi cancelada sem explicações plausíveis. “A razão é óbvia”, disse o ator quando questionado sobre a suspensão e o momento em Hollywood.

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Ainda na primeira gestão de Trump na Casa Branca, a DC ousou em 2019 com a brilhante minissérie Watchmen. O roteiro subvertia a trama dos quadrinhos para torná-la abertamente crítica ao supremacismo branco americano. Nos últimos tempos, o estúdio recuou nesse tipo de proposta, até apostar em Lanternas. Um dos envolvidos no projeto é Damon Lindelof, que foi justamente o produtor de Watchmen. Interessado em fazer TV de qualidade, Lindelof (que é branco, aliás) trouxe para a sala de roteiristas uma reflexão sobre John Stewart: “O que significa ser um homem negro e receber aquele anel?”. Surgiu então um paralelo com a realidade, na qual minorias precisam se esforçar muito mais para se destacar no meio de trabalho. Stewart é qualificado para a missão, mas, como mostra Lanternas, terá de fazer um esforço extra para se provar digno.
Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014

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