SAÚDE E BEM ESTAR

Frustração: o problema não é sentir, mas o que fazemos com ela

Alguém da sua equipe entrega um relatório abaixo do esperado.Você já explicou três vezes onde estão os arquivos e recebe outra mensagem no WhatsApp perguntando a mesma coisa.Você pede foco em uma tarefa específica e a pessoa faz outra.Ou, no trânsito, alguém corta o seu carro.
O que acontece dentro de você nesse momento?Quais são os pensamentos que aparecem primeiro?

“Muito difícil trabalhar com gente assim.”“Eu tenho que repetir tudo mil vezes.”“Por que as pessoas não fazem direito?”
E o que você faz logo depois?

Responde rápido. Corrige na hora. Fica mais ríspido do que gostaria.
Ou existe ainda uma reação muito comum: você decide fazer sozinho.
“Deixa que eu faço. Vai ser mais rápido.”

Continua após a publicidade

A sensação é de que você está resolvendo um problema.
Mas, muitas vezes, o que está acontecendo é outra coisa: você está tentando fazer desaparecer a frustração.
Na semana passada escrevi aqui sobre vergonha, uma emoção que frequentemente leva ao congelamento e à retirada. A vergonha ativa o medo de não pertencer. O corpo se fecha.
A frustração funciona de outro jeito.
A frustração costuma produzir o movimento oposto: reação.

Continua após a publicidade

Quando sentimos frustração, o cérebro quer reduzir o desconforto imediatamente. E a forma mais rápida de fazer isso é reagindo — corrigindo, pressionando, acelerando, criticando.
Na psicologia comportamental, isso pode se tornar um tipo de evitação: evitação reativa.
Não evitamos a situação. Evitamos a emoção.
Reagimos para que a frustração acabe.
E, se continuamos reagindo toda vez que a frustração aparece, as pessoas ao nosso redor não aprendem a tolerar desconforto. Elas aprendem a descarregar — da mesma forma que nós fazemos.

Continua após a publicidade

Percebi isso de forma clara numa noite fazendo dever de casa com meu filho.
Normalmente, quem faz isso é meu marido. Eu tenho pouca paciência para o ritmo lento do dever de casa. Sempre sinto vontade de acelerar tudo.
Mas, naquela noite, eu precisava ajudar.
Estávamos começando quando Diego, de oito anos, me perguntou algo que me pegou de surpresa:

Continua após a publicidade

“Por que você sempre me apressa quando estamos fazendo o dever de casa?”
Eu respondi automaticamente:
“Porque precisamos terminar.”
Ele olhou para mim e disse:
“Podemos sentar e fazer devagar?”

Continua após a publicidade

Aceitei.
E ali percebi que a habilidade que eu tentava ensinar a ele era exatamente a que eu precisava praticar.
A tarefa era desenhar a viagem perfeita para o spring break. Ele escolheu a Islândia.
Durante quarenta minutos, ele desenhou um vulcão, explicou por que queria ver gêiseres e descreveu o que faria lá.
Enquanto isso, dentro da minha cabeça, outra conversa acontecia.
“Preciso arrumar a mala.”“Vou viajar para o Brasil amanhã.”“Isso está demorando demais.”
A frustração estava ali.
Mas, em vez de reagir para eliminá-la, eu precisei fazer algo diferente: tolerá-la.
Respirar. Esperar. Voltar a atenção para o que estava acontecendo naquele momento.
O dever de casa terminou.
Mas, mais importante do que isso, algo mudou.
Na manhã seguinte, quando precisei acordá-lo para a escola, ele demorou de novo. Mas, em vez de apressar, eu respirei. Esperei. E ele se levantou sozinho, sem que eu precisasse reagir.
Algo tinha mudado no sistema entre nós dois.
Esse mesmo princípio vale no trabalho.
Quando a intolerância à frustração governa a liderança, o padrão se repete: correções rápidas, pressão constante, mensagens enviadas no impulso.
Isso pode resolver a tarefa do dia. Mas não ensina as pessoas a pensar melhor.
E cria algo pior: pessoas que trabalham para evitar sua reação, em vez de trabalhar para fazer um bom trabalho.
A frustração é inevitável.
Ela aparece quando alguém aprende mais devagar do que gostaríamos. Quando processos demoram mais do que planejamos. Quando crianças não se movem no ritmo dos adultos.
A questão não é como eliminar a frustração.
A questão é o que fazemos com ela.
Reagimos para fazê-la desaparecer?
Ou conseguimos pausar o suficiente para escolher uma resposta diferente?
Talvez a pergunta mais importante seja esta:
Quando algo não sai como você quer, você está resolvendo o problema ou tentando se livrar da frustração?
E, quando alguém ao seu redor erra, você está ensinando ou apenas reagindo?
Porque tolerar frustração não é apenas uma habilidade que ensinamos.
É uma habilidade que modelamos.
E Diego me ensinou isso numa noite de dever de casa, perguntando uma coisa simples:
“Podemos sentar e fazer devagar?”
Se você reconheceu esse padrão — no trabalho, em casa ou consigo mesmo — me conte no Instagram: @luanamarques.phd.
Qual foi a última vez que você fez algo rápido só para a frustração acabar?
E o que você faria diferente se tivesse tolerado o desconforto por mais 5 minutos?
Eu leio as mensagens. E, muitas vezes, respondo.
Nos vemos na próxima coluna.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.