DESPORTO

A Madeira tem condições para fazer belíssimos vinhos brancos. E a Justino’s percebeu isso

Quando pensámos na Madeira, pensámos em vinho Madeira, no generoso com séculos de história e acidez invejável. A maioria pensará nesse vinho fantástico. Alguns, atentos à revolução a que assiste o Porto Santo, já vão pensando em brancos de vinhas de areia banhadas pelo Atlântico. Mas poucos pensarão na Madeira como terroir de vinhos brancos tranquilos.Não que não os haja — já são mais os produtores de vinho tranquilo do que os de vinho Madeira —, mas muitos têm uma acidez indomada que fazem com que seja difícil apreciar o vinho. E alguns nem com comida vão lá. Há excepções, felizmente. Excepções que, de resto e à medida que a amostra cresce, vão também crescendo em número. E é sintomático desse outro potencial que tem o terroir da ilha da Madeira que um gigante como a Justino’s Madeira Wines não só esteja a apostar (também) nos vinhos tranquilos, como esteja a colocar a fasquia lá em cima.A Justino’s compra entre 33% e 40% da produção total de uvas aptas à produção de vinho na Madeira. E representa 40% a 45% das exportações de vinho do arquipélago. Por ano, compra uma média, de 1,3 toneladas de uvas. Para vinho com Denominação de Origem Protegida (DOP) Madeirense, “só” vinifica 35 mil a 55 mil quilos de uvas — nos últimos dez anos, isso não chegou a 4% do total da matéria-prima transformada —, mas, ainda assim, a empresa do universo Granvinhos é um dos maiores produtores de vinho tranquilo do arquipélago. O único produtor de vinho Madeira a fazer vinhos de mesa nas ilhas da Madeira e do Porto Santo. E a única empresa com vinhos biológicos certificados, o que também faz nas duas ilhas.Sob a chancela Justino’s Projects — aquela em que lança produtos mais especiais, sejam Madeiras, brancos e até tintos (também há uma novidade nessa categoria) —, a empresa já tem sete das suas 12 referências DOP Madeirense. Produz depois os Colombo Reserva e, com a Indicação Geográfica Protegida, outros três vinhos. Um portfólio que inclui agora, como novidades absolutas, três novos Projects tranquilos: um Folgasão, um Verdelho e um Touriga Nacional. Em Coimbra, num final de tarde informal com amigos ligados à produção e comercialização de vinhos, o continental Nuno Duarte, enólogo principal da Justino’s, apresentou os novos varietais, a segunda edição do bem-sucedido Sercial e dois novos Madeira, lançados sob a égide “Old Blend Series”.Comecemos pelo Justino’s Projects Fanal Sercial 2023 (2000 garrafas). Uvas “de excepcional qualidade” da Fajã de Barro, Porto Moniz, costa Norte da ilha, vinhas em “espaldar” (com as videiras em linha, formando uma parede; “é capaz de ser o único Sercial da Madeira em espaldar”, nota o enólogo), uma casta que “é das mais ácidas” da região e, claro, a enologia entregou um vinho que é frescura, mas também elegância e sabor a mar. A Madeira entrega uma acidez impressionante de forma natural — cortesia dos solos vulcânicos, onde predomina o basalto e ácidos —, mas é preciso saber trabalhá-la. Nuno Duarte promove maloláctica completa nestes vinhos e ainda assim eles resultam acídulos. Este Sercial, por exemplo, tinha 11 gramas de acidez total, que, depois de transformados os ácidos málicos (mais fortes) em lácticos (mais suaves), ficou nos 8 gramas.A vinificação, neste e nos outros dois brancos que provámos, é feita sem inoculação de leveduras e é pouco extractiva, porque o enólogo quer fugir daquele perfil de fósforo e pólvora que caracteriza alguns brancos de solos vulcânicos e que, por exemplo, se percebe bem nos brancos das Canárias. E que, já agora, vem do terroir, sim, mas também da vinificação. Nuno Duarte prefere um perfil mais atlântico.Encontrámos a mesma elegância e mineralidade no Justino’s Projects Fanal Folgasão 2023 (2000 garrafas). A uva Folgasão é o Terrantez do vinho Madeira, mas a região para os vinhos de mesa obriga a usar a sinonímia continental. Nascido na Ponta do Pargo, sente-se nele, como no anterior, a influência directa do oceano.O Justino’s Projects Fanal Verdelho 2023 (1944 garrafas), vem do Norte da ilha, da zona do Seixal, de muito próximo da vinha que dá o Sercial, e é outro branco de frescura vibrante. Mas, como alguém disse à mesa, enquanto os outros dois são discretos, este tem uma personalidade daquelas que anuncia ao mundo que chegou.Três vinhos que mostram outro caminho para as uvas madeirenses: a região pode focar-se na produção de Madeiras de qualidade excepcional e, ao mesmo tempo, não precisa de ficar presa a um só produto, pode ser também um terroir de belíssimos brancos (quanto a tintos, tirando uma ou outra honrosa excepção, não nos parece que a região como um todo tenha razões para ter a mesma ambição).Para isso, deve continuar (a pagar e) a construir valor. As uvas que entraram nestes brancos foram pagas a 3€/quilo. E a Justino’s também compensa os seus viticultores — são 700 e Nuno Duarte e a sua equipa acompanham directamente cerca de meia centena — oferecendo-lhes os bacelos sempre que fazem enxertia com material vegetativo local (“já vamos em 15 mil plantas para plantar este ano”). A produção para DOP Madeirense dá mais trabalho, exige mais cuidados ao viticultor — que não pode esperar que a fortificação disfarce eventuais carências da matéria-prima, como acontece no vinho Madeira —, pelo que tem mesmo de ser bem paga.

Nome Fanal Folgasão 2023
Produtor Justino’s Madeira Wines;
Castas Folgasão
Região Madeira
Grau alcoólico 11,5%
Preço (euros) 35
Pontuação 92
Autor Ana Isabel Pereira
Notas de prova Vinho de parcela, de uma vinha na Ponta do Pargo, concelho da Calheta, a 400 metros de altitude, é uma primeira edição e será o único varietal tranquilo de Folgasão na região. Na Madeira, a uva, que esteve quase extinta, é conhecida por Terrantez, sinonímia que só pode figurar nos rótulos do vinho generoso. Vindo de um terroir influenciado pelo planalto do Fanal e pelos nevoeiros marítimos, conjugação que assegura uma maturação fenólica equilibrada, é um branco cítrico, mineral e muito delicado no nariz. Ao fim de uns minutos no copo, exala ainda um ligeiro floral. Na boca, exibe frescura brutal, mas tem um quê de untuoso e alguma salinidade, apesar de tudo contida. À acidez natural, junta a suavidade do trabalho de borras finas (no inox, onde estagia 50% do lote; a outra metade vai para cascos seminovos de 700 litros), num conjunto muito equilibrado e gastronómico.

Nome Fanal Verdelho 2023
Produtor Justino’s Madeira Wines;
Castas Verdelho
Região Madeira
Grau alcoólico 12%
Preço (euros) 35
Pontuação 91
Autor Ana Isabel Pereira
Notas de prova Uvas da Ribeira da Janela, Seixal, costa Norte da Madeira, noutro branco de parcela (neste caso de Encarnação e António Gonçalves) da Justino’s Projects, chancela iniciada com a vindima de 2021. Aroma cítrico (limão maduro), com um lado vegetal e um ligeiro floral, que sobe de tom à medida que o vinho abre no copo. Na boca, uma acidez importante, elegância e um final vegetal, sempre muito fresco. O Verdelho é a segunda casta mais plantada na Madeira, a seguir à Tinta Negra; a Justino’s só chegou a este varietal em 2023 porque demorou a encontrar a vinha e os parceiros certos: não é qualquer um que, habituado à vindima para vinho Madeira, aceita à primeira fazer duas ou três passagens na vinha e espera por Outubro para colher os últimos cachos. A vinificação é em tudo semelhante à do varietal de Folgasão do produtor (50% do lote estagia com as borras finas no inox, a outra metade vai para cascos semi-novos de 700 litros).

Nome Fanal Sercial 2023
Produtor Justino’s Madeira Wines;
Castas Sercial
Região Madeira
Grau alcoólico 12,5%
Preço (euros) 35
Pontuação 93
Autor Ana Isabel Pereira
Notas de prova Em Portugal continental chamam-lhe Esgana-Cão. É a bomba ácida da Madeira. Este nasceu numa vinha dos irmãos Miguel e Celina Freitas, na Fajã de Barro, concelho de Porto Moniz, conduzida em espaldeira (é raro no caso do Sercial) e que dá “uvas de excepcional qualidade”. É um branco com acidez elevada, cheio de sabor e ainda mais salinidade do que a que encontramos noutros brancos da Justino’s.

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