Pesquisas indicam a eficácia das vacinas para reduzir o risco de Alzheimer
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Estudos revelam que vacinas de rotina, como as de herpes-zóster e gripe, podem reduzir significativamente o risco de Alzheimer e outras demências. Enquanto a ciência avança para um imunizante específico, manter a caderneta de vacinação em dia emerge como uma surpreendente e promissora estratégia de proteção cerebral. Entenda os detalhes.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Foi um passo extraordinário da medicina, ainda que naquele tempo não tenha tido o devido reconhecimento. Em 1906, um patologista alemão, Alois Alzheimer (1864-1915), fez a autópsia do cérebro de uma mulher de 50 e poucos anos que apresentava comportamentos mais típicos da terceira idade: ela estava desorientada, afásica e incapaz de recuperar lembranças fundamentais de sua vida familiar. O que ele encontrou, usando uma coloração que havia se tornado disponível recentemente, foram aglomerados de placas aderidas ao tecido cerebral e uma profusão de atípicos emaranhados de fibras. Quatro anos depois, as descobertas batizariam uma doença — o Alzheimer — que hoje preocupa corações e mentes da humanidade. Estima-se que 57 milhões de pessoas, em todo o mundo, convivam com algum tipo de demência, sendo 2,5 milhões no Brasil. Há, em todo o planeta, um novo caso detectado a cada minuto. É preocupante, e sobretudo desconcertante, por não haver meios de retardar a progressão da condição, muito menos de reverter seus danos.
PIONEIRO - O alemão Alois Alzheimer: condição descoberta em 1906 (Historical/Corbis/Getty Images)
Não por acaso, celebra-se um caminho de esperança: estudos recentes mostram que a proteção por meio de algumas modalidades de vacinas pode ter efeito positivo no freio à demência, inclusive o Alzheimer — e não se descarta o desenvolvimento, no futuro, de um imunizante específico para a condição revelada há 120 anos. Um robusto e recente estudo publicado na revista científica Alzheimer’s & Dementia, a partir de dados de 1,5 milhão de idosos estadunidenses, mostra que duas doses da vacina contra herpes-zóster, uma infecção que brota da reativação do vírus da catapora, levaram à redução de 33% no risco de qualquer demência e de 28% para Alzheimer. Há hipóteses que ajudam a entender os resultados. “A vacina é capaz de treinar o sistema imune contra uma proteína, a beta-amiloide, comumente associada a alterações que prejudicam o funcionamento dos neurônios”, diz o neurologista Wyllians Borelli, coordenador do centro da memória do Hospital Moinhos de Vento, no Rio Grande do Sul. Acredita-se, ainda, que a imunização bloqueie a chamada neuroinflamação causada pelo popular “cobreiro”, atalho para dores lancinantes.
A proteção contra o herpes-zóster, agora cientificamente celebrada, mas ainda indisponível em larga escala na rede pública brasileira — embora oferecida por instituições privadas —, é a ponta de um interessante iceberg. Um levantamento publicado no mês passado pela Gavi, a Aliança de Vacinas, elencou este e outros sete imunizantes aplicados como rotina que engrossam a lista de doses com impactos comprovados a partir de pesquisas. Em 2022, a análise de 2 milhões de pessoas com mais de 65 anos vacinadas contra a gripe indicou 40% menos chances de aparecimento de demência nos quatro anos seguintes. E as doses frequentes fortalecem essa proteção. Ou seja, participar das campanhas anuais e gratuitas de vacinação contra o vírus influenza tem dupla função — conter gripes e esboçar uma estrada de futuro. Foi observado também escudo contra demências na vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR), causador da bronquiolite e da pneumonia, com queda de 29% na probabilidade de perda cognitiva. Há benefícios comprovados ainda com as picadas da tríplice bacteriana (DTP), da pneumocócica e contra a hepatite A, a hepatite B e a febre tifoide.
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Não se trata de bala de prata definitiva, é evidente — e há ainda muito chão a percorrer em laboratórios. Mas manter a caderneta de vacinação preenchida é fundamental. Além, é natural, de medidas mais simples e imediatas. Já se sabe que não fumar nem beber em excesso, cuidar da visão e da audição, ter vida social, evitar o sedentarismo, manter o peso e controlar a pressão, assim como o colesterol, estão entre as medidas a ser adotadas. À luz dessa promissora possibilidade, um atalho para apartar o Alzheimer, cabe imaginar como seria o mundo sem vacinas. Em 25 anos, se ninguém fosse vacinado contra a poliomielite, doença viral que ataca o sistema nervoso de forma irreversível, 23 000 crianças teriam paralisia. Sem as picadas contra a difteria, que ataca principalmente as vias aéreas superiores, a doença faria de 130 000 a 1 milhão de vítimas. É louvável, por óbvio, celebrar os fabulosos efeitos da imunização na infância — e dá-se agora uma porta aberta para o zelo nas últimas páginas da vida.
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997










