As verdades e mitos na vida íntima de Shakespeare reveladas no filme ‘Hamnet’
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O filme “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” mergulha nos “anos perdidos” de Shakespeare, imaginando sua vida familiar e a conexão entre a perda do filho Hamnet e a icônica peça. A obra provoca reflexão sobre a linha tênue entre fatos e ficção na biografia do bardo, humanizando-o de forma sensível e envolvente.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
William Shakespeare (1564-1616) estava empobrecido após as lambanças financeiras de seu pai, já criava três crianças — mal tinha 20 anos. O ano era 1585 e ele logo deixou sua família e cidade para entrar no que historiadores chamam de “anos perdidos”: período de quase uma década em que nada se sabe sobre o paradeiro do mais importante autor da história. Há quem diga que tenha fugido de Stratford-upon-Avon por caçar cervos ilegalmente, ou que tenha atuado como professor particular. A teoria mais popular é de que partiu para Londres atrás da carreira no teatro. Seu nome só é citado na imprensa mais tarde, em 1592, quando suas peças já circulavam na capital e outro dramaturgo, Robert Greene, publicou dura crítica chamando-o de prepotente. Mais de quatro séculos depois, nenhuma pesquisa é capaz de esclarecer os mistérios do autor — que não deixou qualquer escrita confessional para trás. Debruçada sobre essa névoa indissipável, a escritora irlandesa Maggie O’Farrell então a encarou como fonte para ficção histórica, o que levou à publicação em 2020 do livro agora adaptado como Hamnet: a Vida Antes de Hamlet, longa já em cartaz nos cinemas.
ENIGMA - Shakespeare e seu clã: lacunas que desafiam historiadores (Hulton Archive/Getty Images)
Um dos concorrentes ao Oscar, o filme ousa imaginar a vida interior de seu protagonista, assim como daqueles a seu redor. Interpretado pelo galã Paul Mescal, Shakespeare ganha mais uma vez contornos românticos: encontra sua futura esposa, a irreverente Agnes (Jessie Buckley), a corteja e a engravida. Ambos se casam e logo formam uma família. A primogênita é Susanna (Bodhi Rae Breathnach), nascida em 1583, e os gêmeos Judith (Olivia Lynes) e Hamnet (Jacobi Jupe) chegam logo depois, em 1585. Dos três, o garoto é o único que não passa da infância: morre aos 11 anos, acometido pela peste bubônica. A partir da curiosa coincidência entre seu nome e o da tragédia Hamlet, na qual o príncipe da Dinamarca vinga a morte de seu pai, O’Farrell e a vencedora do Oscar Chloé Zhao imaginam os possíveis laços entre a perda e a peça clássica, expondo a humanidade do bardo.
A abordagem sensível tem encantado o público ao redor do globo, de quem arranca lágrimas facilmente. Alguns poucos críticos ferrenhos, porém, apontam que o filme não passa de fan-fiction, a ficção criada pelo olhar edulcorado dos fãs — ideia que não é nova para pesquisadores do dramaturgo. “Toda biografia de Shakespeare é 5% fato e 95% conjectura”, escreve Bill Bryson em Shakespeare: o Mundo É um Palco (2007).
A PROLE - Hamnet, Susanna e Judith: tragédia familiar impactou suas peças (Agata Grzybowska/FOCUS FEATURES/.)
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O roteiro renova o debate sobre o que é verdade ou mito na vida de Shakespeare (leia o quadro). Inclui fatos inegáveis: Shakespeare nasceu em Stratford-upon-Avon, casou-se e formou família, viajou para Londres e fez carreira como ator e escritor. Ignora, porém, que Agnes era oito anos mais velha que ele e que talvez se chamasse Anne, segundo registros. Fora isso, mais nada se sabe sobre ela. No afã de iluminar a mulher por trás dele, Zhao e O’Farrell criam uma figura fictícia, representada por Buckley como uma pagã fascinada pela natureza, devotada aos filhos e distante do trabalho do marido, apesar de amá-lo. Décadas antes, a feminista Virginia Woolf fez esforço similar em Um Quarto Só Seu (1929), em que imagina a existência de uma irmã genial como o bardo, mas incapaz de seguir carreira por ser mulher.
SENSÍVEL – A diretora Zhao com os protagonistas: família do autor é humanizada (Agata Grzybowska/FOCUS FEATURES/.)
Com o passar dos séculos, afinal, Shakespeare deixou de ser um homem e tornou-se ideia, de modo que o tratar com anacronismo na cultura pop causa pouco escândalo. É o caso do meloso vencedor do Oscar Shakespeare Apaixonado (1998), do pop chiclete The Fate of Ophelia, no qual Taylor Swift simplifica Hamlet, e até da animação O Rei Leão. No caso de Hamnet, o olhar contemporâneo está no luto. Na época, as mortes superavam os nascimentos na Inglaterra e Shakespeare viu três irmãs morrerem na infância. Entre a perda do filho e a primeira apresentação de Hamlet, em torno de 1600, levou outras doze peças aos palcos, de modo que é impreciso afirmar que o trabalho tenha sido concebido como o que hoje é chamado de “literatura de cura”. Mas, embora não exato, o longa é fiel ao espírito da tragédia shakespeariana, ao servir como espelho da natureza humana.
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Quase meio milênio após seu nascimento, talvez seja esse o legado de William Shakespeare. Inventor de mais de 1 700 palavras, 154 sonetos e 37 peças, 15% das remanescentes do período elisabetano, preservadas por milagre graças a uma coleção póstuma publicada em 1623, o dramaturgo não deixou só lacunas sobre sua obra e biografia, mas ferramentas para que seus admiradores as preenchessem e, assim, ampliassem sua visão de mundo. A vida íntima do bardo é também um convite à criatividade.
Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979










