Até intelectuais como FHC e García Márquez podem ter Alzheimer, mas eles possuem uma vantagem diante da doença
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A interdição de FHC por Alzheimer levanta a questão: por que pessoas com alta capacidade intelectual desenvolvem a doença? A matéria explica que a reserva cognitiva, cultivada pela educação e atividade mental, funciona como escudo temporário, atrasando os sintomas, mas não impedindo a progressão final da doença neurodegenerativa.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
A recente notícia da interdição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, aos 94 anos, devido ao diagnóstico de Alzheimer em fase avançada trouxe à tona uma dúvida comum: por que mesmo pessoas com alta capacidade intelectual, que estudaram e foram reconhecidas por sua trajetória profissional, podem desenvolver a doença neurodegenerativa?
Afora o envelhecimento em si, outras explicações ajudam a entender essa história – e inclusive por que essas mesmas pessoas contam com um fator que, durante anos, tende a protegê-las dos prejuízos da destruição dos neurônios.
FHC, aliás, não seria um caso isolado. Poderíamos citar o escritor colombiano Gabriel García Márquez, prêmio Nobel de Literatura cujo diagnóstico de demência foi revelado em 2012, quando o autor já tinha 85 anos, ou mesmo o ator americano Gene Hackman, que faleceu no ano passado aos 95 anos.
Em comum, são personalidades públicas que botaram o cérebro para trabalhar, mas, em determinado momento de sua vida longeva, passaram a apresentar os sintomas e as limitações do colapso cognitivo.
A grande questão é: se eles não fossem tão intelectualizados assim, é muito provável que os danos cerebrais aparecessem mais cedo. O que os resguardou é a chamada reserva cognitiva. E, felizmente, a gente pode cultivá-la.
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O que causa o Alzheimer e o que confere proteção
Hoje se sabe que a doença neurodegenerativa, causada pelo acúmulo de proteínas e placas tóxicas aos neurônios, entre outros fenômenos, é multifatorial. Isso significa que ela tem raízes genéticas, comportamentais e ambientais.
“A alta escolaridade e o bom desempenho mental são aspectos protetores, mas é preciso lembrar que temos outras condições que contribuem para o desenvolvimento do Alzheimer”, explica a neurologista Cláudia Ramos, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP). “Isoladamente, isso não impede alguém de ter a doença.”
De que fatores falamos? “De pressão alta, diabetes, excesso de peso, sedentarismo, déficit auditivo, depressão, tabagismo, entre outros”, responde a geriatra Mariana Bellaguarda Sepulvida, professora da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS).
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A baixa escolaridade, por si só, é um dos principais elementos que financiam a doença. Por isso, quando alguém tem a oportunidade de estudar e continuar se aprimorando intelectualmente ao longo da vida, ganha um tremendo efeito protetor diante do Alzheimer.
“Essas pessoas desenvolvem o que a gente chama de reserva cognitiva“, diz Eduardo Zimmer, head de pesquisa em neurociência do Instituto de Pesquisa Moinhos de Vento, em Porto Alegre. O conceito se refere à formação de conexões e caminhos entre os neurônios que fortalecem sua capacidade de responder às demandas da vida e do ambiente e concedem resiliência diante das mudanças impostas pelo envelhecimento e por doenças como o Alzheimer.
“Isso ajuda as pessoas a manter uma boa performance cognitiva, mesmo quando o cérebro já sofre de uma patologia”, explica Zimmer. A doença progride, porém a massa cinzenta consegue compensar, ao menos por uma janela de tempo, as consequências desses danos.
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“No entanto, em algum momento, o cérebro não consegue mais ‘aguentar’ a carga do problema, mesmo com todas essas conexões neurais criadas durante a vida por meio de estudos e interações”, elucida o neurocientista. “Foi provavelmente o que aconteceu com Fernando Henrique Cardoso, um homem de mais de 90 anos que conseguiu se manter bem e lúcido ainda que já tivesse a doença. Na prática, os sintomas da fase demencial do Alzheimer demoraram a aparecer.”
A reserva cognitiva, segundo as evidências científicas, é o que “estanca” o início da evolução clínica da doença – a enfermidade está lá, mas suas manifestações são pouco ou menos significativas. “A gente vê uma lentificação no começo do processo, o que ajuda a dar autonomia e qualidade de vida ao paciente. Mas, em determinado ponto, ainda que de forma mais tardia, o Alzheimer progride e, às vezes, de uma maneira até mais rápida”, observa Ramos.
Assim, a poupança cognitiva serve de escudo, ao menos temporário, diante de um problema de saúde pública para o qual não há cura e cuja evolução corrói a memória, o raciocínio, a orientação no tempo e no espaço, a independência…
“É graças a essa reserva que vemos pacientes com Alzheimer inicial conseguindo trabalhar e até realizando suas atividades com maestria”, nota Sepulvida. É a educação, desde a infância até a maturidade, se afirmando como o melhor investimento – para o cidadão, a família e a sociedade.










