A aula de psicologia dada pela seleção da Argentina
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O texto explora como atletas como os da Argentina lidam com a pressão, destacando a psicologia do esporte. Foca em regulação emocional e controle atencional, habilidades cruciais não só no campo, mas na vida. Uma aula sobre como o estresse pode ser gerenciado para tomar boas decisões, resistindo à armadilha de ver o sucesso alheio como ameaça.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
É claro que futebol também é feito de rivalidades. Faz parte da graça: a provocação, a corneta, as discussões sobre arbitragem e as teorias criativas para explicar uma vitória ou uma derrota. O ser humano, especialmente quando seu time perde, tem uma impressionante criatividade para construir narrativas alternativas: foi o juiz, foi a sorte, foi a conspiração, foi qualquer coisa que preserve um pouco a autoestima.
Os brasileiros, naturalmente, não somos exceção. Mas talvez possamos fazer algo a mais: em vez de transformar o sucesso do outro em uma ameaça à nossa própria identidade, podemos observar e aprender. Há uma aula de psicologia acontecendo diante dos nossos olhos.
A campanha da Argentina nesta Copa do Mundo (independente do resultado final) chama a atenção não apenas pela genialidade de Messi, mas pela capacidade da equipe de funcionar sob pressão. Em momentos decisivos, quando o erro parece mais provável e a emoção poderia dominar, eles conseguem continuar tomando boas decisões.
E essa história também é nossa. O Brasil conhece profundamente esse tipo de excelência. Rebeca Andrade voltou ao topo da ginástica mundial depois de três cirurgias no mesmo joelho. Hortência, Gustavo Kuerten e tantos outros atletas brasileiros mostraram que talento precisa ser acompanhado de persistência, adaptação e capacidade de lidar com momentos difíceis.
A psicologia do esporte mostra que atletas de elite não são pessoas sem ansiedade ou medo. Eles sentem pressão como qualquer um de nós. A diferença está em como lidam com essas emoções. Conceitos como emotional regulation (regulação emocional) e attention control (controle atencional) descrevem essa capacidade.
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Regulação emocional é a habilidade de reconhecer e administrar uma emoção intensa sem agir automaticamente a partir dela. Controle atencional é conseguir direcionar novamente a atenção para aquilo que importa, mesmo quando há distrações, medo de errar ou pressão externa. Em outras palavras: sentir a pressão, mas conseguir voltar para a próxima jogada.
Essa capacidade não é nada trivial. Há uma razão neurocientífica para isso. Sob pressão, o cérebro tende a priorizar respostas rápidas e automáticas — uma estratégia excelente quando precisamos escapar de um perigo, mas pouco útil quando o desafio exige precisão, criatividade e boas decisões. É justamente aí que entra o treino psicológico: aprender a interromper esse “sequestro” da atenção e trazê-la de volta para a tarefa. Convenhamos: recuperar o foco nem sempre é o nosso esporte favorito.
A psicóloga social Amy Cuddy, que estuda desempenho sob pressão, chama atenção para outro aspecto importante: muitas situações difíceis se tornam ainda mais desafiadoras quando sentimos que estamos sendo avaliados. A pressão de um monte de pessoas observando, julgando e esperando um resultado transforma uma tarefa difícil em uma ameaça à nossa própria imagem.
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A psicologia chama esse fenômeno de social-evaluative threat (ameaça de avaliação social): o estresse provocado não apenas pelo desafio em si, mas pela sensação (ou realidade) de que nosso desempenho está sendo medido e que um erro terá consequências para a forma como somos vistos pelos outros.
Esse mecanismo aparece muito além do esporte. É o candidato a uma entrevista de emprego que sabe que aquela conversa pode mudar sua carreira; o pesquisador apresentando um projeto para uma banca; o médico diante de uma decisão complexa; ou alguém fazendo uma apresentação importante diante de colegas. A tarefa em si já exige competência, mas a sensação de estar sendo observado e julgado acrescenta uma camada extra de pressão.
É por isso que atletas extraordinários também podem falhar no maior palco. Eles têm talento, preparação e experiência, mas estão diante de uma situação em que a mente pode sair da execução automática e ficar presa ao medo do erro.
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A habilidade está em voltar ao processo: a próxima jogada, o próximo movimento, a próxima decisão. É difícil assistir ao Messi e companhia nessa Copa sem perceber isso. O impressionante não é apenas o momento genial, mas a quantidade de escolhas corretas feitas ao longo da partida, mesmo sob uma pressão que poucos seres humanos experimentarão.
Mas seria um erro imaginar que essa habilidade pertence apenas aos atletas. O treino invisível acontece sempre que aprendemos a regular emoções, recuperar o foco depois de um erro, tolerar frustrações (começando com a derrota da nossa seleção), lidar com críticas — e também com elogios —, administrar expectativas e continuar tomando boas decisões quando a pressão aumenta.
É um treinamento silencioso, que começa muito antes dos grandes desafios e continua sendo construído na escola, no trabalho, na família e nas relações. Essa fortaleza psicológica é construída aos poucos, por repetição, pequenas correções de rota e pela disposição de recomeçar depois dos tropeços.
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O objetivo não é eliminar o estresse — isso seria impossível. É aprender a não deixar que ele decida por nós.
Vamos resistir à armadilha de interpretar a grande performance dos outros como uma prova da nossa incapacidade. Não é. Não desperdicemos uma boa aula de psicologia.
O esporte apenas torna visível, diante de milhões de pessoas, uma habilidade que todos precisamos na vida: continuar pensando, decidindo e agindo bem quando a pressão aumenta. Na maior parte do tempo, treinamos essa habilidade sem plateia. Avante, brasileiros.
* Ilana Pinsky é psicóloga clínica, doutora pela Unifesp. É autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto), entre outros livros. Foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Colúmbia. Siga a colunista no Instagram: @ilanapinsky_










