Todo fã acha que conhece tão bem o ídolo que o considera quase como um amigo ou até membro da família. Logo, me dei o direito de imaginar que Gabriel García Márquez teria orgulho ao ver na Netflix a incrível adaptação de sua obra-prima, o livro Cem Anos de Solidão. Na quarta-feira, 26, a plataforma lançou o episódio derradeiro da série, que foi dividida em duas temporadas de oito capítulos cada. Com 1h43 de duração, o episódio final segue os últimos representantes da família Buendía, clã protagonista que, ao longo dos cem anos do título, cria o povoado da fictícia Macondo e testemunha sua evolução, vitórias e derrotas, até o fim de tom apocalíptico. Ao decifrar os pergaminhos de Melquíades, o cigano mágico que marcou a história da família, Aureliano Babilonia descobre que tudo estava predeterminado — o que lhe traz paz de espírito, afinal, não há como lutar contra o destino.
Obra fundamental do século XX, o livro publicado em 1967 atravessa sete gerações da família Buendía, grupo que reflete traumas históricos da Colômbia e do continente latino-americano em uma saga extraordinária, na qual beleza e dores se revelam intrínsecas umas às outras. “Tudo que Deus tinha criado em sua infinita bondade, e que o diabo tinha pervertido”, como aponta o livro.
Diego Vásquez como José Arcadio Buendía, o patriarca de Cem Anos de Solidão – (//Netflix)
Trazer essa obra tão celebrada para as telas era uma missão considerada impossível. Especialmente porque o próprio García Márquez era arredio à ideia. Com jeitinho, a Netflix negociou com os herdeiros do autor uma adaptação dentro dos moldes considerados próprios pela família: primeiro, seria uma série e não um filme; segundo, seria em espanhol e com talentos colombianos. Assim foi — e que bom. O apego e o respeito à obra se refletiram no resultado. O realismo mágico da trama é colocado de forma orgânica nas cenas, fugindo de uma fantasia americana à la Disney. Tudo que é absurdo, ali, parece possível — experiência sentida também pelo leitor diante das páginas e da escrita memorável do escritor. A produção de cenários, figurinos e efeitos é também notável e hipnotizante, o que torna o envolvimento do espectador com a história ainda mais profundo.
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No último capítulo, há uma piscadela para Gabo — apelido carinhoso do autor. Como no livro, Aureliano Babilonia, após anos de encarceramento pela beata Fernanda, enfim sai de casa e redescobre o mundo lá fora. Ele faz quatro amigos, um deles se chama Gabriel. Amplamente reconhecido como uma referência autobiográfica do escritor, a série vai além e faz ele se apresentar como Gabriel García, tirando da frente qualquer dúvida sobre a inspiração. O amigo, em determinado ponto, deixa Macondo e se muda para Paris, escapando da destruição do povoado. Assim, dizem que o escritor conseguiu também dar adeus à Macondo após quase vinte anos entre a ideia original e a finalização do romance. Sair desse universo é, de fato, dificílimo. Aos órfãos da série, fica a opção de ler (ou reler) o livro.