SAÚDE E BEM ESTAR

Dieta cetogênica pode ‘curar’ transtornos mentais? O que diz a ciência sobre declaração de Kennedy Jr.

O secretário de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., voltou a causar barulho ao afirmar que a dieta cetogênica poderia “curar” a esquizofrenia. A declaração foi feita durante uma visita a Tennessee, como parte de uma turnê nacional para incentivar os americanos a “comer comida de verdade”, segundo o The New York Times.
Kennedy Jr. tem usado essa viagem como uma espécie de campanha para divulgar mudanças nas diretrizes alimentares federais, que agora enfatizam mais proteínas e gorduras — bife, queijo, manteiga e leite integral entram na lista — e menos carboidratos.

“Agora sabemos que as coisas que vocês comem estão impulsionando as doenças mentais neste país”, disse o secretário, citando um médico de Harvard que teria “curado a esquizofrenia usando dietas cetogênicas”. O problema é que a ciência não acompanha esse entusiasmo.
De onde vem essa história?
Kennedy aparentemente se referia a um artigo publicado em 2019 pelo psiquiatra Christopher Palmer. O estudo descreve dois casos de pacientes com esquizofrenia de longa data que teriam entrado em remissão completa dos sintomas após iniciar uma dieta cetogênica. Segundo o artigo, ambos conseguiram suspender o uso de antipsicóticos.

À primeira vista, parece promissor. Mas é aí que entra o freio de mão puxado pelos especialistas. “O estudo é bem inicial. Estamos falando de dois estudos de caso, não de um ensaio clínico”, explica o nutricionista Mauro Proença. “Além disso, as pacientes nem começaram a dieta pensando em esquizofrenia: uma queria perder peso e a outra tratar sintomas gastrointestinais.”
Em estudos de caso, não há grupo controle nem controle adequado das chamadas variáveis de confusão — fatores que podem ter influenciado o resultado, como mudanças no estilo de vida, adesão ao tratamento ou até o próprio curso natural da doença. “Não dá para afirmar causa e efeito com esse tipo de desenho”, resume Proença.

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Há ainda outro ponto sensível: conflito de interesse. Um dos autores do trabalho, o Dr. Westman, recebe royalties de livros e é sócio de clínicas que seguem os princípios da dieta cetogênica. “Isso não invalida automaticamente o estudo, mas exige ainda mais cautela na interpretação”, diz o nutricionista.
O que a ciência diz hoje?
Até o momento, não existe nenhuma evidência robusta de que a dieta cetogênica cure a esquizofrenia. O que existe são sinais iniciais de que a alimentação pode, talvez, influenciar sintomas psiquiátricos, mas ainda estamos longe de respostas definitivas.
Proença lembra de um em estudo publicado em 2024 que avaliou 23 pacientes com esquizofrenia ou transtorno bipolar submetidos a uma dieta cetogênica. Os resultados foram positivos, mas o próprio desenho do estudo impõe limites importantes.
“Era um estudo piloto, ou seja, servia mais para testar se a metodologia funcionava do que para tirar conclusões clínicas”, explica Proença. Houve dificuldades em controlar a adesão à dieta e ausência de um grupo controle bem definido. “Ajuda a levantar hipóteses, não a fechar diagnóstico.”

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Proença destaca que a dieta cetogênica tem evidências mais sólidas em outro contexto: epilepsia e convulsões. A hipótese é que a mudança metabólica provocada pela dieta reduza a excitabilidade cerebral e a inflamação, gerando um efeito anticonvulsivante. “Nesse caso, sabemos que funciona. Então, não é impossível que a cetose tenha algum efeito em quadros psiquiátricos. Mas isso ainda precisa ser demonstrado com estudos maiores e mais bem controlados.”
Keto não é tudo igual
Outro ponto que costuma ficar fora do debate é que nem toda dieta cetogênica é igual – e isso faz diferença. Proença explica que é possível seguir uma versão relativamente mais saudável da dieta, com maior presença de azeite, óleos vegetais, oleaginosas, legumes, verduras, até um pouco de fruta, além de proteínas magras e gorduras de melhor qualidade. Nesse modelo, os carboidratos seguem restritos, mas o perfil de gordura muda bastante.
Ainda assim, a dieta não deixa de ter riscos. Os carboidratos, apesar de demonizados por muita gente, continuam sendo importantes para a saúde — afinal, são a principal fonte de energia do nosso corpo.
O problema, segundo Proença, é o modelo que costuma ser promovido — inclusive nas falas de Kennedy e nas mensagens associadas às novas diretrizes: mais carne vermelha, mais gordura animal, manteiga, sebo bovino. “Isso vai na contramão das evidências que temos sobre doenças cardiovasculares.”

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Além disso, a dieta cetogênica tradicional é rica em gordura saturada, um tipo de gordura que a ciência trata com cautela. Em excesso, ela pode elevar o colesterol LDL, o chamado “colesterol ruim”. “Quando o LDL circula demais, ele pode se depositar nos vasos, aumentando o risco de infarto e AVC“, alerta o nutricionista.
Na avaliação dele, o cenário que se desenha é preocupante: uma promessa não comprovada de “melhora” um transtorno mental grave, combinada a um padrão alimentar que pode aumentar o risco cardiovascular. “É um combo perfeito para desfechos negativos”, opina o nutricionista.
Vale lembrar que não é a primeira vez que Kennedy Jr. faz declarações que contrariam o consenso científico, especialmente quando o tema envolve vacinas e medicamentos. Em 2024, ele afirmou que os remédios usados no tratamento do TDAH teriam “envenenado” toda uma geração de crianças. O secretário de saúde dos EUA também demitiu os 17 integrantes do Conselho Consultivo sobre Práticas de Imunização dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e os substituiu por nomes alinhados a uma visão mais cética em relação a imunizantes.

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