Diretriz inédita no país aponta quem realmente precisa tomar testosterona

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A testosterona é popularmente usada para diversos fins, mas seu uso sem critério médico traz sérios riscos. Um novo consenso brasileiro, assinado por importantes entidades médicas, define quem realmente precisa da reposição hormonal, desmistificando a substância e alertando para os perigos do uso indiscriminado.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Ela protagoniza postagens de influenciadores e receituários de profissionais com currículos duvidosos. Tem mil e um predicados: faz músculos crescerem, deixa o corpo sarado, aumenta a disposição e levanta a libido. Com tantas promessas por aí, a testosterona nunca ganhou tantos adeptos, dentro e fora dos consultórios médicos. Mas há um lado que a propaganda não mostra: os riscos de usar o hormônio sem indicações balizadas pela ciência. É nesse cenário de uso e abuso da substância que foi publicado o primeiro consenso brasileiro de reposição de testosterona. Amparado em dezenas de estudos, o documento assinado pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), pela Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual (ABEMSS) e pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) define quem, de fato, precisa do tratamento hormonal, os níveis que indicam o déficit e até mesmo o horário adequado para a realização dos exames — o que faz diferença no diagnóstico.
A história da testosterona, a bem da verdade, é marcada por deslumbramentos. Do Império Romano até o século XIX, antes mesmo de se descrever quimicamente a molécula, o hormônio sexual masculino era considerado um elixir para turbinar a energia e a potência sexual. Do consumo de testículos de animais às injeções de esteroides anabolizantes, o que não mudou ao longo dos séculos foi o aspecto sedutor do expediente, hoje repaginado como panaceia que atrai não só ratos de academia, mas também homens e mulheres que querem envelhecer com mais vigor. O problema é o preço que o uso sem critério pode cobrar: danos potencialmente letais a órgãos como coração e fígado.

USO INDEVIDO - Fins estéticos: utilização da droga é vetada pelo CFM (./Getty Images)

Recém-apresentada em um congresso médico, a nova diretriz não foca nos riscos da utilização pela população geral, uma vez que já está consolidado que a aplicação estética e para ganho de massa e força muscular não é segura — a ponto de ser proibida pelo Conselho Federal de Medicina. Seu objetivo é esclarecer, inclusive para os profissionais, quem realmente precisa repor o hormônio. “Hoje falamos do abuso da testosterona, mas os homens que têm a deficiência também precisam ser reconhecidos”, diz o endocrinologista Alexandre Hohl, presidente da ABEMSS. Porque realmente essas pessoas podem perder qualidade de vida devido a uma condição passível de tratamento, o hipogonadismo, marcado pela produção inadequada do hormônio masculino e não necessariamente ligado ao avanço da idade.

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As três entidades médicas fizeram, portanto, uma varredura da literatura científica sobre o tema a fim de direcionar melhor a suspeita e a investigação do quadro, que afeta cerca de 5% dos homens entre 40 e 80 anos. Isso contempla avaliação de sintomas, como perda de desejo sexual e dificuldades de ereção, e exames de sangue certos realizados no momento certo — no caso, na janela das 7 às 10 horas da manhã, para acompanhar o pico fisiológico da testosterona. O consenso também desmistifica outra questão frequentemente alegada para indicar a medicação: o envelhecimento. Há, de fato, uma redução dos níveis hormonais com a idade, mas ela é residual — a estimativa é que a queda gire em torno de 1,6% ao ano, o que não justificaria prejuízos nem a reposição. “Há uma ideia equivocada de comparar o que acontece no homem com a menopausa na mulher, quando a baixa hormonal é intensa e traz consequências para o seu bem-estar”, diz o urologista Leonardo Seligra Lopes, da SBU. Por falar em mulheres, outro público que se rendeu à testosterona, a única indicação avalizada por pesquisas é a perda consistente de libido após a menopausa.

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Voltando aos homens, mesmo em casos de diagnóstico de hipogonadismo, a reposição de testosterona pode não ser o tratamento indicado. Um exemplo é quando a condição está ligada ao excesso de peso. “Entre 30 e 50% dos homens que vivem com obesidade podem ter hipogonadismo. Quanto maior o índice de massa corporal, maior o risco”, afirma Hohl. Nessas situações, mudanças no estilo de vida e a perda de peso podem reverter a carência. O tratamento hormonal também tem contraindicações claras, como histórico de câncer de próstata ou infarto recente.
Ao contrário do que se prega no mundo virtual, a testosterona não deve ser encarada como mais um suplemento para alavancar os ânimos e o desempenho físico e sexual. Como outros hormônios, sua reposição só faz sentido quando houver motivos sérios e estabelecidos para isso. Felizmente, agora os brasileiros já têm uma bússola em mãos para guiá-los.

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Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011

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