O peso da fama: obsessão pela magreza ganha força em Hollywood e nas redes sociais
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A teoria do desejo mimético de René Girard previu a obsessão pela magreza na era das redes sociais. A matéria de VEJA explora como Hollywood e as plataformas digitais alimentam a busca por corpos esqueléticos, transformando a liberdade em ‘escravidão da opinião alheia’ e gerando sérios riscos à saúde. Uma análise profunda sobre a “cultura da magreza” e seus perigos.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
“Ao olhar à nossa volta, a maior parte de nós descobre que, longe de sermos o número um, estamos perdidos na multidão (…) e há sempre alguém que parece melhor, no plano da beleza, no da inteligência, no da saúde, e — o mais espantoso hoje em dia — no da magreza”, registrou, em tom profético, o pensador francês René Girard em livro de 2008. Infelizmente menos conhecido do que merecia, o professor que se radicou nos Estados Unidos formulou, muito antes de as redes sociais nascerem e se popularizarem, a teoria do desejo mimético, conceito-chave para entender a dinâmica atual das plataformas e dos comportamentos humanos.
DOENTIO? – Ariana Grande: receio de fãs seguirem o exemplo (Frazer Harrison/WireImage/Getty Images)
Sua hipótese, largamente verificada, é de que as aspirações individuais nascem da sanha de imitar os outros, ocasionando um efeito multiplicador que pode resultar em conflitos. É assim que, no espelho dos celulares, a “liberdade radical” da mulher viria a torná-la “escrava da opinião das outras”, anotou Girard em Anorexia e Desejo Mimético, obra que já analisava a obsessão pela magreza e o aumento dos diagnósticos de transtornos de imagem antes do boom das redes. Apesar dos ciclos de valorização de corpos de todos os pesos e formatos, o fato inconteste é que essa fixação persiste — e está escancarada na vitrine de Hollywood, que tanto influencia e contagia o mundo dentro e fora das telas.
FINA - Nicole Kidman: tendência se espraia por estrelas mais maduras (Arturo Holmes/Getty Images)
O peso da fama parece continuar se impondo e retroalimentando uma espécie de aversão à gordura. O desfile comporta musas de diversas faixas etárias e suscita rumores de problemas de saúde por trás das aparências cada vez mais esqueléticas. A pop star Ariana Grande, de 32 anos, com seus braços finíssimos e semblante melancólico, não é exemplo isolado. Junta-se a ela Lily Collins, 37, com sua barriga invertida, e divas mais maduras, como Nicole Kidman, 58, e Demi Moore, 63, que deram o ar da graça magérrima nos últimos tapetes vermelhos. São expoentes de um movimento que a imprensa americana denominou Hollyweird (“Hollywood estranha”), muito embora não haja nada atípico para esse meio. “A ‘alta cultura’ se deixou contaminar pelas tendências ‘anoréxicas’ muito antes de a perda de peso ter-se tornado obsessão universal”, afirmou Girard. O filósofo se referia a expressões como a pintura e a literatura, mas não é de hoje que quem dita as modas se exibe em filmes, séries de TV e feeds de redes sociais.
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PROVA VIVA - Demi Moore: secura em meio a filme sobre loucura estética (Monica Schipper/WireImage/Getty Images)
Não se trata de inferir diagnósticos com base nas fotos viralizadas. Nem toda pessoa extremamente magra tem anorexia ou bulimia, distúrbios que envolvem comportamentos como restrição severa de comida e uso de laxantes para emagrecer. A questão é que o holofote da magreza estimula meninas e meninos a seguirem seus ídolos. Nos EUA, essa preocupação foi compartilhada por pais e especialistas depois do sucesso de Wicked: Parte II, cujas protagonistas, Ariana Grande e Cynthia Erivo, magras que só, estariam a influenciar, ainda que inadvertidamente, a busca por um corpo enxuto entre fãs adolescentes. Exagerado ou não, o caso ilustra uma circunstância bem documentada na psicologia: o contágio social, agora catapultado por plataformas como Instagram e TikTok. E que comporta uma série de riscos: um estudo dinamarquês, com dados de 85 761 pessoas, concluiu que ser excessivamente magro chega a ser mais letal do que estar acima do peso.
BARRIGA INVERTIDA – A britânica Lily Collins: musculatura à mostra (The Hapa Blonde/Getty Images)
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Outro fenômeno que, de certa forma, nutre a cultura da magreza é a disseminação desenfreada das canetas para o tratamento da obesidade, como Wegovy e Mounjaro. Elas foram desenvolvidas para remediar um problema de saúde, mas, projetando-se para além dos consultórios, viraram artifício para uma perda de peso digna de postagem. Vive-se, assim, uma era de extremos, com a obesidade grassando entre faixas mais pobres da população, enquanto a secura torna-se artigo de luxo. Um retrato aspiracional personificado pela cantora Kelly Osbourne, 41, que perdeu quase 40 quilos depois de uma cirurgia bariátrica e hoje ostenta braços franzinos e faces encovadas. São, talvez, os novos artistas da fome, aqueles que, conscientemente ou não, mostram, como diz Girard em seu livro, que “nossos pecados estão inscritos na carne e devemos expiá-los até a última caloria”.
Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992










