Estratégia para a Bioeconomia da UE não vai travar a crise de recursos, alertam ambientalistas
A Estratégia de Bioeconomia apresentada na quinta-feira pela Comissão Europeia é incapaz de conter a crise de recursos na União Europeia (UE) e tem falta de ambição, diz o European Environmental Bureau (EEB), uma rede de organizações ambientais. A nova estratégia “não tem a ambição necessária para alinhar a utilização dos recursos na Europa com os limites ecológicos do nosso planeta”, diz a organização em comunicado, lamentando a oportunidade perdida de corrigir anos de políticas erradas.Para os ambientalistas, Bruxelas agarra-se à ilusão de que é possível substituir o consumo actual por insumos de base biológica sem reduzir a procura excessiva. “Ao concentrar-se em iniciativas isoladas de inovação de produtos em vez de abordar as causas profundas das crises da natureza, da poluição e do clima, a Comissão perdeu uma oportunidade crucial”, diz o EEB num comentário à estratégia, acrescentando que comparada com uma versão anterior divulgada em Outubro, a Estratégia não reconhece a necessidade de reduzir drasticamente a pressão sobre os ecossistemas.A estratégia também não prioriza os usos materiais da biomassa – que são mais sustentáveis e eficientes em termos de recursos – em detrimento da sua utilização para energia, diz o EEB, para quem esta é “uma grande oportunidade perdida para corrigir anos de políticas erradas que recompensaram utilizações ineficientes, intensivas em carbono e poluentes da biomassa”.Proposta da ComissãoA Comissão Europeia apresentou esta semana o seu quadro estratégico para uma bioeconomia competitiva e sustentável na UE, com o objectivo de “impulsionar o crescimento verde”, e quer, até 2040, substituir plásticos, fertilizantes e outros derivados fósseis por materiais de base biológica.A proposta integra os esforços para acelerar a transição para uma economia de base biológica e circular, um sector que já representa cerca de 5% do PIB da União. Destaca-se a criação da Aliança para uma Europa de Base Biológica, na qual as principais empresas se comprometem a adquirir conjuntamente dez mil milhões de euros em materiais de base biológica até 2030.As soluções de base biológica incluem bioplásticos e fibras para têxteis e embalagens, produtos químicos e ingredientes de origem biológica, fertilizantes e produtos fitofarmacêuticos sustentáveis e ainda materiais de construção de base biológica.Degradação de recursosA organização ambientalista internacional ECOS, com sede em Bruxelas, também considera que a Comissão “perdeu a oportunidade de fazer muito mais”, sublinhando que a natureza é vista como um instrumento para a competitividade da UE, “com poucas salvaguardas de sustentabilidade” para tornar a bioeconomia resiliente a longo prazo.Ainda que represente um avanço, a Estratégia não oferece uma visão clara para uma bioeconomia europeia que opere dentro dos limites planetários, afirma a ECOS, alertando que se corre o risco de continuar a degradação dos recursos (como as florestas, os solos, as terras agrícolas e os sistemas hídricos), em vez de se direccionar a bioeconomia para a resiliência e a circularidade.Deixando propostas para melhorar a Estratégia, a ECOS considera que a protecção da saúde planetária não é suficientemente priorizada no documento da Comissão. Algumas das medidas propostas, entende a organização, podem conter as pressões ambientais, mas serão insuficientes.Agricultura quer protagonismoNuma perspectiva distinta da dos ambientalistas, os agricultores e proprietários florestais reivindicam o estatuto de coração desta economia. As organizações Copa e Cogeca, que representam o lobby dos grandes produtores agrícolas europeus, pedem medidas concretas que reforcem a posição dos produtores nas cadeias de valor, argumentando que o sector deve ser visto não só como guardião do equilíbrio ecológico, mas também como fornecedor essencial de biomassa para os novos mercados de têxteis, químicos e construção.Do ponto de vista científico, a análise do ciclo de vida – a pegada ecológica – das soluções da bioeconomia revela um cenário misto. Se é verdade que os produtos de base biológica reduzem geralmente as emissões e o uso de recursos fósseis, também é facto que o seu impacto na ocupação do solo tende a ser superior. Estudos indicam ainda que a transição para dietas de base vegetal teria benefícios ambientais muito mais substanciais do que a simples substituição de materiais em embalagens.Com este debate em cima da mesa sobre a disponibilidade de matérias-primas e a eficácia das medidas, as primeiras propostas legislativas concretas decorrentes desta estratégia estão previstas apenas para o primeiro trimestre de 2026. com Lusa










