Como é que chegámos até aqui
Em dez presidenciais, nunca tivemos um cenário próximo do atual com uma combinação de fragmentação extrema e ausência de um candidato capaz de concentrar votos à esquerda ou à direita. Esta realidade contrasta com as eleições anteriores: só por uma vez tivemos segunda volta, mas, mesmo então, um candidato foi capaz de concentrar muitos votos logo à primeira volta (Freitas do Amaral, que acabaria derrotado). Desta feita, a crer nas sondagens, temos uma enorme dispersão de candidatos e de votos. No fundo, um quadro que espelha desinteresse, desmobilização e incapacidade dos candidatos apoiados por partidos de fazerem sequer o pleno do seu próprio espaço.De acordo com a sondagem Iscte/ICS para o Expresso, há três candidatos com condições de passar à segunda volta (Gouveia e Melo, Ventura e Marques Mendes) e os dois candidatos apoiados pelos dois principais partidos (Marques Mendes e Seguro) recolhem apenas metade ou menos dos votos entre os que dizem simpatizar com PSD e PS. Marques Mendes 50% e Seguro 42%, o que contrasta, por exemplo, com Ventura, que recolhe 87% das preferências entre os simpatizantes do Chega. Sublinho: não se trata de inquiridos que declaram que votariam PSD ou PS se houvesse legislativas, mas de pessoas que, quando questionadas, respondem simpatizar com estes partidos. Este dado demonstra como, para além de todos os outros problemas, Marques Mendes e Seguro têm pouca aceitação mesmo no campo que lhes declarou formalmente apoio. O que não surpreende: afinal, ambos foram líderes partidários falhados, ao ponto de os militantes do PSD e do PS terem decidido que não queriam disputar legislativas com eles como protagonistas.Já por diversas vezes chamei aqui a atenção de que estas presidenciais são distintas de todas as outras pela ausência de candidatos naturais. Nas dez eleições anteriores, houve sempre um candidato que se destacava como vencedor pré-anunciado e, por duas vezes, tivemos eleições disputadas (Soares/Freitas em 1986 e Sampaio/Cavaco em 1996). Uma parte fundamental da explicação está no fim de ciclo que vivemos, marcado por uma combinação de sintomas avançados de dissolução democrática com a passagem num ápice de maior escrutínio dos políticos para um enxovalho permanente de quem quer que se revele disponível para desempenhar altos cargos públicos. Enquanto um maior escrutínio se traduz em ganhos democráticos, a cultura de enxovalho reinante tem como consequência afastar os melhores e os decentes.Mas persiste uma questão: por que motivo os candidatos naturais à esquerda e à direita optaram por não ir a jogo nestas presidenciais? Nem Passos, nem Durão, nem sequer Portas, de um lado, e Guterres e Costa, de outro, em algum momento revelaram disponibilidade para serem candidatos a Belém. Julgo que podemos encontrar a resposta para esta questão numa outra pergunta do mesmo estudo.Quando inquiridos se, tendo em conta o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, o futuro Presidente deve intervir mais na condução dos assuntos políticos do país, os resultados são esmagadores: 67% dos inquiridos defendem um Presidente ainda mais interventivo (só 6% defendem um Presidente menos interventivo). Uma posição que não só choca de frente com a Constituição como afasta ainda mais de candidaturas a Belém quem tenha tido experiências governativas prolongadas. E, pior, é uma opinião que ajuda a criar um cenário em que o Presidente só é relevante se for um fator de perturbação. Precisamente aquilo de que não necessitamos.O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990










