Rede com dez militares da GNR liderada por português controlava cerca de 500 imigrantes
A rede de exploração de imigrantes liderada por um português que foi esta terça-feira desmantelada pela Polícia Judiciária — e na qual participaram dez GNR e um agente da PSP — teria sob controlo cerca de 500 cidadãos estrangeiros sul-asiáticos. A maioria estava em situação irregular, e foi angariada pela rede para trabalhar no distrito de Beja em explorações agrícolas, aliciada por contratos de trabalho e regularização.De acordo com informações recolhidas pelo PÚBLICO, os dez militares da GNR de Beja seriam capatazes, pagos para controlar e muitas vezes agredir os cidadãos estrangeiros, estando por vezes no exercício destas as suas funções fardados e outras não. Receberiam 400 euros ao fim-de-semana e 200 euros ao dia de semana pelo trabalho na rede.Dos 17 detidos, só dois eram estrangeiros. Os cerca de 500 trabalhadores estavam a pernoitar em várias aldeias em armazéns. Esta operação foi desencadeada em sequência de uma investigação aberta em 2023. Apesar de o MP admitir que os factos investigados são susceptíveis de integrar, “em abstracto”, a prática do crime de tráfico de pessoas, nem todos os cerca de 500 estrangeiros serão sinalizados como vítimas de tráfico.De resto, o comunicado emitido na terça-feira pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), que conduz o inquérito, já informava que elementos de forças de segurança exerciam o controlo e vigilância dos trabalhadores estrangeiros, ameaçando-os e “dando-lhes a entender que a queixa às autoridades não seria uma alternativa viável para reagir aos abusos”.A PJ afirmou no seu comunicado que a rede explorava os trabalhadores “cobrando alojamentos e alimentação e mantendo-os sob coacção através de ameaças, havendo mesmo vários episódios de ofensas à integridade física”. Os 50 mandados de busca e os 17 mandados de detenção foram cumpridos em Portalegre, Figueira da Foz, Porto e Beja por auxílio à imigração ilegal, falsificação, fraude fiscal e branqueamento de capitais.Ao PÚBLICO a Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI), que supervisiona as forças de segurança, disse que “logo que conhecida a identidade dos suspeitos, proporá a instauração dos respectivos processos disciplinares, que deverão ser instruídos” por esta instituição.Num comunicado, o Comando-Geral da GNR “repudia” os actos de que são suspeitos os seus militares e afirma que, caso se confirmem as suspeitas que motivaram as detenções, está determinado a “tudo fazer” para que os autores sejam criminalmente responsabilizados, garantindo “todo o empenho e lealdade” na colaboração com o Ministério Público e com a PJ, “face a práticas violadoras dos mais elementares princípios e valores que ditam a conduta dos militares da Guarda enquanto servidores da lei”.Já a Direcção Nacional da PSP confirma que o agente detido, de Beja, se encontrava de baixa há 14 meses e assegura que, assim que dispuser de informação sobre os crimes de que é indiciado, “serão desenvolvidos os procedimentos disciplinares adequados e preventivos”. A polícia acrescenta ainda que “repudia, de forma veemente, qualquer conduta, interna ou externa, que constitua uma violação flagrante” dos princípios que regem a actividade da PSP.










