CIÊNCIA

Harvey Barnes, um escocês de momento num inglês de nascimento

Não incluirás um reforço de última hora num grupo já consolidado – sobretudo se vier de outra selecção. Este poderia ser um dos mandamentos fundamentais da gestão de grupos em selecções nacionais – Roberto Martínez seria um dos fiéis seguidores.Para já, é tema para a Escócia e para Harvey Barnes. O inglês marcou neste sábado dois golos no triunfo (2-1) do Newcastle frente ao Manchester City, prometendo reacender uma discussão que não é nova: deve ou não jogar pela selecção escocesa?Barnes nasceu há 27 anos em Burnley, em Inglaterra, filho de pais ingleses. Por isso, e pelo talento, já chegou a representar a selecção inglesa – uma só vez, mas, ainda assim, uma vez a mais do que a maioria dos futebolistas.Acontece que lá mais para trás na árvore genealógica há raízes escocesas que lhe permitem actuar pela equipa que em 2026 regressa a Campeonatos do Mundo após 28 anos.Barnes actuou por Inglaterra, algo que lhe vedaria, em tese, qualquer esperança de actuar por outro país. Mas a internacionalização foi numa partida particular, em 2020, frente ao País de Gales, pelo que as regras da FIFA não o impediriam de ainda mudar de ideias.E deve fazê-lo? Convém ouvir, primeiro, o próprio jogador. Há dias, à Sky Sports, disse que “claro que não”, questionado sobre se exclui jogar pela Escócia. “Joguei pela Inglaterra e sei que a questão da elegibilidade ainda está em aberto, por isso é difícil dizer, mas não houve conversas concretas nem progressos nesse sentido”, acrescentou, para esfriar o entusiasmo de algum escocês.Mas a chamada faria sentido?Talento ou grupo?A decisão não é evidente. Por um lado, Barnes seria uma adição evidente de talento a uma selecção que não é de primeira linha – nem tem muitos jogadores de primeira linha.Por outro, juntar um jogador que não participou na qualificação é uma faca de dois gumes – traz talento, mas pode criar uma sensação de injustiça num grupo que suou para conquistar a qualificação sem este “craque” de última hora. Além da sensação na opinião pública de que o jogador só se comprometeu com a selecção com a perspectiva de ir a um Mundial.A nível de gestão de grupo a decisão não é evidente, mas não é comum que seleccionadores “inventem” adições de última hora a grupos já consolidados – estreias em Mundiais ou Europeus são raras.Ruben Amorim, por exemplo, fez a estreia pela selecção principal em pleno Mundial 2010, mas não só era português como já tinha um passado nas selecções jovens.Há também o célebre caso de Diego Costa, que jogou pela primeira vez pela selecção espanhola em Março de 2014, três meses antes do Mundial 2014. Esteve na convocatória, foi titular nos dois primeiros jogos, acabou com o ónus das duas derrotas e já não participou no terceiro jogo da fase de grupos, que ditou a eliminação precoce da Espanha – curiosamente, com triunfo por goleada sem o avançado na equipa.Não dribla, mas marcaNo caso de Harvey Barnes há contornos diferentes dos de Diego Costa, desde logo porque não é um craque de nível mundial – o que pode adensar a ideia de que a selecção escocesa não precisa assim tanto dele. Mas é, por outro, lado, um jogador com muita tarimba de Premier League – e isso não é coisa pouca.Apesar de ser um ala, estamos a falar de alguém que não recheia vídeos com dribles desconcertantes e jogadas individualmente geniais – tem uma percentagem absolutamente medíocre de sucesso no drible, ficando-se pelos 20%.Barnes não é, portanto, um driblador de primeiro nível e aposta, sobretudo, na velocidade e na verticalidade que coloca no seu jogo – muito intenso, acutilante e “com baliza”.Os dois golos marcados ao City são bons exemplos disso. Num deles finalizou na área um lance confuso, mostrando sagacidade. No outro marcou num dos seus movimentos “de assinatura”: o famoso “um-dois”, ao tabelar com um colega antes de finalizar – mais do que desequilibrar sozinho pelo drible.Um levantamento do The Athletic em 2023 remetia para um dado relevante: desde 2018, Barnes e Raúl Jiménez eram os jogadores da Premier League com mais golos marcados em jogadas de tabela com um colega. E Barnes era o quinto que mais rematava em lances deste tipo, só superado por Mané, Salah, Maddison e De Bruyne.É alguém que corre, trabalha, passa bem, oferece intensidade e finaliza com relativa qualidade – várias épocas acima dos dez golos. Para uma selecção como a escocesa isto não é coisa pouca.

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