Ricardo Baitelo: “Lula elevou muito as expectativas nos combustíveis fósseis, e foi preciso recuar”
O facto de o Governo brasileiro se ter envolvido tanto e, sobretudo, o Presidente Lula da Silva se ter empenhado pessoalmente nas negociações na Conferência do Clima das Nações Unidas (COP30), em Belém do Pará, na Amazónia, pode ter prejudicado o rumo da cimeira e obrigado ao surpreendente recuo na recta final, disse ao Azul Ricardo Baitelo, especialista brasileiro em energias renováveis do Instituto de Energia e Ambiente (IEMA), que integra o Observatório do Clima, uma rede de organizações de defesa do meio ambiente no Brasil.Porque é que na sexta-feira, o dia em que a COO30 deveria ter encerrado, a presidência brasileira da conferência publicou documentos tão abaixo das expectativas que toda a gente ficou insatisfeita e obrigou a prolongar as negociações?Tem diferentes teorias e especulações. Vimos esse tipo de dinâmica na COP28, do Dubai, em que a qualidade e a substância do texto foi muito diminuída, para no fim chegar a um texto um pouco melhorado.É uma estratégia. No caso de Dubai, a presidência da COP28 quis tirar a pressão e depois chegar no meio termo, que não é suficiente, em absoluto, mas…É tão má, tão má, que depois daquilo tudo é bom?É, no balanço final você sai com uma impressão melhor do que se tivesse chegado a um contexto bom e piorado no final. Mas o que temos é que houve uma diferença desta COP para as outras, por causa da pró-actividade da presidência brasileira, não só todas essas cartas do Mutirão durante o ano, aparecendo publicamente em diferentes processos, na Cúpula dos Povos e todas essas iniciativas que o próprio Governo está fazendo pela transição, bem como o Presidente Lula (da Silva) também.Essa movimentação não caiu necessariamente bem no meio diplomático. O Brasil pode tentar inspirar e puxar, mas tem um limite.O Presidente Lula poderia ter dado uma injecção de energia política no processo. Mas não foi, até onde eu sei, assim tão bem recebido pelas outras diplomacias, porque o Presidente do Brasil está um nível acima, gera uma assimetria.Mas Lula pôs as expectativas muito lá em cima, ao adoptar a questão do roteiro de saída dos combustíveis fósseis, no qual a sociedade civil martelou ao longo do ano inteiro – na verdade desde a COP27, no Egipto. Isso provocou esse efeito negativo.Para países que estão apoiando o abandono dos combustíveis fósseis, como a Colômbia, foi bom. Mas pode ter sido sabotado por outros países que não têm interesse em que exista um roteiro de abandono dos combustíveis fósseis.Acredito que o Brasil sentiu que estava indo um pouco longe demais e resolveu tirar um pouco o pé, para não comprometer todo o acordo.
Ricardo Baitelo
Observatório do Clima
Que impacto pode ter a realização e o desfecho da COP30 nas presidenciais no Brasil no ano que vem? E até mesmo na luta contra as alterações climáticas, a nível nacional, e a credibilidade do Brasil?A oposição vai sempre achar forma de dizer mal! Agora, o ambiente nunca foi um dos temas principais nas eleições brasileiras. Talvez agora, em que o Lula está tentando a reeleição, e fez desse tema um grande cartão-de-visita, passe a ter mais importância. Tal como quando a Marina Silva se candidatou à presidência, puxou uma discussão sobre o desmatamento, que não existia.É uma óptima pergunta, mas é difícil conjecturar. Porque outros indicadores de desenvolvimento da economia, principalmente a questão da segurança, estão sempre presentes no Brasil, sobretudo depois da questão do massacre [policial de Outubro] no Rio de Janeiro.Não sei se um mau acordo enfraqueceria o Lula em termos internacionais, porque sabemos que ele sempre teve um grande interesse nesse plano. Um resultado verdadeiramente mau teria um efeito muito para além do Lula, sobre a sociedade civil que trabalha o tema das alterações climáticas como um todo, agravaria a crise que já estamos vivendo.
Acredito que o Brasil sentiu que estava indo um pouco longe demais e resolveu tirar um pouco o pé, para não comprometer todo o acordo
Ricardo Baitelo










