Oropouche: infecções podem ser até 200 vezes maiores que os registros oficiais
Um estudo liderado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) estima que o vírus Oropouche tenha infectado mais de 9,4 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe entre 1960 e 2025, número muito superior ao total de casos oficialmente registrados. Apenas no Brasil, foram cerca de 5,5 milhões de infecções.
Publicado nesta terça-feira, 24, na revista Nature Medicine, o trabalho – conduzido em colaboração com a University of Kentucky, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (Hemoam) – aponta uma discrepância entre o número de infecções e os de casos da doença. Em Manaus, epicentro recente da transmissão, o total de infecções pode ser até 200 vezes maior que o de casos confirmados.
Transmitida por maruins (Culicoides paraensis), a febre de Oropouche costuma se apresentar de forma parecida com a dengue. Mas não para por aí: em alguns casos, pode evoluir com complicações neurológicas, materno-fetais e até levar à morte. Ainda não há vacina nem antiviral específico disponível.
Para dimensionar o tamanho da subnotificação, basta olhar para os dados oficiais: o Painel de Arboviroses do Ministério da Saúde só traz registros de Oropouche a partir de 2023, sem informações sobre os anos anteriores. Naquele ano, foram apenas 800 casos notificados. Em 2024, o número salta para 14 mil e, em 2025, chega a 11 mil — ainda assim, muito provavelmente abaixo da realidade.
Por trás desse “apagão” de dados está, sobretudo, a baixa capacidade de detecção. Em áreas da Amazônia, onde o acesso aos serviços de saúde pode exigir mais de 24 horas de deslocamento, muitos casos sequer entram nas estatísticas. Soma-se a isso o fato de que uma parcela significativa das infecções é assintomática ou provoca sintomas leves, o que reduz ainda mais a chance de diagnóstico.
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No fim das contas, a principal virada que o estudo propõe é de escala. Se as estimativas estiverem corretas, o Oropouche passa a ocupar um lugar muito mais próximo de arboviroses já bem estabelecidas, como a dengue, mas com uma diferença importante: segue praticamente invisível para os sistemas de vigilância.
Manaus no centro da expansão
Os dados também ajudam a entender como esse avanço tem ocorrido. Em Manaus, a proporção de pessoas com anticorpos contra o vírus mais que dobrou entre o fim de 2023 e meados de 2024, saltando de 11,4% para 25,7%, segundo análises com doadores de sangue.
A cidade já havia enfrentado surtos importantes antes. Foram dois grandes episódios, separados por 42 anos (1980–1981 e 2023–2024), ambos com picos durante a estação chuvosa e impacto em mais de 12% da população.
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De acordo com os pesquisadores, fatores como alta densidade populacional e o transporte aéreo ajudaram a espalhar o vírus para novas regiões. Hoje, há registros em todos os estados brasileiros, além de países do Caribe e até casos ligados a viagens para a Europa e a América do Norte.
Uma dinâmica diferente das outras arboviroses
Um segundo estudo do grupo, publicado simultaneamente na Nature Health, indica que o Oropouche segue um caminho diferente de vírus como dengue, chikungunya e Zika.
Enquanto essas doenças estão fortemente associadas ao ambiente urbano e ao mosquito Aedes aegypti, o Oropouche circula principalmente em áreas rurais ou próximas a florestas. O vetor, nesse caso, são os maruins, que se proliferam em ambientes úmidos.
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Na prática, isso significa que as estratégias tradicionais de controle — focadas no combate ao mosquito urbano — não dão conta de conter o avanço do vírus.
“Monitorar a presença de anticorpos na população é fundamental para entender a dinâmica de transmissão e orientar estratégias de saúde pública, incluindo o desenvolvimento de vacinas”, afirma Ester Sabino, professora do Departamento de Patologia da FMUSP.










