PANGEA CULTURAL

‘Transfake’: a polêmica sobre escalação de elenco em ‘Dona Beja’

Lançado há uma semana na HBO Max, o remake de Dona Beja já tem sido alvo de polêmicas nas redes sociais. No último sábado 7, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) divulgou uma nota de repúdio questionando a escolha do ator Pedro Fasanaro para interpretar a personagem Severina, que é uma mulher transexual. Em nota, a Associação afirma que o papel deveria ser de uma atriz travesti ou mulher trans e que a decisão da produção “desconsidera as trajetórias, experiências sociais e as violências específicas vivenciadas por travestis e mulheres trans, além de reforçar uma lógica de exclusão dessa população de papéis que poderiam e deveriam ser ocupados por elas”. 

No Instagram, Pedro Fasanaro se manifestou, acatando as críticas trazidas pela Antra, mas reforçando sua identidade de gênero como uma pessoa não-binária. “Tenho lido com muito respeito e coração aberto as críticas e reflexões que surgiram sobre a nossa Severina, em Dona Beja. Sei que elas nascem de uma dor real. A gente vive num país que nega trabalho, dignidade e futuro às pessoas trans. (…) Severina é uma pessoa dissidente de gênero. Severina é um ser em movimento, é liberdade. Em um momento da trama, quando questionada sobre sua identidade, ela diz: “Eu sou o que eu sou”. Essa frase atravessa toda a narrativa da personagem e atravessou também a minha”, escreveu o ator. 
Segundo Fasanaro, a interpretação de Severina como uma mulher trans é resultado de uma leitura contemporânea a uma obra de época. “No século XIX, tempo em que essa história se passa, não existiam o letramento nem a consciência de gênero que temos hoje. Havia apenas dois caminhos socialmente aceitos. Qualquer pessoa fora disso era vista como subversiva, desviada, “invertida”.  Severina habita esse lugar do desvio. Ela não se entende, nem se afirma, enquanto mulher”, conclui. Para a Antra, “a declaração do ator como pessoa não-binária não substitui a necessidade de assegurar a presença de mulheres trans e travestis em papéis vinculados às suas vivências específicas”.

No audiovisual, a opção de escalar de pessoas cisgênero para interpretar pessoas trans ou não-binárias é chamada de “transfake”. Mesmo com a autodeclaração de Fasanaro como pessoa não-binária, a Antra classificou a situação da novela Dona Beja como transfake e reforçou a importância de romper com esta prática.

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Sobre ‘Dona Beja’
A produção da HBO Max resgata a trama de Dona Beija, que fez sucesso nos anos 1980 na extinta Rede Manchete, agora com Grazi Massafera no lugar que foi de Maitê Proença — e a promessa de muitos replays das famigeradas cenas de nudez na cachoeira que fizeram a fama da original. No cerne da novela está a história ficcionalizada de uma figura histórica real, a mineira Ana Jacinta de São José (1800-1873), que fez de tudo para tomar as rédeas de sua vida — e de seu corpo — enquanto navegava por uma jornada de sofrimento e abuso. Mais que o apelo sensual, Dona Beja chama atenção por renovar um mote popular na ficção brasileira, da literatura à TV: o fascínio pelas profissionais do sexo — das cortesãs d’antanho às garotas de programa modernas — que se revelam heroínas em busca da redenção.
A história contada na televisão vem de uma experiência real, e se baseia em de dois livros: Dona Beja: A Feiticeira do Araxá, de Thomas Othon Leonardos (1906-1990), e A Vida Em Flor de Dona Beja, de Agripa Vasconcelos (1896-1969). Segundo os escritos, Ana Jacinta chegou com sua família na cidade de Araxá, Minas Gerais, quando tinha 5 anos. Conforme foi crescendo, foi reconhecida como a moça mais bonita da região por causa de sua pele clara, cabelos loiros e olhos claros. Seu avô lhe deu o apelido de Beja por dizer que sua beleza era rara como a da flor beijo. Na adolescência, se encantou por Manoel Fernando Sampaio, mas, aos 15 anos, foi raptada por Joaquim Inácio Silveira da Motta, um homem de confiança do rei que a forçou a assumir o papel de amante. A jovem ficou nessa situação de abuso por dois anos, até que o imperador Dom João VI exigiu o regresso de Joaquim para o Rio de Janeiro sem Ana, que precisou voltar para Araxá.
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