Tiros em Bissau: sectores da oposição dizem que é um falso golpe de Estado
Esta quarta-feira ouviram-se tiros em Bissau e uma página de Facebook ligada ao Presidente da República guineense divulgou que oficiais militares ligados à etnia balanta, maioritária na Guiné-Bissau, terão levado preso Umaro Sissoco Embaló. Uma alegada tentativa de golpe de Estado que membros da sociedade civil e de partidos da oposição denunciam como sendo uma manobra do chefe de Estado para suspender o processo de contagem de votos das eleições presidenciais de domingo, que lhe seria desfavorável.“Urgente. Um grupo di oficiais balantas fortemente armado, caba di prindi Said Raïs e lebal pa Estado maior”, diz a mensagem, em crioulo, em fundo vermelho na página de Facebook Abel Djassi, próxima do chefe de Estado guineense (a foto de perfil é mesmo a de Sissoco Embaló). Said Raïs é o Presidente, que teria alegadamente sido preso pelos militares e levado para o Estado-Maior.O próprio Sissoco declarou à Jeune Afrique que foi detido esta quarta-feira por volta das 12 horas, quando se encontrava no seu gabinete no palácio presidencial. O chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, o general Biague Na Ntan, o vice-chefe do Estado-Maior, o general Mamadou Touré, e o ministro do Interior, Botche Candé, teriam sido também detidos. O Presidente sublinhou que não houve violência, mas que se trata de um “golpe de Estado”, que estaria a ser dirigido pelo chefe do Estado-Maior particular do Presidente, o general Horta Inte Nan Tan, que foi nomeado para o cargo pelo próprio Embaló em Setembro de 2023. O aparente grupo de militares golpistas anunciou que tinha tomado o controlo do país, encerrado as fronteiras e suspendido o processo eleitoral.Vídeos e áudios, gravados esta manhã na capital guineense e partilhados com o PÚBLICO, permitem ouvir distintamente o som de tiros e nas imagens vêem-se civis a estugar o passo, fugindo da zona de onde se ouvem os disparos.Um dirigente da sociedade civil guineense, que pediu para não ser identificado, disse ao PÚBLICO que “o que está em curso é muito claro”, trata-se de “um falso golpe de Estado inventado pelo próprio Umaro Sissoco Embaló e que está a ser executado pelas suas milícias. Eu vi com os meus próprios olhos, porque quando começaram a disparar tiros de balas reais para o ar, eu estava a contornar a rotunda do Império no Palácio da República.”Durante o seu mandato, outras alegadas tentativas de golpe permitiram ao Presidente agir à margem da Constituição em seu proveito político. Desta vez, dizem, serviria para o Presidente suspender a contagem de votos das eleições presidenciais cujo desfecho, aparentemente, lhe seria desfavorável.“É isso que está em curso neste momento. Eles estão a disparar para o ar em todo lado. E provavelmente nas próximas horas vão anunciar a sua demissão. E ele, naturalmente, se calhar irá indicar a alguém da sua conveniência, como Presidente da República, organizar as eleições que, depois, tem que ganhar para voltar ao poder”, acrescenta o dirigente.Várias fontes contactadas pelo PÚBLICO dizem que os tiros começaram por se ouvir no Palácio Presidencial, momentos depois de uma delegação de representantes de instituições estrangeiras ter visitado o chefe de Estado. Também se fizeram ouvir junto às instalações da Comissão Nacional de Eleições, onde prossegue a contagem de votos das eleições legislativas e presidenciais de domingo, cujos resultados estavam previstos serem anunciados na quinta-feira.António Yaya Seidy, porta-voz de Sissoco Embaló, afirmou à Reuters que homens armados não identificados atacaram a comissão para impedir o anúncio dos resultados, acusando-os de estarem ligados ao candidato Fernando Dias, mas sem apresentar qualquer prova. Dias, que na segunda-feira, anunciou a sua vitória nas presidenciais com base na contagem dos editais das mesas de voto, não se pronunciou ainda sobre os acontecimentos. De acordo com informações provenientes de Bissau, militares fortemente armados terão ocupado a sede de campanha do candidato.A RFI avança que Dias terás sido mesmo levado pelos militares, junto com o líder do PAIGC, o ex-primeiro-ministro Domingos Simões Pereira, para uma base aérea.A Embaixada de Portugal em Bissau comunicou que “está a acompanhar atentamente a evolução da situação de segurança em Bissau, e nas restantes regiões da Guiné-Bissau, em estreita articulação com as autoridades guineenses e com os parceiros da União Europeia”. Ao mesmo tempo, a representação diplomática recomendou “a adopção de comportamentos prudentes e vigilantes, devendo ser evitadas deslocações que não sejam essenciais”.Segundo a DW, a conferência de imprensa que o Estado-Maior General das Forças Armadas tinha convocado para as 14h foi cancelada por “ordens superiores”, tendo os militares ocupado as estações de rádio, ordenando a suspensão das emissões.










