SAÚDE E BEM ESTAR

Novas pesquisas mostram os efeitos poderosos das atividades físicas em pequenas doses

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A ciência desvenda que pequenos picos de atividade física no dia a dia, mesmo sem treinos intensos, têm um impacto gigantesco na qualidade e expectativa de vida. Descubra como movimentos simples, como subir escadas ou caminhar rápido, podem blindar seu coração e prevenir doenças, complementando a prática regular de exercícios.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Em uma era que prestigia a alta performance, com a quebra de recordes e limites corporais e esportivos propagada pelas redes sociais, pode parecer que o ganho de condicionamento e saúde só viria às custas de horas e horas dedicadas a mil e um tipos de treino. Pois a ciência agora mostra que essa visão está no mínimo desatualizada — para não dizer equivocada. Hoje, consolida-se a ideia de que pequenos movimentos e curtas sessões de exercícios no dia a dia já são capazes de trazer evidentes benefícios ao corpo. Sim, são minutos com potencial de salvar vidas, como revelam novas e robustas pesquisas.

CANSAÇO? - Menos tempo sentado na cadeira: atalho para sensação de bem-estar (Boonchai W./Getty Images)

O primeiro desses estudos, publicado no The British Journal of Sports Medicine, acompanhou mais de 22 000 pessoas que se declaravam não praticantes de exercício em seu tempo de lazer. Elas foram convidadas a usar acelerômetros de pulso, dispositivos que medem a quantidade e a intensidade do movimento ao longo do dia. O parâmetro a guiar os pesquisadores foi um conceito relativamente recente que se chama “atividade física vigorosa intermitente incorporada ao cotidiano”. O nome pomposo se refere a situações aparentemente banais, mas bastante vantajosas ao organismo: subir lances de escadas em vez de pegar o elevador, carregar compras do mercado até a casa, caminhar rapidamente para não se atrasar… Na prática, os cientistas não incentivavam as sessões de movimento, apenas observavam quão engajados os participantes estavam nos esforços curtos e intensos dentro da rotina — situações que, em geral, nem sequer chamamos de exercícios em si.
A análise dos dados obtidos revelou que pessoas com uma média de três a quatro minutos desse tipo de atividade física por dia corriam um risco 45% menor de problemas cardiovasculares graves e 67% menor de insuficiência do coração. Mesmo doses de um a dois minutos diários de movimentos intensos demonstraram proteção contra infartos. Aí é que está: embora não sejam tão valorizados como os treinos programados, esses momentos de gasto calórico também elevam a frequência cardíaca e trabalham a resiliência das artérias e do coração, um fenômeno extremamente positivo para a longevidade.

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Os achados do estudo conversam diretamente com os de outro trabalho de peso, este publicado na prestigiada revista médica The Lancet. Os especialistas monitoraram, desta vez, cerca de 40 000 indivíduos, também munidos de acelerômetros. Concluíram que acrescentar cinco a dez minutos de atividade física de moderada a vigorosa por dia pode prevenir cerca de 6% das mortes entre pessoas consideradas sedentárias. Entram na conta hábitos como caminhar rápido, subir escadas em ritmo acelerado e pedalar com esforço. Em um cenário hipotético em que todos os voluntários passassem a incluir esses minutos extras de exercício na rotina, o impacto na redução de mortes chegaria a 10% — um número modesto no papel, mas que, se elevado a proporções populacionais, teria efeitos dramáticos em termos de saúde pública.
O que essas novas investigações mostram, com mais ou menos alarde, é que tanto reduzir o tempo sentado na cadeira do trabalho ou no sofá de casa como aumentar o tempo de movimento ao longo do dia, mesmo que você treine de manhã ou à noite, fornece benefícios à saúde a médio e longo prazo. Esses dados não invalidam as recomendações atuais de prática de exercícios programados por dia. Pelo contrário, são complementares ou subsidiários dessa conta. Assim, continua de pé a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de se dedicar a pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada — ou 75 minutos de intensidade vigorosa. Treinos estruturados como aqueles realizados na academia, no parque ou no clube seguem como um pilar inescapável do vigor e do envelhecimento saudável. Mas vencer o comportamento sedentário vai além disso, e não é preciso se esgoelar para colher as benesses.

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Nessa direção, um estudo americano avaliou, ao longo de dezessete anos, quase 85 000 pessoas, comparando os resultados entre aqueles que andavam mais devagar (um passeio com o cachorro, por exemplo) e quem dava passadas mais aceleradas (como numa sessão na esteira ou na praça). Fazendo os cálculos, os cientistas descobriram que realizar somente quinze minutos de caminhada rápida por dia esteve associado a uma queda de quase 20% no risco de mortalidade precoce. O experimento foi feito com uma comunidade americana majoritariamente negra e de baixa renda, demonstrando quão factível e democrática é uma medida como essa, passível de ser incentivada por políticas públicas. “Esses resultados mostram que não é só a quantidade de tempo que importa, mas o tipo de estímulo fisiológico também”, diz o cardiologista Fabrício Braga, membro do Departamento de Ergometria, Exercício, Cardiologia Nuclear e Reabilitação Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Quando o ritmo fica mais exigente, a respiração se intensifica, a frequência cardíaca sobe e mais músculos são recrutados. “Isso ativa adaptações no organismo que reduzem o risco cardíaco”, afirma o médico. Para quem está completamente sedentário, mesmo passadas mais vagarosas podem iniciar mudanças físicas proveitosas.

MEXA-SE - Imobilidade diante da TV e do celular: inimigo número 1 da longevidade (Salvador Candel/Getty Images)

A nova rodada de pesquisas ajuda a mudar o tom da orientação aos pacientes. “Durante muito tempo, a meta de 150 minutos de exercícios por semana soava inatingível a muita gente”, nota o cardiologista Rodrigo Bougleux, chefe da Seção de Cardiologia do Esporte do Instituto Dante Pazzanese, em São Paulo. “Esses estudos indicam que não é preciso começar com uma transformação tão radical.” E as sessões curtas de atividade física durante o dia — até mesmo nos intervalos do expediente — podem ser especialmente bem-vindas a quem já convive com uma doença crônica, como diabetes, obesidade ou hipertensão. “O exercício tende a melhorar a glicemia de quem é diabético e a auxiliar no controle da pressão de quem é hipertenso”, diz o educador físico Pedro Senger, da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).

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NECESSÁRIO - Na academia: treinos programados continuam sendo essenciais (Skynesher/Getty Images)

O que é fundamental ter em vista, vale repetir, é que essas pequenas doses de movimento físico não substituem os chamados exercícios planejados e estruturados (e vice-­versa). Quando se consegue manter um treino ao menos três vezes por semana e somar minutos de agito ao longo de todo santo dia, a chance de conquistar e manter os ganhos fisiológicos é muito maior — mesmo que eles não sejam evidentes no espelho. Não é preciso virar atleta ou um influenciador fitness para conquistar vitórias para o corpo e a saúde. Afinal, cada gota de suor conta. E cada minuto também.
Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983

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