Vera Mantero sobe ao escadote para segurar o céu
Três corpos nus no cimo de três escadotes. Por baixo, um fumo denso que parece elevá-los acima das nuvens; por cima, umas placas onduladas que parecem sinalizar que chegaram ao céu. Desse lugar de sugestão celestial, e enquanto escutamos em loop um fragmento de música que se diria indiana, os três começam a recolher fios, pratos de bateria, bolas saltitantes, uma série de objectos que não associamos a qualquer plano divino. _chãocéu, a micropeça que Vera Mantero apresenta (em cumplicidade com Henrique Furtado Vieira e João Bento), a partir desta quinta-feira e até domingo, no São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, junta chão e céu, dessacraliza o segundo, mescla os símbolos do divino com os do mais corriqueiro quotidiano. Afinal, é com uns vulgares escadotes, “daqueles que servem para aparafusar alguma coisa ou colocar um tecto”, que aqui se alcança esse plano inacessível aos comuns mortais._chãocéu é a segunda micropeça que Vera Mantero trabalha a partir dos materiais desenvolvidos no processo de criação de O Susto É Um Mundo (2021) — depois de Um Pequeno Exercício de Composição, partilhado com Teresa Silva e Santiago Tricot. O mote é simples: recuperar algumas pontas soltas ou materiais que não foram explorados a fundo nessa criação original, em que o susto do título evocava “a eleição presidencial de Bolsonaro e o fascínio das pessoas com a extrema-direita”, e tomá-los agora como elementos nucleares. E fazê-lo com alguns dos cúmplices que já antes a acompanhavam.No caso de _chãocéu, a imagem inicial impôs-se de imediato. “N’O Susto É Um Mundo há um escadote que é usado no início, mas logo posto de lado”, recorda Vera Mantero. “Aqui, triplicámos o escadote e resolvemos investir tudo neste objecto. N’O Susto, ele tinha aparecido a partir do mito hindu de um escadote que vai até ao céu e serve para tocar os pés dos deuses.” Fixada a imagem, os escadotes foram amplificados para que, além de servirem de elemento cénico e cenográfico, pudessem também ser usados como instrumento musical — explorado no contacto dos corpos e de outros objectos contra a sua superfície._chãocéu é uma peça de natureza muito punk, suja, ruidosa, inspirada pela “recuperação, reciclagem e revisitação de muitos conceitos d’O Susto”, explica Henrique Furtado. “Nessa peça trabalhávamos muitos opostos e aqui focámo-nos em alguns em particular: céu-terra, chão-céu, divino-térreo, deuses-humanos, transcendente-imanente. Depois, um pouco à maneira d’O Susto, criámos operações que curto-circuitam estas oposições.”Aos poucos, os três vão fazendo o seu caminho na direcção do solo. Primeiro, equilibrados ainda nos escadotes, vemo-los em movimento de queda livre, as vozes a aproximarem-se do pânico; até que, pouco depois, no contacto com o chão, tudo se torna mais selvagem. “Há uma zona da peça que, realmente, tem uma urgência”, nota João Bento. “De início, queríamos mais acalmar os corpos e fazê-los ter uma espécie de memória. Porque esse é um subtexto que existe para nós: estamos sempre a lembrar-nos de algo que parece que já aconteceu há muito tempo.” Esgotada a memória, a chegada a um solo firme e presente traz o descontrolo.Na comparação inevitável com O Susto É Um Mundo, porque as duas criações partilham pontos de partida, procedimentos criativos e até um alinhamento estético, _chãocéu distingue-se sobretudo pela sua homogeneidade. Ao invés de viver de uma sequência de cenas díspares, como acontecia na peça original, aqui, acredita Vera Mantero, “há um fio de foco” e uma qualidade “meio hipnótica, meditativa e contemplativa” de quem está em cena. Talvez porque, durante boa parte da performance, os três estão num plano superior, relacionam-se com aquilo que está acima das suas cabeças, adiam a sua chegada ao chão. Como quem olha o (seu) mundo de fora e receia já não o saber pisar.A José Gil, os três foram buscar referências a espectros e abismos, citando o filósofo quando diz que “os espectros não são mortos inertes, tiram energia aos vivos”. Por essa altura, na cabeça de Vera Mantero mora a reflexão de que “os espectros são instrumentalizados pela política e usados para caucionar e sacralizar ideias políticas” regurgitadas no presente e assombrando a vida na Terra quando se julgava já só pertencerem ao além. Em resposta, a coreógrafa propõe, às tantas, que se escrevam palavras que cada um gostaria de engolir. Porque é preciso ter os corpos bem nutridos de conceitos e ideias para aguentar o céu (e esses espectros) lá em cima e não deixar que desabe sobre o chão.










