O Brasil tem avançado em iniciativas de conscientização sobre o HPV, e campanhas como o Setembro em Flor – dedicada à conscientização sobre tumores ginecológicos – são fundamentais para manter o tema em evidência, mobilizar especialistas e sensibilizar a sociedade. Entretanto, diante da magnitude do desafio, ações concentradas em períodos específicos do ano não são suficientes.
Apesar de o Sistema Único de Saúde (SUS) oferecer gratuitamente a vacina contra o HPV, a cobertura vacinal ainda permanece abaixo da meta de 90% preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), especialmente entre os meninos e em diversas regiões do país. O resultado é preocupante: milhares de adolescentes deixam de receber uma vacina capaz de prevenir cânceres que poderiam ser evitados décadas depois.
O papilomavírus humano (HPV) está associado ao câncer do colo do útero — o terceiro mais incidente entre as mulheres brasileiras — além dos cânceres de ânus, orofaringe, vulva, vagina e pênis. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar cerca de 19.310 novos casos anuais de câncer do colo do útero no triênio 2026–2028, com aproximadamente 7 mil mortes por ano.
Praticamente todos esses casos estão relacionados à infecção persistente pelo HPV, cuja principal forma de prevenção é a vacinação.
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Relatórios recentes da OMS e da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC) reforçam que até 40% dos casos de câncer podem ser prevenidos por meio da redução de fatores de risco e da adoção de estratégias comprovadas, como a vacinação contra o HPV, o rastreamento organizado e o tratamento das lesões precursoras.
Países que alcançaram altas coberturas vacinais e estruturaram programas organizados de rastreamento já observam redução consistente na incidência da doença.
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Nesse contexto, a Lei nº 15.377, de 2 de abril de 2026, representa um importante avanço ao incorporar a prevenção também ao ambiente de trabalho. A legislação alterou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para determinar que as empresas disponibilizem aos seus empregados informações sobre as campanhas oficiais de vacinação, o HPV e os cânceres de mama, colo do útero e próstata, promovam ações de conscientização e orientem sobre o acesso aos serviços de diagnóstico.
A lei também estabelece que os trabalhadores sejam informados sobre o direito de se ausentar do trabalho, sem prejuízo do salário, para a realização dos exames preventivos previstos na CLT. É um passo importante para ampliar o acesso à informação e fortalecer a cultura da prevenção. Entretanto, nenhuma legislação, isoladamente, é capaz de mudar esse cenário.
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Precisamos integrar governo, escolas, serviços de saúde, empresas, profissionais de saúde e sociedade civil em uma estratégia permanente de prevenção. Persistem barreiras culturais, desinformação e desigualdades de acesso que dificultam a adesão à vacinação e aos exames preventivos.
Restringir a conscientização a campanhas sazonais pode transmitir a falsa percepção de que a prevenção pode esperar. O HPV circula durante todo o ano, e cada oportunidade perdida de vacinação ou rastreamento compromete a proteção de uma geração.
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Por isso, iniciativas como o Setembro em Flor devem ser celebradas e, sobretudo, utilizadas como ponto de partida para ações permanentes. Em 2026, com o tema “O Futuro é Agora”, a campanha reunirá o Congresso Internacional do Grupo EVA, o Fórum de Políticas Públicas em Brasília e a iluminação do Congresso Nacional, reforçando a urgência da vacinação, do diagnóstico precoce e da ampliação do acesso ao tratamento.
Mais do que ampliar a visibilidade do tema, o desafio é transformar esse movimento em políticas públicas permanentes, fortalecer a educação em saúde e alcançar aumento efetivo da cobertura vacinal. O Brasil dispõe de conhecimento científico, vacinas eficazes, métodos de rastreamento e de um dos maiores programas públicos de imunização do mundo.
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Não nos faltam ferramentas. Falta transformar a prevenção em uma política de Estado e em um compromisso permanente da sociedade. Cada adolescente não vacinado hoje representa um risco evitável amanhã. O câncer não espera, e a prevenção também não pode esperar.
*Andréa Paiva Gadêlha Guimarães é presidente do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos – EVA.