O dilema existencial da música clássica para renovar seu público na era digital
Ler Resumo
A música clássica busca atrair jovens, gerando um debate crucial: adaptar-se à cultura pop ou preservar sua essência? Descubra como pianistas e orquestras reinventam a arte erudita, enfrentando críticas e mostrando que a nova geração já se interessa. Leia!
Este resumo foi útil?
👍👎
Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Ao descobrir a música clássica na juventude, o pianista anglo-americano Evan Shinners encarou trabalhos de Mozart, de Tchaikovsky e de seu favorito — o mestre barroco Johann Sebastian Bach (1685-1750) — como portais para uma consciência elevada, despida de individualidade e debruçada sobre os segredos científicos do mundo. Hoje aos 40 anos, porém, ele teme que essa arte seja encarada pelo público em geral apenas como forma de autoexpressão — e que as orquestras se tornem mero verniz para atrações que ou simplificam ou maculam a música com referências externas. “Nada é pior do que um quarteto de cordas tocando Beyoncé. Os dois elementos são bons, mas a junção os anula terrivelmente”, opina de modo enfático sobre o que se vê, por exemplo, nos famigerados (e altamente pop) Concertos Candlelight, realizados à luz de velas, como diz o nome em inglês. Em seu posicionamento firme, está um dilema que consome o meio erudito há anos: qual o limite entre adaptação e apelação na tentativa, sempre excruciante, de renovar o público da música erudita? Na busca de levar a arredia geração Z às salas de concerto, tudo que se conhece sobre essa nobre arte entra em xeque, do repertório à arquitetura dos recintos onde ela é apresentada.
MENOS É MAIS? - A Flauta Mágica na Met Opera: versão encurtada é polêmica (Karen Almond/Metropolitain Opera//)
Tal desafio não é propriamente novo, claro. De tempos em tempos, a música orquestral necessita correr atrás do que anda pela cabeça dos jovens para promover a troca de guarda entre seus ouvintes — e sobreviver. Foi assim que se projetaram figuras como os tenores pop-star ou que se apostou, nos anos 1980, no improvável (e irresistível) cruzamento dos clássicos com a discoteca. Para Shinners, o maior problema é a alteração do material em si. Vale tudo para conquistar um novo ouvinte — mas daí ao sacrilégio de reescrever uma partitura de Bach já é demais. Ele mostra qual o caminho das pedras mais sensato nessa árdua missão. Atualmente, toca dois projetos sobre o gênio alemão. O mais afamado é o podcast WTF Bach, cujos episódios destrincham o cânone barroco nos mínimos detalhes, de modo a ajudar iniciantes e até estudiosos. Já o outro, chamado The Bach Store, leva o som para fora das salas de concerto típicas. Junto de outros músicos, Shinners esporadicamente aluga lojas abandonadas por um dia e lá toca todos os trabalhos disponíveis do compositor, sem cobrar ingresso.
INSTAGRAMÁVEL - Candlelight: músicas atuais e cenografia em primeiro lugar (Fever//)
É evidente, portanto, que o interesse dos mais jovens pelo erudito existe. Pesquisa recente do Theatro Municipal de São Paulo atestou que 29% dos espectadores estavam abaixo dos 34 anos — parcela maior que a casa acima dos 55, de 26%. Já na Inglaterra, segundo a Royal Philharmonic Orchestra, o percentual de interessados em assistir a uma orquestra ao vivo saltou de 79%, em 2018, para 84%, em 2023. A pesquisa, porém, traz um dado revelador: o aumento da curiosidade vem acompanhado de novas tendências: concertos de musicais, trilhas de cinema, TV e videogames, que misturam o clássico e o pop.
Continua após a publicidade
DISCÍPULO – André 3000 no Met Gala 2025: artista incute sonoridade clássica no rap (Savion Washington/Getty Images)
Em resposta à onda, Shinners publicou um manifesto no The New York Times, intitulado Parem de Mutilar Música Clássica para Vendê-la para Crianças. Segundo sua visão, encurtar a ópera A Flauta Mágica para que infantes aguentem por noventa minutos sem reclamar — como faz a Met Opera, em Nova York — é subestimar a capacidade do público. Não só: ele duvida que concertos de trilhas despertem o interesse de seus ouvintes pela história da música. Os menos céticos, porém, enxergam seu charme nessas piscadelas à cultura pop. Em 2024, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp, lotou apresentações do espetáculo Sinfonia de Anime, com direito ao maestro Wagner Polistchuk fantasiado como o herói Naruto enquanto conduzia trabalhos de Joe Hisaishi para filmes do Studio Ghibli. Não é impensável que dali um dos jovens aficionados por desenhos descubra como Hisaishi bebeu do minimalismo de Philip Glass — que, por sua vez, bebeu do classicismo de Franz Schubert (1797-1828).
CULTURA POP - O concerto de trilhas de animes da Osesp: até maestro ninja (//Reprodução)
Continua após a publicidade
Há outras iniciativas frutíferas na tarefa de fazer a ponte entre a tradição erudita e a nova geração. É o caso do festival inglês BBC Proms, que desde 1895 promove oito semanas de concertos no Royal Albert Hall e convida participações chamativas. Em 2025, o público podia ser fisgado pela roqueira St. Vincent em uma noite e, na outra, descobrir a música sacra do estoniano Arvo Pärt. Ações como essas se aliam à disseminação de compositores por playlists nos serviços de streaming — e, não menos importante, a trabalhos de músicos pop com inspiração clássica, da espanhola Rosalía ao rapper americano André 3000. “Esses são sinais que precedem uma renascença”, proclama Shinners. “A pobreza intelectual e espiritual é sentida e o povo busca retomar as artes de outrora.” Se o dilema da música clássica é inquietante, a música de qualidade é capaz de milagres.
“Nossa era é iletrada”
O pianista Evan Shinners falou a VEJA sobre sua luta para levar a música erudita à geração atual.
INOVADOR - Shinners: músico quer popularizar clássicos sem deturpá-los (//Divulgação)
Continua após a publicidade
De onde surgiu a ideia de tocar Bach na íntegra fora de salas de concerto? Só pensei que, num lugar inesperado, o público poderia ouvir o clássico com uma mente aberta. Não quero empobrecer o material. Nada é pior que um quarteto de cordas tocando Beyoncé. Os dois elementos são bons, mas a junção os anula terrivelmente.
Tem esperança sobre o futuro da música clássica? Nossa era é extremamente iletrada. As pessoas reagem primeiro com as emoções, depois com lógica. Por outro lado, esses são sinais que precedem uma renascença — a pobreza intelectual e espiritual é sentida e o povo busca retomar as artes de outrora. Meu ponto é que, por enquanto, não quero jogar a toalha e deixar a música erudita ser devorada. Quero combater o declínio intelectual.
Artistas como Rosalía e o rapper André 3000 usam a música clássica como elemento do pop. Acha que o efeito é positivo? Gosto do disco 7 Piano Sketches (2025), de André 3000, porque ele apresenta Thelonious Monk (1917- 1982) aos ouvintes sem se colocar em pé de igualdade com o jazzista. Tocar piano é escalar uma montanha muito alta, e alguém como Monk está no pico. Não há nada de errado em prestar homenagens respeitosas.
Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981










