ANÁLISE: O dramaturgo do quotidiano

20

POR ELÍSIO MACAMO*

Aos 90 anos, um aniversário tem qualquer coisa de paradoxal. Cada ano acrescentado à vida é também um ano que nos aproxima do seu fim. Mas quem chega aos 90 desmente, pela sua própria presença, a aritmética sombria da idade. O número diz que o tempo passou, mas o aniversariante responde que continua aqui. Xidiminguana continua aqui e continua a fazer-nos rir.

ontinua a fazer-nos rir.

É tentador chamar-lhe “crítico social” como, aliás, gostamos de chamar a qualquer pessoa que aponte para algum problema. Também já ouvi dizer que Xidiminguana é uma espécie de sociólogo. A segunda designação agrada- -me mais, talvez por razões profissionais, mas nenhuma das duas lhe faz inteira justiça. A primeira sugere que o valor da sua música estaria nas coisas que denuncia. A segunda quase parece dizer que, depois de uma carreira extraordinária como músico, o prémio seria finalmente admiti-lo na nossa profissão.

Prefiro chamar-lhe dramaturgo do quotidiano porque Xidiminguana constrói situações. Um homem vai trabalhar para Djohni, lá na África do Sul. Regressa. O dinheiro que deixou já não está onde devia estar. A mulher tem uma explicação. O marido tem outra. Começa a discussão. Aparecem parentes, vizinhos, polícia, curandeiros, espíritos. A certa altura já ninguém sabe muito bem quem tinha razão no princípio, incluindo, provavelmente, quem está a ouvir a música.

É aí que está o génio. Durante décadas, Xidiminguana cantou migração, casamento, dinheiro, ciúmes, autoridade, feitiçaria e infortúnio. Mas estes são os temas que nós encontramos depois. Ele oferece-nos primeiro situações. E numa situação aparentemente insignificante, por exemplo, uma mulher que gastou dinheiro, um marido enganado, uma suspeita de infidelidade, pode caber uma sociedade inteira. Xidiminguana faz Moçambique com a fertilidade da sua imaginação. Leia mais…

*Sociólogo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *