SAÚDE E BEM ESTAR

Uma em cada cinco gestantes não completa o número mínimo de consultas pré-natais no Brasil

Mesmo com a recomendação do Ministério da Saúde de pelo menos sete consultas de pré-natal para um acompanhamento seguro da gestação, a adesão ainda fica pelo caminho. Hoje, uma em cada cinco gestantes não chega ao número mínimo: enquanto a primeira consulta alcança 99,4% de cobertura, esse percentual cai para 78,1% na sétima.
Os dados são de um estudo conduzido por pesquisadores do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel), em parceria com a Umane, organização que atua pelo fortalecimento da saúde pública e se baseia em mais de 2,5 milhões de nascimentos registrados pelo sistema do Ministério da Saúde em 2023.

Segundo os pesquisadores, o sistema de saúde consegue captar quase todas as gestantes, mas ainda falha em garantir a continuidade do cuidado, sobretudo entre os grupos mais vulneráveis.
“O Brasil praticamente universalizou o acesso ao início do pré-natal, mas ainda não consegue garantir que esse cuidado se mantenha até o final da gestação, deixando para trás populações já vulneráveis”, afirma a pesquisadora Luiza Eunice Sá da Silva, do ICEH/UFPel.

Por trás dos números
A escolaridade – também um marcador de renda social – é um dos principais fatores que determinam quem consegue completar as sete consultas de pré-natal. Enquanto 86,5% das mulheres com maior nível de instrução (12 anos ou mais) atingem esse patamar, menos da metade das mulheres sem escolaridade (44,2%) consegue alcançar o cuidado mínimo recomendado.

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No recorte racial, a exclusão indígena é a que fala mais alto. Em comparação com os 84,3% das mulheres brancas que concluem as sete consultas, somente 51,5% das indígenas alcançam o mesmo patamar, seguidas por pretas (75,7%) e pardas (75,3%).
As disparidades também se refletem na região e na idade. A Região Norte tem a cobertura mais baixa, com 63,3% das gestantes chegando às sete consultas. O melhor resultado aparece no Sul (85%), seguido por Sudeste (81,5%), Centro-Oeste (77%) e Nordeste (76,1%).
Entre as gestantes menores de 20 anos, apenas 67,7% realizam o ciclo completo, enquanto mulheres acima dos 35 anos alcançam a faixa dos 82,6%.

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Equidade inversa
Para o epidemiologista e coautor do estudo, Cesar Victora, os resultados confirmam a Hipótese da Equidade Inversa, segundo a qual novos avanços em saúde tendem a beneficiar alguns grupos mais do que outros.
“Sete consultas não são um número arbitrário, mas o mínimo necessário para acompanhar o ritmo acelerado da vida intrauterina. Sem esse monitoramento regular, perdemos a oportunidade de tratar precocemente condições como infecções, hipertensão e diabetes gestacional”, explica Victora.
Como o pré-natal é a principal estratégia para identificar e prevenir complicações na gestação, a interrupção do acompanhamento aumenta os riscos de parto prematuro, baixo peso ao nascer e outras condições graves.
Diante disso, os pesquisadores defendem o enfrentamento das desigualdades, com medidas como acolhimento diferenciado que alcance mulheres indígenas, estratégias para garantir a permanência de adolescentes no pré-natal e o reforço da infraestrutura das redes de cuidado nas regiões Norte e Nordeste.

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