SAÚDE E BEM ESTAR

Saúde mental: especialistas alertam para a perigosa ‘epidemia de diagnósticos’

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O avanço no reconhecimento de transtornos mentais paradoxalmente gera uma onda de diagnósticos “fast-food” e automedicação. Especialistas alertam para a patologização de desconfortos cotidianos e o uso excessivo de remédios, impulsionado por redes sociais, transformando tensões da vida em doenças.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Ao longo de boa parte do século XX, recaía sobre o sofrimento psíquico alta dose de desconhecimento e preconceito, e o tormento era logo alojado no escaninho da inadequação social, da fraqueza e até do desvio moral. Quem deixasse entrever uma instabilidade emocional mais profunda não raro se via afastado da vida em sociedade e acabava internado no hospital, onde se submetia a tratamentos tais como a lobotomia, à base de choques com o objetivo de minar certas conexões no cérebro e reduzir o estado de agitação. O método, vastamente difundido até os anos 1950 no mundo ocidental, foi felizmente posto de lado por seus comprovados efeitos deletérios, cedendo lugar a uma abordagem mais moderna, em que o problema enfim ingressou no campo da saúde. A ciência então evoluiu, encontrando formas eficazes de duelar contra os males da mente, que ganharam nomenclaturas hoje tão difundidas — depressão, ansiedade e outros tantos transtornos.

Em meio ao inequívoco avanço, capaz de dar vida nova a uma multidão que antes penava em silêncio, os especialistas vêm observado um efeito colateral: o diagnóstico dessas doenças disparou de forma preocupante. Uma ala séria da medicina mundial afirma haver aí excessos tanto por parte dos profissionais, que estariam se precipitando ao prescrever remédios de tarja preta sem uma observação mais consistente do paciente, como por parte de pessoas que, diante de cansaço, estresse e tristeza, recorrem por conta própria a ansiolíticos e antidepressivos — sobretudo a turma jovem. Um dos mais respeitados estudiosos do tema, o psiquiatra Luis Augusto Rohde, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, lançou um alerta sobre a questão que reverberou no meio médico. “As con­di­ções de saúde mental não funcionam como um teste de gravidez, com resultado positivo ou negativo. O ponto de corte é sempre, em alguma medida, arbitrário”, afirma ele, que diz estar em curso uma epidemia dos “diagnósticos fast-food”, fruto de consultas rápidas e inexperiência. “Quando o médico não tem formação adequada, há o risco de indicar remédios inadequados que podem levar à dependência”, enfatiza.

O último levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra que 1 bilhão de indivíduos convivem hoje com algum transtorno mental, mais de 10% dos habitantes do planeta. No Brasil, o SUS registrou em um ano 600 000 atendimentos por ansiedade e quase 200 000 por depressão. Os expressivos números espelham certamente algo muito real e visível, mas pesquisas mundo afora sugerem que tão superlativa grandeza pode conter distorções pela velocidade no aumento de diagnósticos e no uso de remédios. De 2023 a 2025, o consumo de antidepressivos entre brasileiros subiu 13%, segundo a Funcional Health Tech, empresa que atua na área da saúde, enquanto no Reino Unido dobrou em apenas quatro anos o contingente diagnosticado com algum mal da mente. Já nos Estados Unidos, triplicou em uma década o grupo dos que sofrem de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). “Existe uma confusão muito grande sobre o que é, de fato, um transtorno mental e o que faz parte das tensões normais da vida”, observa Miriam Gorender, diretora da Associação Brasileira de Psiquiatria.

FICOU PARA TRÁS - Lobotomia nos anos 1950: o antiquado método prometia controlar a agitação (Ted Streshinsky/Corbis/Getty Images)

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O fenômeno é encabeçado pelo batalhão da jovem geração Z, às voltas com o desafio de fincar os pés na vida adulta e que tem como traço uma intensa preocupação com a saúde mental. É frequente ver entre eles desconfortos cotidianos serem automaticamente postos em alguma categoria clínica, ainda que sem respaldo médico. “Vivemos uma patologização da existência, em que experiências humanas comuns são muitas vezes tratadas como doenças”, diz a psicóloga Pietra Breyer. Em 2024, em nenhum outro grupo demográfico brasileiros a compra de medicamentos para a saúde mental aumentou tanto quanto entre os integrantes da turma Z: 7%, de acordo com levantamento da Vidalink, empresa voltada para o bem-estar corporativo. Uma ampla pesquisa realizada no ano passado com americanos na faixa de 18 a 28 anos deu novo contorno à tendência ao mapear os que acreditavam sofrer de uma doença da mente: era o caso de quatro em cada dez entrevistados, 19% deles usuários de substâncias não prescritas.
Para uma parcela dos que se autodiagnosticam, conseguindo com sabida regularidade remédios sem receita em farmácias que fazem vista grossa, falar do assunto ainda é tabu, mas outros tantos não só externam o problema, como são bastante francos ao encará-lo. O relações-públicas Nichollas Passos, 23 anos, começou a usar Ritalina, um estimulante do sistema nervoso central indicado para o tratamento de TDAH, ao entrar na faculdade, após notar seu efeito positivo em uma familiar que sofria do transtorno. Como muita gente, tomou a decisão sem consultar ninguém. “Percebi que produzia mais, mas me sentia vazio, como se fosse um robô”, relata. O tempo passou e o que parecia inofensivo virou dependência, da qual se livrou, aí, sim, com ajuda médica.

EFEITO DE CURTO PRAZO – Sem avaliação médica nem receita, o relações-públicas Nichollas Passos, 23 anos, recorreu a um ansiolítico para encarar a faculdade. “Funcionava, mas eu me sentia vazio, como um robô”, diz. (//Arquivo pessoal)

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As redes sociais dão gás à altamente contraindicada onda, oferecendo conteúdos sobre saúde mental de grande apelo, veloz e direto, porém repleto de imprecisões. Listas genéricas de sintomas — “sinais de que você pode ter TDAH”, “como saber se sua ansiedade não é normal” — contabilizam visualizações na casa dos milhões, ensejando o autodiagnóstico. A especialista em relações internacionais R.S., 26 anos, que preferiu não dar o nome, reconhece ter sido influenciada pelo frenético fluxo de posts e vídeos sobre o tema no universo digital e, assim, começou a tomar um ansiolítico por conta própria. “No meu grupo de amigos, todo mundo toma”, diz. Em viagem recente para uma casa alugada com uma turma, conta que 100% das pessoas recorriam ao remédio para dormir melhor — nenhuma delas com orientação médica.

COMPRA FÁCIL - Farmácias no país sabidamente vendem ansiolíticos e afins sem receita: impulso à automedicação (Allison Sales/Folhapress/.)

Um levantamento conduzido por diferentes pesquisadores britânicos foi investigar o tópico ouvindo a própria classe médica. E um dado particularmente impressionou: 84% reconheciam que o estresse rotineiro vem sendo diagnosticado como doença mental, distorção que embute o risco de efeitos indesejados. A carioca Luiza Fernandes, 27 anos, passou a sentir palpitações que atribuiu à ansiedade e marcou consulta com uma psiquiatra que não conhecia. Ficou menos de dez minutos no consultório. “Eu cheguei e disse que era ansiosa, e a médica logo me deu uma receita sem perguntar nada sobre meu histórico ou sintomas”, lembra. Ela fala que o medicamento até trouxe alívio em um primeiro momento, mas não foi à raiz de seu incômodo. “Achei tudo simplificado demais”, desabafa.

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REFLEXÃO - Foucault: segundo ele, a humanidade tende a “medicalizar a vida” (Michele Bancilhon/AFP)

Em seu best-seller Nação Dopamina, a psiquiatra Anna Lembke, da Universidade de Stanford, descreve o mundo de hoje em um desequilíbrio crônico entre prazer e dor, no qual as pessoas, cercadas de estímulos recompensadores, tendem a rejeitar o desconforto. É nesse ponto que se abre a brecha para o que o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) chamou de “medicalização da vida”, referindo-se à propensão humana de transformar sentimentos e emoções em condições médicas. “Nem toda criança agitada tem TDAH, assim como nem todo adulto distraído está doente”, resume o neuropediatra Mauro Muszkat. Nada como ciência elevada, bons médicos e sensatez para navegar em meio à tamanha complexidade e manter a mente saudável.
Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981

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