Mais da metade das mulheres brasileiras com mais de 40 anos sofrem com incontinência urinária, condição caracterizada pela perda involuntária de urina. Os “escapes” podem ser desde pequenas gotas até volumes maiores, afetam a autoestima e mudam a rotina de quem sofre com eles. No entanto, 87% delas nunca receberam tratamento para o sintoma.
É o que mostra um estudo conduzido pela farmacêutica nacional Apsen em parceria com a empresa Ipsos, segundo o qual 6 em cada 10 mulheres com mais de 40 anos sofrem com a condição, embora apenas 13% já tenham recebido ou estejam recebendo algum tratamento.
A pesquisa entrevistou 1.500 mulheres com mais de 40 anos de todas as regiões do Brasil, sendo 53% delas do Sudeste. As participantes integram as classes A, B e, principalmente, C (mais de 70%). A pesquisa foi realizada entre 30 de junho e 8 de julho.
“O estudo identifica uma lacuna profunda entre o que as mulheres sabem e o que elas fazem. Apesar de 58% saberem que a IU tem tratamento especializado, apenas 13% das que sofrem com a condição efetivamente realizam algum tratamento”, aponta o levantamento.
Por trás dessa lacuna, segundo os dados, há pelo menos dois culpados: falta de diálogo com profissionais de saúde e desigualdade no acesso ao diagnóstico e tratamento da incontinência urinária no Brasil.
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O que o estudo descobriu
O documento aponta que, embora seja comum, a condição é pouco discutida em consultas de rotina e costuma despertar vergonha.
Segundo o estudo, 58% das entrevistadas afirmam que os profissionais de saúde não perguntam sobre perda de urina. E, para 54% delas, essa questão nunca fez parte de nenhuma consulta com ginecologista, clínico geral ou qualquer outro profissional de saúde.
O estudo identificou quatro principais motivos para as mulheres não falarem sobre a condição:
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Acham que é normal e vai passar (15%);
O médico nunca perguntou (20%);
Falta de tempo ou acesso para ir ao médico (20%);
Vergonha ou timidez (7%).
Em classes mais baixas, o problema tende a ser ainda menos presente nas consultas médicas, segundo a pesquisa. À pergunta “durante uma consulta de rotina, algum profissional de saúde (como ginecologista ou clínico geral) já te perguntou espontaneamente se você tinha perda de urina?”, 39% das mulheres da classe A disseram que não, enquanto, na classe B, esse número foi de 56%. E subiu para 59% entre as que pertencem à classe C.
“Há um duplo silêncio: as mulheres não tomam a inciativa de falar com os médicos, e estes também não questionam as pacientes”, avalia o estudo.
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Sintomas
Quando questionadas se já apresentaram escapes de urina, mesmo em pequena quantidade ou raramente, 56% das mulheres acima de 40 anos relataram perdas involuntárias/escapes de urina. Entre as mulheres com mais de 60 anos, esse número sobe para 60%.
A maioria delas tem entre 40 e 49 anos (44%), pertencem à classe C (69%) e são brancas (59%). Em média, as mulheres convivem com os sintomas de incontinência urinária há pelo menos 1 ano e meio.
Questionadas sobre a frequência com que os sintomas ocorrem:
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19% disseram pelo menos uma vez ao dia ou mais;
21% têm algumas vezes na semana;
40% experimentam os escapes uma vez por semana ou esporadicamente;
21% dizem que aconteceu apenas uma vez.
Já em relação aos primeiros sintomas, 18% responderam que eles surgiram há menos de 6 meses. Para 24% delas, a perda de urina começou há cerca de 6 meses ou 1 ano. 22% delas já convivem com a situação entre 1 e 2 anos. E, para 36%, os escapes ocorrem há mais de 2 anos.
O estudo considerou três níveis de incontinência urinária:
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IU de esforço: perda de urina em situações de pressão abdominal;
IU de urgência: vontade súbita e incontrolável de urinar;
IU mista: combinação de esforço e de urgência.
O levantamento aponta que 57% das mulheres possuem IU de esforço, enquanto 19% se enquadram na IU de urgência, e 24% têm IU mista.
Em ordem decrescente, elas relataram ter tido escapes de urina ao tossir ou espirrar (72%), antes de chegar ao banheiro (38%), ao rir (32%), durante a prática de atividade física (17%) e quando estão dormindo (8%). Para 2% delas, a condição acontece “o tempo todo”.
Além disso, a incontinência de esforço é o tipo de IU predominante em todas as idades. Já quem mais convive com os escapes diários são as mulheres com IU mista: esses episódios ocorrem 1 vez ao dia ou mais para 35% delas, número que cai para 19% entre as que têm IU de urgência e para 11% no grupo de IU de esforço.
Efeitos na autoestima e na rotina
O incômodo vai além da calcinha molhada. 22% delas afirmam que os escapes de urina interferem na vida diária e na autoestima, sobretudo as que têm IU mista.
Não à toa, 52% das entrevistadas com IU tiveram de adotar algum hábito devido à condição, como o uso preventivo de protetores diários, absorventes ou fraldas. Outros exemplos de impactos no dia a dia citados por elas incluem:
Teve o sono interrompido frequentemente, gerando cansaço no dia seguinte;
Sentiu aumento de ansiedade, estresse, vergonha ou tristeza por causa dessa condição;
Passou a mapear ou escolher lugares para ir pensando apenas na proximidade de banheiros;
Mudou a sua forma de se vestir para esconder possíveis escapes;
Parou de praticar ou reduziu a intensidade de exercícios físicos, esportes ou caminhadas;
Sentiu que o problema afetou negativamente a sua vida sexual.
“Cerca de 33% usam protetores ou fraldas preventivamente e 11% passam a mapear banheiros antes de sair, o que demonstra que a “solução” encontrada é a gestão do segredo, e não o tratamento clínico“, observa o estudo.
Tratamento, cuidados e qualidade de vida
Segundo o estudo, 87% das brasileiras com incontinência urinária nunca realizaram nenhum tipo de tratamento para a condição. 22% delas justificam que nunca falaram com médicos por acharem que a perda de urina é “algo normal da idade ou envelhecimento”.
O estudo também mapeou o conhecimento das participantes sobre o problema. 58% delas afirmaram saber que a incontinência urinária tem tratamento especializado, enquanto 44% têm noção de que existem diferentes tipos de incontinência urinária (como a de esforço e a de urgência).
Além disso, 42% sabem que o urologista também atende e trata mulheres. Por outro lado, 20% não sabiam de nenhuma dessas afirmações.
Entre o grupo que já fez ou está recebendo algum tipo de tratamento, que correspondeu a 13% das entrevistadas, a principal intervenção mencionada foi a fisioterapia pélvica (65%), seguida pelo uso de medicamentos (36%), mudanças no estilo de vida (22%) e cirurgia (11%).
O estudo também identificou desigualdades sociais no acesso ao tratamento. Segundo a pesquisa, mulheres da classe A tratam a condição duas vezes mais que as mulheres das outras classes.
Além disso, o número de mulheres da classe C que não sabiam que existe tratamento para IU é 3,5 vezes maior do que o da classe A. Já em relação à faixa etária, mulheres mais novas tratam menos a incontinência urinária do que as mais velhas.
Embora seja mais comum com o avanço da idade, a perda involuntária de urina pode ter diferentes causas. É possível tratar e controlar os sintomas. Por isso, escapes frequentes, mesmo em pequenas quantidades, merecem ser relatados a um profissional de saúde.