Amarante, entre pinceladas de vinha e rio
No mapa vinhateiro de Amarante, Gatão parece ter especial tendência para esta actividade. A produção de vinho estende-se a todo o concelho, é certo. Mas nesta freguesia encaixada na margem direita do rio Tâmega, a nordeste, a vinha tem uma predominância particular, e a história vinícola tem raízes fundas e robustas – há registos do século XVIII que ressaltam as culturas de vinho e milho em grande quantidade; e até Teixeira de Pascoaes, célebre poeta do saudosismo, sediado em Gatão, foi vitivinicultor, um legado que os seus descendentes continuam ainda hoje.Esta intensa expressão da tradição vitivinícola marcou a paisagem da aldeia. Vista de cima, Gatão é uma manta de retalhos, feita essencialmente de vinha, intercalada por outros terrenos agrícolas, mancha florestal e habitações, e em cada esquina há um produtor de vinho. Joana Moura conta “pelo menos sete”, olhando para as paredes do antigo apeadeiro de Gatão, agora Apeadeiro da Joana, um restaurante e wine bar na beira da Ecopista do Tâmega.Em cada um dos aros de barris transformados em moldura alinham-se as referências de uma marca local. “São todos vinhos da aldeia”, reforça a anfitriã. Entre eles estão os da AJTS, produzidos na Quinta da Ribeira, muito próxima dali, já nas barbas do rio.
Numa terra afamada especialmente pelos seus vinhos tintos, esta pequena empresa familiar decidiu apostar nos brancos, que hoje representam a maior parcela de produção, e nos vinhos de guarda, como o Gentilis Grande Reserva. É um branco que pede para esperar, feito com um blend das suas melhores parcelas e estágio de 12 meses em barrica de carvalho francês, que em nada compromete a mineralidade ou a frescura. Ainda assim, o ex-líbris da marca continua a ser um tinto 100% de vinhão, o Vinha do Menino, estruturado e vivo, que acompanha com mérito a posta maronesa grelhada na brasa, uma das propostas da carta do Apeadeiro.A divulgação dos produtos da região foi uma das premissas do projecto desde o início, a par da revitalização daquele edifício histórico, até então fechado (perdeu o seu propósito original com a desactivação da linha ferroviária do Tâmega, em 1990), e que Joana reconhecia ter um grande potencial. “Era um espaço que eu visitava muito na época do covid, por causa da ecopista. Vínhamos dar uns passeios em família, eu olhava para isto e dizia para o meu marido: é um sítio óptimo para um pai estar a beber um copo de vinho e ter os miúdos à sua frente a brincar sem perigo nenhum”, conta.Essa visão de criar um espaço familiar que é também embaixada dos vinhos da aldeia concretizou-se há menos de um ano, transformando a bonita estação, revestida a azulejos floreados, em tons de verde que conjugam com a panorâmica que se abre dali sobre o vale do Tâmega, num desses lugares magnéticos que viram ponto de encontro. À tarde, vai-se petiscar – prego no pão, folhadinhos de alheira, bolinhos de bacalhau, tábuas de queijos e enchidos – e beber um copo com os amigos. No final de uma caminhada ou de um passeio de bicicleta na ecopista, é o lugar certo para recarregar baterias.Ao fim-de-semana, enchem-se as mesas para o brunch de família. No pátio da estação há trotinetas, triciclos e bicicletas para as crianças se entreterem na ecopista. “O nosso propósito”, realça Joana, “é que os miúdos venham aqui comer panquecas, beber um sumo natural e brincar, criar um espaço onde eles se sintam bem”. Tão bem, que começam a ser os mais pequenos a pedir aos pais para ir ao Apeadeiro. “A filha do Miguel vem aqui de propósito para comer o bolo de cenoura”, revela Joana. “Já perguntou por ele”, ri-se.
Na antiga estação de Gatão, à beira da Ecopista do Tâmega, pára-se para petiscar e para descobrir vinhos locais no Apeadeiro da Joana.
Goncalo Delgado
Apreciar a paisagem a pedalarO bolo ainda estava a entrar para o forno quando Miguel Silva e a família se sentaram à mesa de madeira junto à janela, depois de um passeio matinal de bicicleta na ecopista. É um programa habitual para o amarantino, apaixonado assumido por aquele percurso, para onde encaminha grande parte dos visitantes que chegam à sua loja para alugar uma bicicleta.Abriu a Amarantrilhos em 2020, quando decidiu mudar de vida e dedicar-se ao que realmente gostava de fazer: pedalar. “Sempre tive uma paixão muito grande por bicicletas, desde criança fazia muitos trilhos com os meus amigos nestas aldeias aqui à volta”, conta. De todos eles, reconhece especial encanto à Ecopista do Tâmega. “É um tesourinho.” O percurso liga Amarante a Cabeceiras de Basto, ao longo de 40 quilómetros, mantendo um grau de dificuldade baixo em toda a sua extensão, o que a torna acessível a qualquer pessoa, e recomendável para famílias. “Toda a gente pode fazer, desde os 6 anos aos 70”, assegura Miguel. E os mais pequenos vão confortavelmente instalados atrás, nas cadeirinhas infantis. Além disso, a ecopista inicia mesmo no centro da cidade e tem apoios ao longo de todo o caminho.Chegamos ao Apeadeiro da Joana ao fim de 4,5 quilómetros, e nesse troço inicial do passeio encontramos sombras abundantes, criadas pelo denso arvoredo que ladeia a pista, e o Túnel de Gatão – onde sentimos o impulso de testar a acústica da galeria –, que oferecem uma frescura bem-vinda em dias de calor. Daí em diante atravessamos várias parcelas de vinha, avistando, por entre o verde da folhagem, cachos bem compostos, nos seus últimos dias de maturação.Miguel disponibiliza um mapa da ecopista a quem quiser explorar livremente o percurso, mas também faz passeios guiados, desenhados à medida, juntando outros caminhos, como o recém-inaugurado trilho da Nossa Senhora do Vau, que tem ligação à ecopista em Gatão, e segue num percurso ribeirinho até à praia fluvial de Aurora.Se a intenção for explorar as montanhas em redor do concelho, Miguel recomenda o PR6 – Rio Marão, um percurso circular com cerca de 14 quilómetros, que começa e termina em Ansiães, atravessando paisagens serranas, levadas de água, manchas florestais e meio rural.Também em Ansiães, mas ainda afastado desse trajecto, fica o Miradouro Pico 960 – o nome alude à altitude a que se encontra –, junto à Capela de Nossa Senhora de Moreira. É facilmente acessível por uma estrada de terra, e a panorâmica para o cenário ondulante do complexo montanhoso do Marão, ainda mais belo sob a luz rasante do final do dia, que lhe chega de poente, justifica o desvio.
Para vistas de olho de pássaro sobre o Marão, há que procurar o Miradouro Pico 960 – o nome alude à altitude a que se encontra –, junto à Capela de Nossa Senhora de Moreira.
Goncalo Delgado
Para conhecer o território a pedal, o cicerone a procurar é Miguel Silva, da Amarantrilhos, quer para alugar bicicletas, quer para passeios guiados.
Goncalo Delgado
Um refúgio na naturezaA envolvência natural da Quinta do Peso também dá razão suficiente para uma visita. Em procurando-se sítio para passar a noite, junta-se o útil ao agradável. Há 50 anos, a família Moreira adquiriu a propriedade centenária, que lhe serviu de habitação, e onde continuou com a produção de vinho que já ali tinha tradição. Em 2020, criou um alojamento rural – o Peso Village – encaixado entre as vinhas e a floresta.A antiga casa da família e outras construções preexistentes foram transformadas num conjunto de 11 suítes, como complemento à actividade vitivinícola. Dos 40 hectares, apenas 10 são ocupados por vinha – essencialmente de alvarinho, azal e vinhão –, que se desenrola em socalcos numa encosta ensolarada, e os restantes são bosque. A vista dos quartos varia entre estes dois cenários. E na Casa do Beiral, em particular, o denso arvoredo impõe-se, como que entrando para o quarto através das suas paredes envidraçadas. “A experiência que queremos que o hóspede tenha é sempre de ligação com a parte natural”, realça Miguel Moreira, agora ao comando do projecto de enoturismo que ajudou a criar na quinta do avô.
Turismo rural Peso Village, na Quinta do Peso (Gondar, Amarante)
Goncalo Delgado
As suítes, equipadas com kitchenette, banheira de hidromassagem – e algumas com lareira, a pensar nos dias frios –, são ideais para uma escapada a dois ou em família, em qualquer altura do ano. No Verão, apetece a piscina de água salgada numa varanda sobre as vinhas e, no Inverno, o aconchego da piscina interior e da hidromassagem ou da sauna instalados ao ar livre num terraço próximo da adega, que em breve irá ser transferida para outro local. “No próximo ano vamos aumentar o alojamento, com mais 15 quartos, e onde é agora a adega serão os espaços comuns, restaurante, recepção, sala de jogos”, informa Miguel.Para já, ainda é ali, no alpendre onde a gata Mia, mascote da quinta, se espreguiça à sombra, que se provam os vinhos da casa. A criação do alojamento coincidiu com a abertura ao enoturismo, que agora permite aos passantes conhecer a produção da Quinta do Peso, marcando com antecedência uma das várias provas disponíveis. A mais completa dá a conhecer os seis vinhos da casa, a começar pelo Cacilda, a primeira referência produzida pela família, um vinho do tipo frisante mais alinhado com o perfil popular da região.De forma a dar mais variedade a quem os visitasse, na mesma onda de aberturas lançaram cinco novas referências, entre eles um monovarietal de vinhão, considerado o Melhor Tinto na edição de 2024 do concurso UVVA; e um azal fresco e equilibrado que dá protagonismo a uma das castas emblemáticas da sub-região.Os hóspedes do Peso Village têm ainda outras experiências à disposição, como piqueniques na vinha, acesso aos trilhos assinalados na floresta da propriedade e massagens, que podem decorrer no quarto, na vinha ou no bosque, para uma autêntica imersão na envolvência natural. E, com empresas locais, podem partir em passeios pelas redondezas, com destino às serranias ou à cidade atravessada pelo Tâmega, que corre tranquilo sob a ponte de São Gonçalo, numa imagem de postal.
Miguel Moreira ajudou a transformar a propriedade do avô numa casa de turismo rural com muitos recantos onde encontrar o sossego do campo.
Gonçalo Delgado
Para dias de sol, o Peso Village, na Quinta do Peso, oferece uma piscina panorâmica de água salgada. Para dias invernosos, também há pisicina coberta.
Goncalo Delgado
Vinhos, máscaras e pincéisÉ para lá que seguimos, numa paragem breve, mas com o destino bem definido: a garrafeira e wine bar 100 Rolhas, instalado numa dessas ruas medievais, atrás do Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso (este está fechado para obras, mas haveremos de conhecer o legado do pintor amarantino num outro lugar). Patrícia Soares descreve o 100 Rolhas como uma “tasca modernizada”, onde quer que o cliente “sinta boa energia”, enquanto descobre os vinhos da região, e do resto do país, casados com tapas variadas, como tábuas de queijos e enchidos ou a afamada tosta de húmus e cogumelos salteados.Ela própria era já uma apreciadora de vinhos portugueses antes de trocar o Brasil pela costa algarvia, mas foi só quando chegou a Amarante, confessa, que se encantou pelo mundo dos Vinhos Verdes e pela sua riqueza. “Há branco, tinto, rosé, com mais gás, com menos gás, um mais seco, outro mais frutado…”, comenta, salientando a diversidade de perfis.Para ajudar na escolha de quem ali chega, Patrícia tenta perceber de que tipo de vinho mais gostam, e por marcação também faz provas à medida. De quando em vez, dinamiza ainda provas temáticas com produtores convidados. A ideia é ir adicionando novos vinhos à carta, reforçando a selecção que, para já, dá especial destaque aos vinhos da amarantina Quintas de Vila Garcia.
À mesa do bar de vinhos 100 Rolhas descobre-se a sub-região de Amarante no copo.
Goncalo Delgado
O VG Homenagem, deste produtor, é um parceiro à altura do bacalhau com broa do restaurante Pena, em Vila Caiz, e integra também o pairing do seu menu de degustação, uma proposta de oito momentos criada a partir das vivências e viagens de Amadeo de Souza-Cardoso – o rótulo deste branco encorpado e elegante é também ele inspirado nas pinturas do artista, não lhe retirando qualquer mérito como escolha de harmonização.A propriedade do século XVIII sempre pertenceu à família do pintor modernista, e é hoje o seu sobrinho bisneto, Miguel Cardoso, quem assume o leme do restaurante, acomodado nos antigos lagares onde já o pai de Amadeo fazia vinho, sendo dos primeiros produtores locais a exportar para o Brasil, afiança a família.A cozinha assume um perfil clássico, e tem como principal chamariz da carta o bife Wellington, abrindo espaço a alterações de época, alimentadas pelo que a horta dá, como a compota de tomate coração-de-boi que, na altura em que a reportagem decorreu, acompanhava uma coalhada de mel do Marão na pré-sobremesa do menu de degustação (apenas disponível por marcação prévia).Nas paredes do restaurante que é também galeria, entre réplicas de obras do pintor, saltam à vista as máscaras pintadas por Inês Sousa Cardoso, que herdou a veia artística do seu antepassado. É ela quem orienta uma das novas experiências imersivas do Pena, um workshop de pintura que evoca o ambiente de sarau que teria vivido Amadeo, entre pincéis, petiscos e vinhos. A actividade pode ser marcada antes do almoço ou do jantar, e acontece habitualmente no pátio do restaurante, especialmente agradável nos finais de tarde do Verão.
O restaurante Pena, em Vila Caiz (Amarante), fica numa propriedade que sempre pertenceu à família de Amadeo de Souza-Cardoso.
Goncalo Delgado
Um legado ancestral que se renovaO legado da Quinta de Carapeços, em Travanca, também prevalece pela vontade das gerações actuais, que não deixaram esmorecer a história. As origens desta propriedade perdem-se no tempo, mas há registos de 1338 que atestam a ligação da quinta à família de Miguel Abreu. Daí a data estar gravada no rótulo dos vinhos que ali se produzem. Aqueles terrenos chegaram a integrar os domínios do vizinho Mosteiro de Travanca, no século XVII, voltando depois à posse da família, com a extinção das ordens religiosas.Não bastasse esse documento, a ancestralidade da quinta é reforçada pelo monumental solar de granito, emoldurado por um bosque frondoso e 20 hectares de patamares de vinha. Apesar de sempre se ter produzido uva, a paisagem nem sempre foi esta. Antes da reconversão dos terrenos agrícolas, nos anos 1980, aquelas terras eram retalhos de diversas culturas, e a vinha existia essencialmente em ramada. Converter para monocultura era a única forma de manter a propriedade, recorda Miguel, numa altura em que se começavam a abandonar os camposO guardião de Carapeços enaltece ainda o papel pioneiro na plantação de alvarinho fora da sub-região de Monção e Melgaço. A casta branca predomina nas vinhas da propriedade, onde existem ainda parcelas de trajadura, espadeiro e vinhão, e os vinhos que dela resultam já conquistaram vários prémios internacionais. Prova de que a inovação também cria raízes profundas e robustas, daquelas que mantêm firme um legado.
A Quinta de Carapeços, em Travanca (Amarante), está na família de Miguel Abreu desde 1338. A data é ostentada como um distintivo, no rótulo dos vinhos do produtor.
Rui Oliveira
Este artigo foi publicado na edição n.º 17 da revista Singular. A Singular é uma revista do PÚBLICO com o apoio da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes. A Singular é uma publicação estritamente editorial, concebida, produzida e editada pela redacção do PÚBLICO com total independência e em cumprimento das regras internas para conteúdos apoiados. Pode saber mais sobre a política de conteúdos apoiados do PÚBLICO neste artigo.










