SAÚDE E BEM ESTAR

Por que falar sobre fim da vida e cuidados futuros não deve ser tabu

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O ‘susto das férias’ revela o declínio de pais idosos. A inação e tabus culturais impedem conversas cruciais sobre demência e fim de vida, gerando problemas médicos, financeiros e estresse familiar. Planejar enquanto há autonomia é um ato de amor e prudência essencial para garantir a vontade deles.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Em janeiro, milhares de filhos adultos de pais idosos voltam das férias com uma suspeita aterrorizante: “É apenas uma impressão ou minha mãe estava realmente mais esquecida? Devo me preocupar?”. Seja por causa de uma panela queimada, da mesma história contada cinco vezes durante o almoço, de plantas mortas ou de uma despensa vazia, o “susto das férias” é um fenômeno internacional, em que filhos que moram longe conseguem, pela primeira vez, detectar um declínio nos pais idosos. Não é à toa que, nessa época, plataformas de cuidado para pessoas idosas registram um pico de demanda.
Infelizmente, na maioria das vezes, esse susto termina em silêncio coletivo, e a inação frequentemente leva a uma miríade de problemas médicos, financeiros e legais para toda a família — algo que deve ser evitado. A percepção de uma decadência dos pais deveria servir como estímulo para uma conversa sensível sobre o fim de suas vidas, caso desenvolvam demência, e sobre como é possível se preparar para lidar com a situação.

Só para exemplificar: em apenas um ano, no Brasil, 100 mil pessoas acima de 55 anos são diagnosticadas com Alzheimer, aumentando uma base que já conta com 1,2 milhão de pessoas afetadas. Com a idade sendo um dos maiores fatores de risco, a cada cinco anos, a pessoa a partir dos 65 tem o dobro do risco de desenvolver a doença. Isso torna compreensível o medo: “Será que minha mãe está desenvolvendo demência?”

Obviamente, nem todos os idosos serão diagnosticados com Alzheimer. Mas muitas condições podem causar sintomas semelhantes aos do início da doença, inclusive o próprio envelhecimento saudável do cérebro, que provoca certo grau de esquecimento. Depressão, problemas da tireoide, deficiências vitamínicas (principalmente de B12), sono irregular, entre outros fatores, também podem contribuir. Por isso, é essencial consultar profissionais de saúde para acompanhamento e diagnóstico com acurácia.
Nesse caminho, porém, há um obstáculo cultural silencioso que trava muitas famílias brasileiras: a crença supersticiosa de que falar sobre demência ou morte pode, de alguma forma, atrair esse destino. No Brasil, planejar o fim da vida ainda é visto por muitos não como prudência, mas como um convite ao infortúnio. Além disso, a temida “conversa” é frequentemente acompanhada da sensação de uma traição mórbida à dignidade dos pais, quando, na verdade, o silêncio é o grande vilão da história. Porque, uma vez que o parente cruza a linha da incapacidade cognitiva, o direito e a autonomia de escolher seu próprio cuidado, suas preferências de fim de vida e seu legado desaparecem.

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Essa lacuna entre o que os pais esperam e o que os filhos planejam cria uma fricção paralisante. A maioria dos pais espera ser cuidada pelos filhos, mas quase nenhum inicia o diálogo para tornar isso viável. O resultado é um jogo de adivinhação de alto risco: será que minha mãe gostaria de uma casa de repouso? Meu pai aceitaria mudar de cidade para morar perto de mim? E se, um dia, ele precisasse ser entubado, o que escolheria? Sem respostas, os filhos herdam o peso de decisões angustiantes baseadas apenas em suposições — muitas vezes quando o tempo de escolha já se esgotou. Tudo isso ocorre durante um dos momentos mais difíceis da vida de uma pessoa: aceitar a mortalidade dos pais.
Além do impacto emocional, pode haver um precipício financeiro. O silêncio pode levar ao congelamento de contas bancárias e à falência, devido aos custos astronômicos de cuidados de longo prazo que poderiam ter sido geridos com um pouco mais de previsibilidade. No Brasil, cuidar de uma pessoa com demência custa milhares de reais por mês, um recurso dificilmente acessível à maioria da população, principalmente quando não há preparo para arcar com tais custos.
Um estudo recente do A Place for Mom, a maior agência de recursos para cuidadores de pessoas idosas nos Estados Unidos, indica que nove em cada dez famílias que buscam ajuda profissional o fazem apenas no momento de crise aguda; dessas, 75% admitem que deveriam ter abordado o tema muito antes. Evidencia-se, assim, que a procrastinação é amplamente comum. O estudo também aponta que 77% dos cuidadores sofrem de estresse severo, o que, infelizmente, corrobora a literatura global sobre o fardo extremo do cuidado a pessoas com demência.

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Precisamos encarar a equação do “difícil versus pior”. Um fim de semana de conversas desconfortáveis à mesa da cozinha é um preço pequeno a pagar para evitar a culpa vitalícia de tomar decisões de vida ou morte no escuro — ou, pior, assistir ao Estado decidir o destino de quem você ama por meio de curatelas judiciais.
O “susto das férias” é um chamado à ação. Se você percebeu que algo mudou, não priorize seu conforto emocional em detrimento da autonomia futura de seus pais. Planejar o cuidado enquanto ainda há capacidade para tal não é uma desistência, mas um profundo ato de amor filial e a única forma de garantir que a vontade deles seja respeitada até o fim.
David Amorim é mestre em antropologia médica na Universidade de Harvard e Pesquisador no Institute of Aging da Harvard Medical School

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