Após os insultos, sorrisos: Trump e Mamdani prometem “trabalhar juntos” por Nova Iorque
Guardem-se as pipocas. O Presidente norte-americano Donald Trump e o mayor-eleito de Nova Iorque, o socialista democrático Zohran Mamdani, reuniram-se esta sexta-feira na Casa Branca, em Washington, e prometeram “trabalhar juntos” pela maior cidade dos Estados Unidos. É um volte-face após as ameaças do Presidente republicano, que prometeu congelar o financiamento público federal à metrópole, e após uma campanha eleitoral em que o próximo autarca de Nova Iorque descreveu Trump como um “déspota” e um “fascista”.“Já me chamaram pior. Não é muito insultuoso”, gracejou o Presidente dos EUA ao ser confrontado pelos jornalistas na Sala Oval com as declarações passadas de Mamdani. “Temos uma coisa em comum: queremos ver a cidade que amamos a correr bem”, sintetizou Trump, que disse acreditar que Mamdani será “um mayor muito bom”. Foram momentos de uma cordialidade surpreendente, tendo em conta o passado recente entre os dois políticos e a hostilidade reservada na Casa Branca a outros convidados como os presidentes da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e da África do Sul, Cyril Ramaphosa.No final de uma reunião à porta fechada, e numa conferência de imprensa em que Trump se manteve sentado à secretária e Mamdani surgiu de pé, à direita do Presidente, mas em que ambos trocaram sorrisos e toques no ombro, ficava claro o que tinha aproximado os dois homens: “custo de vida, custo de vida, custo de vida”, as palavras que o socialista democrático disse mais ter ouvido ao questionar nova-iorquinos sobre o que os tinha levado a votar no republicano nas presidenciais de 2024.O foco na economia e no poder de compra, que explicou em parte a vitória de Trump no ano passado, é agora visto como uma via para os democratas reconquistarem terreno eleitoral. Mamdani foi apenas um dos candidatos do campo democrata a vencer nas eleições municipais e estaduais de 4 de Novembro, em que a oposição norte-americana registou importantes ganhos face a 2024 em subúrbios-chave e junto dos eleitorados jovem, latino e afro-americano, incluindo em New Jersey e na Virgínia, com campanhas centradas no custo de vida.É também a economia e o poder de compra que mais têm penalizado Trump nas sondagens, a par da gestão do caso Epstein, com o Presidente republicano a registar agora a taxa de aprovação mais baixa do seu segundo mandato. A persistência da inflação e o arrefecimento do mercado de trabalho levaram já a Administração Trump a inverter parcialmente o curso, nas últimas semanas, na política tarifária, com o anúncio da suspensão ou diminuição das taxas aduaneiras aplicadas a uma série de produtos alimentares importados, incluindo a carne e o café do Brasil e de outros países da América Latina.A Casa Branca não ignorará este contexto, que explica em parte o tom inesperadamente cordial do encontro entre um Presidente em crise e um autarca-eleito popular. Esta sexta-feira, Trump (que não se coibiu contudo de alegar, incorrectamente, que os preços estavam em queda desde o seu regresso ao poder) apontou aos temas caros da campanha de Mamdani, que disse serem também os seus: os custos da habitação, alimentação e transportes. “Concordámos em muito mais do que eu estava à espera”, disse Trump sobre a reunião mantida com o socialista democrático momentos antes.
Donald Trump e Zohran Mamdani na Sala Oval da Casa Branca, esta sexta-feira, em Washington, EUA
reuters
“Vamos trabalhar juntos”, reiterou, acrescentando haver espaço para uma aproximação de posições até na segurança pública e na imigração. Mamdani preferiu sublinhar o que aproximava os dois homens, e não o muito que ambos admitem que ainda os separa.Mas terá Trump deixado de considerar Mamdani um “comunista” e um “radical”? Ao desafio dos jornalistas, o republicano foi novamente conciliatório: “Ele tem algumas ideias um bocado fora, mas ele vai mudar. Todos nós mudamos. Eu mudei muito.”É Mamdani um “jihadista”, como disse a republicana Elise Stefanik sobre o primeiro autarca muçulmano de Nova Iorque? “Encontrei-me com um homem que é uma pessoa muito racional”, riposta Trump.Mas Trump é ou não é fascista? Perante a insistência dos repórteres, Mamdani hesita e Trump salva-o: “Deixa estar, podes dizê-lo, é mais fácil do que estares a explicar.” Então e Mamdani veio de avião a Washington em vez de vir de comboio que é ambientalmente menos nocivo? “Eu defendo-te”, corta novamente Trump, que explica que o futuro autarca tem muito trabalho pela frente e pouco tempo a perder em viagens.E viveria Trump em Nova Iorque depois da vitória de Mamdani? “Absolutamente. Especialmente depois desta reunião”, respondeu o Presidente, demolindo um dos argumentos-chave da campanha dos adversários do socialista democrático: o receio de uma eventual fuga em massa de residentes e de empresas em caso de vitória do novo rosto da ala esquerda do campo democrata. “Tudo o que fizer será bom para Nova Iorque”, disse Trump sobre o autarca-eleito. “Vamos ajudá-lo”, prometeu.










