SAÚDE E BEM ESTAR

O pior tipo de colesterol não vem sendo pego em exames de rotina. O que você pode fazer

Por trás de muitos infartos e derrames existe um risco silencioso que passa despercebido nos exames de rotina. Ele atende pelo nome de lipoproteína(a), ou simplesmente Lp(a), uma partícula de gordura no sangue parecida com o LDL-colesterol, mas com uma característica particular: seus níveis são, em grande parte, definidos pela genética e tendem a permanecer relativamente estáveis ao longo da vida.
A boa notícia é que basta um exame de sangue para identificá-la. A mensagem central de um artigo recém-publicado nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, liderado pelos médicos Eduardo Gomes Lima e Fabiana Hanna Rached, é direta e reta: todo médico deveria solicitar a dosagem de lipoproteína(a) para adultos pelo menos uma vez na vida.  

Essa recomendação ganhou força porque a Lp(a) elevada já não é vista apenas como uma curiosidade laboratorial. Ela é reconhecida como um fator que pode modificar a interpretação do risco cardiovascular, inclusive em pessoas aparentemente saudáveis, sem hipertensão, diabetes, obesidade ou colesterol muito alterado.
Na prática clínica, os médicos costumam usar calculadoras de risco para estimar a chance de uma pessoa sofrer eventos cardiovasculares, como infarto ou AVC, nos próximos anos. O problema é que muitos desses escores não incorporam a Lp(a) em seus cálculos.

Isso cria uma situação delicada: um adulto pode ser classificado como de baixo risco pelos parâmetros tradicionais, mas carregar uma Lp(a) alta — um fator de risco biológico que o escore não “enxerga”.
Níveis elevados dessa partícula se associam à doença cardiovascular, processo em que placas de gordura e inflamação se acumulam nas artérias. Também há relação com a estenose aórtica calcífica, doença em que a válvula aórtica endurece e passa a funcionar pior, aponta o cardiologista.

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A Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025 considera valores de Lp(a) iguais ou acima de 50 mg/dL ou 125 nmol/L como agravantes de risco. Em níveis muito elevados, acima de 180 mg/dL ou 390 nmol/L, o paciente deve ser considerado de alto risco.  
Fiz o exame e deu alto. E agora?
Esse é o ponto mais importante. Dosar Lp(a) não serve para gerar ansiedade nem para pedir uma bateria indiscriminada de exames. Serve para ajustar a prevenção ao risco real de cada pessoa.
Quando o resultado vem elevado, o primeiro passo é olhar o contexto: idade, histórico familiar de infarto ou AVC precoce, LDL-colesterol, pressão arterial, diabetes, tabagismo e outros fatores de risco. A partir daí, o médico pode decidir se vale intensificar medidas de prevenção e se algum exame de imagem ajudaria a esclarecer melhor o cenário.
Entre os exames o escore de cálcio coronariano, feito por tomografia, aparece como ferramenta central em muitos adultos assintomáticos. Ele mede a presença de cálcio nas artérias do coração, um sinal de aterosclerose subclínica.

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A Lp(a) aponta, na verdade, uma predisposição; o cálcio coronariano mostra se essa predisposição já virou placa nas artérias.
Um escore de cálcio igual a zero pode indicar menor risco absoluto no curto e médio prazo, especialmente em pessoas sem outros fatores preocupantes. Já valores mais altos, como acima de 100 ou 300, sugerem maior carga de aterosclerose e podem justificar metas mais rigorosas de LDL-colesterol e prevenção mais intensiva.  
Mas um cuidado é evitar transformar a Lp(a) elevada em senha automática para exames de imagem. A decisão deve ser individualizada.
A angiotomografia de coronárias, por exemplo, consegue detectar placas não calcificadas e oferecer detalhes anatômicos, mas não costuma ser indicada como primeiro exame de rotina para todo paciente assintomático com Lp(a) alta, por envolver contraste, maior complexidade e custo.

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A ultrassonografia de carótidas também pode ajudar em algumas situações, especialmente por ser mais acessível, mas o escore de cálcio coronariano costuma ter maior utilidade para predizer eventos cardíacos, como infarto.
O ecocardiograma, por sua vez, não é recomendado de rotina apenas porque a Lp(a) veio elevada em pessoas sem sintomas. Mas pacientes com diagnóstico de estenose aórtica devem ter a Lp(a) dosada, e a informação pode ser útil também para rastrear familiares.
O que muda no tratamento?
Hoje, ainda não há um medicamento amplamente disponível com indicação específica para baixar Lp(a) e reduzir eventos cardiovasculares. Mas isso não significa que a informação seja inútil — muito pelo contrário.
Saber que a Lp(a) é alta pode levar o médico a ser mais rigoroso no controle dos fatores modificáveis. Isso inclui reduzir o LDL-colesterol de forma mais intensa (elevando as doses de estatinas, por exemplo), tratar hipertensão, controlar diabetes, combater o tabagismo, estimular atividade física, ajustar alimentação e acompanhar mais de perto pessoas com histórico familiar relevante.
Em outras palavras: não dá para mudar a genética da Lp(a), mas dá para reduzir o risco ao redor dela.

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