CIÊNCIA

Isto não é só cansaço

Recentemente tive um esgotamento, ou o que hoje em dia se chama burnout.O meu cérebro obrigou-me a parar. Desde então, tenho tentado fazer tudo de forma mais lenta, incluindo escrever esta crónica. Não por virtude, mas por absoluta incapacidade de fazer depressa. Descobri que há um limite para a quantidade de reuniões, notificações, trabalhos, expectativas e “só mais uma coisa rápida” que um sistema nervoso aguenta antes de decidir reformar-se antecipadamente.No meu caso, o aviso não veio em forma de grande epifania, veio em pequenas avarias diárias. Às tantas, a tarefa mais banal, como responder a um e-mail de duas linhas, parecia-me o equivalente a redigir a Constituição. E um dia o cérebro disse: “Chega. Despeço-me. Boa sorte com o resto.” Depois veio a parte mais séria: abrir uma mensagem e sentir um aperto no peito como se tivesse recebido uma má notícia, mesmo quando era só um “Bom dia, podes ver isto?”. Uma simples reunião no calendário parecia-me um exame final. Uma chamada perdida transformava-se, na minha cabeça, em prova irrefutável de que eu estava a falhar como profissional, como adulta e como ser humano.A pessoa em burnout é mais do que uma pessoa triste ou desanimada. Triste, às vezes, ainda é um luxo: implica ter energia para sentir alguma coisa. A pessoa em burnout é alguém cuja reserva de sentido foi consumida até à última gota. Uma espécie de anemia do significado. Continuamos a fazer, mas já não sabemos muito bem porquê.O burnout tem isto de cruel: faz-nos sentir que falhámos individualmente num jogo que, afinal, nunca foi desenhado para ser ganho. É como entrar numa maratona a achar que somos nós que estamos fora de forma, e depois descobrir que a pista dá voltas em cima de voltas sobre si mesma e nunca chega à meta. E nós, em vez de desconfiarmos da pista, culpamo-nos por não chegar lá.Não quero romantizar o burnout. Mas, já que tive direito ao colapso, recuso-me a sair dele com a lição errada. Não quero voltar “mais forte” para o mesmo sistema que me partiu. Quero, se conseguir, voltar mais exigente com o mundo e um pouco mais gentil comigo.A pessoa em burnout é alguém cuja reserva de sentido foi consumida. E, no entanto, o discurso dominante insiste em psicologizar o problema: fala-se em “gestão de stress”, “mindfulness”, “resiliência”, como se a solução estivesse em reforçar o indivíduo e não em interrogar a organização do trabalho, da cidade, da economia. Pergunta-se: “O que se passa contigo?”, quando a pergunta mais honesta seria: “Que espécie de mundo exige isto de ti?”No meu caso, partiu da sensação, muito viva, de estar a falhar em todas as frentes. Mas o burnout é menos uma fraqueza individual do que uma forma de censura colectiva. Em vez de policiar o que se pode dizer, o sistema corrói a capacidade de dizer seja o que for.Um corpo esgotado pensa menos, deseja menos, resiste menos. A fadiga é uma forma de censura prévia: daquilo que não conseguimos sequer formular porque a mente se arrasta entre prazos, notificações e tarefas invisíveis.No interior desta economia da exaustão, o descanso é tratado como luxo supérfluo ou falha de carácter. Descansar torna-se suspeito: sinal de preguiça, falta de ambição, descompromisso. A idolatria da produtividade exige que estejamos sempre disponíveis. Até o sono foi colonizado por aplicações, métricas, gráficos: já dormimos sob supervisão algorítmica.Apercebi-me, da pior forma, da importância de reivindicar a legitimidade de não fazer nada de produtivo, de estar em silêncio, de vaguear, de perder tempo. No meu caso, de passar dias no sofá a rever Prison Break.É importante reaprender que o pensamento precisa de gratuitidade, que o amor precisa de tempo não contabilizado, que a cidadania precisa de intervalos em que não somos nem consumidores nem trabalhadores. E reconhecer que enquanto elogiarem as nossas olheiras, alguém continuará a furtar-nos o tempo.Não precisamos de mais louvores ao instinto. Precisamos de descanso. O descanso é político: sem ele não há pensamento, sem pensamento não há dissidência. Uma sociedade esgotada aceita qualquer chefe. Uma mãe exausta aceita qualquer culpabilização.A exaustão é um dispositivo de poder que organiza corpos e consciências através do cansaço. O que Byung-Chul Han chamou “sociedade do cansaço” é um diagnóstico da forma como o sujeito contemporâneo é convocado a explorar-se a si próprio até à ruptura, enquanto acredita estar a realizar-se. A velha coerção externa cedeu lugar a um imperativo interno: já não é o patrão que grita, é a voz interior que sussurra “não fiz o suficiente”, “falhei”, “podia ter rendido mais”.Neste regime, o cansaço é apresentado como marca de distinção moral. O trabalhador exemplar é o que dá tudo. As olheiras tornam-se insígnias de pertença a uma elite produtiva. Quem reivindica tempo vazio é olhado com suspeita, como se estivesse a roubar algo ao coletivo. A exaustão é estetizada para que deixe de ser reconhecida como violência: se o desgaste é nobre, ninguém pensa em combatê-lo, apenas em tolerá-lo melhor.O descanso, pelo contrário, é deslegitimado, patologizado, reduzido a sinal de falta de ambição. Quando muito, é tolerado como “pausa estratégica” para voltar ao trabalho com mais energia, uma espécie de manutenção técnica da máquina humana.Mas o descanso necessário é outro: a suspensão real da lógica produtivista. O descanso enquanto espaço de pensamento, de contemplação, de desvio.Sem descanso não há pensamento digno desse nome, só há reacção. A mente que vive permanentemente sob alarme: notificações, prazos, urgências, limita-se a apagar fogos. Não elabora, não duvida, não estranha. É uma mente em modo de sobrevivência. Uma sociedade em que a maioria vive neste estado de urgência crónica é uma sociedade menos capaz de dizer não.A dimensão de género desta economia da exaustão é decisiva. Às mulheres, em particular, foi-lhes dito que a sobrecarga é expressão natural do amor. Chamaram amor ao trabalho gratuito e instinto à gestão total da casa. O que se descreve como “ajudar em casa” é, na verdade, um sistema complexo de decisões, antecipações e cuidados que alguém assume quase sempre sozinho. A mãe que se levanta de madrugada para preparar mochilas, responder a recados da escola, preparar lanches, medir febres, agendar consultas, organizar actividades extracurriculares não é apenas muito dedicada: é uma gestora de um micro Estado doméstico sem salário, sem férias, sem reconhecimento.Até o lazer foi colonizado por esta lógica. Passear, ler, conversar, estar com amigos passou a ser “usar bem o tempo livre”. Aparelhos monitorizam o sono, aplicações avaliam a meditação, relógios inteligentes contabilizam passos. Aquilo que antes podia ser ócio, o velho otium da tradição clássica, condição do pensamento filosófico, é traduzido em métricas. Até o descanso precisa de provar que é útil. Vai-se ao ioga “para aguentar melhor a semana”, faz-se corrida “para ser mais eficiente”, pratica-se mindfulness para “aumentar a produtividade”. O que poderia ser antídoto converte-se em suplemento da mesma toxina.No plano cultural, o elogio da disponibilidade total é incessante. Inúmeros discursos de gestão repetem que é preciso “vestir a camisola”, “dar o litro”, “sair da zona de conforto”, ser “flexível” e “polivalente”. A figura ideal é o sujeito que está sempre alcançável, que nunca diz “não posso”. Mas esta flexibilidade tem direcção única: é sempre o trabalhador que se dobra, nunca a estrutura que se redesenha.O cansaço contemporâneo é também excesso de avaliação. Cada gesto é medido e comparado: produtividade, engajamento, performance, impacto. As redes sociais adicionam uma camada suplementar de vigilância: trabalhamos para mostrar que trabalhamos, descansamos para mostrar que descansamos. A fadiga torna-se simbólica: manter a imagem de si em circulação cansa tanto quanto cumprir prazos.Descansar implica retirar o próprio corpo do circuito de extração contínua de energia e atenção. Talvez devêssemos aprender a pensar o descanso como um direito à opacidade. Num mundo que exige permanente explicação, descansar é também recusar-se a ser totalmente legível ao olhar da produtividade. É permitir-se zonas de sombra, de silêncio, de tédio até.Apercebi-me da dificuldade que tinha em descansar. Da culpa que este acto me suscitava automaticamente.O descanso é, em certa medida, uma forma de desobediência. Descansar é transgredir um mandamento não escrito: o de estar sempre a render.Ao mesmo tempo, o descanso é também uma prática de solidariedade. Descansar é criar condições para estar verdadeiramente disponível para os outros, fora da lógica do desempenho.A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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