CIÊNCIA

O custo da não-diplomacia: a inevitabilidade do plano de paz para a Ucrânia e o isolamento estratégico da Europa

O plano de paz para a Ucrânia que agora se desenha não é uma novidade, mas sim a materialização tardia de inevitabilidades que vimos tentando explicar há vários anos. Confirma, de forma inequívoca, que não haveria solução militar para este conflito e que, quanto mais o mesmo se arrastasse, mais provável seria que a Ucrânia ficasse exposta: a negociar de uma posição de fragilidade, ou sem capacidade negocial de todo, cenário que Zelensky reconheceu esta semana.A solução passaria, como sempre se antecipou, essencialmente por um entendimento entre os principais atores do conflito: os EUA e a Rússia. A Europa, por sua vez, cada vez mais apostada em converter-se num ator militar, fica a assistir ao processo negocial em casa, sem nele participar ou ter voz. Prende-se, assim, a uma dinâmica de Guerra Fria 2.0 que ela própria incentivou e da qual não consegue sair, por incapacidade das suas lideranças e falta de visão estratégica.A Ucrânia finalmente reconheceu explicitamente a sua condição de pequeno estado, dependente de terceiros para a sua sobrevivência. É a isso que Zelensky se refere quando diz que “a Ucrânia ou perde um aliado de peso ou perde a dignidade”. Esta é uma saída positiva para uma liderança que se tinha enredado na proibição de negociações com Putin e na defesa intransigente da via militar.A pressão decorrente da situação no terreno, aliada à proposta dos EUA, força agora a via negocial imediata que a maioria do povo ucraniano vem defendendo há mais de um ano, como demonstram os estudos de opinião da Gallup. Aos pequenos estados cabe, mais do que a quaisquer outros, uma avaliação muito cuidadosa das capacidades e do contexto. A Ucrânia poderia ter negociado noutro tempo, com outras condições, um resultado bem mais vantajoso.A propaganda de armas milagrosas e de sonhos irrealistas só construiu castelos na areia, que inviabilizaram uma análise pragmática das circunstâncias no terreno e no campo diplomático. Agora, entre a espada e a parede, numa posição impossível e praticamente sem alternativa, o realinhamento forçado com a vontade popular é um resultado positivo para a imagem de Zelensky, em vez da persistência insustentável num arrastamento do conflito à espera de um desfecho que, realisticamente, nunca se percebeu o que poderia ser.A União Europeia, sob a liderança de Ursula von der Leyen e de alguns estados com crescente influência, viu na guerra uma oportunidade para institucionalizar políticas e práticas que já vinham a ganhar tração. Esta estratégia levou a um triplo tiro no pé: 1) A militarização da Europa, com a Europa a gastar hoje mais do dobro em guerra do que há dez anos; 2) O fim da diplomacia como ferramenta central, crescentemente desvalorizada pelos estados e pelas instituições da UE, cada vez mais investidas numa corrida ao hard power e esquecendo o longo sucesso das diplomacias europeias, mesmo com exíguos recursos; 3) O declínio da UE comercial, em que a via de corte total de relações com a Rússia amputou o poderio económico e comercial – a verdadeira fonte de peso e influência da UE.Os resultados desta via eram garantidos à partida e estão agora amplamente demonstrados: uma UE sem ferramentas para lidar com o seu principal vizinho; um impacto negativo sobre a economia russa, mas também sobre as economias europeias, com as principais em estagnação; e, sobretudo, não produziram o resultado esperado de uma retirada russa ou mudança de comportamento.A plêiade de estados, políticos e académicos que alertaram para as limitações desta estratégia – e para o risco de uma UE presa a uma Guerra Fria duradoura e sem rumo estratégico – foi ignorada, ou pior, acusada de pretender o pior para a Ucrânia. Hoje percebemos o oposto: centenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas e a diplomacia e a negociação poderiam ter feito o seu caminho – como, aliás, estiveram perto em Abril de 2022.Foi incrivelmente fácil para decisores e opinadores traçar o destino económico, político e social da Ucrânia, condenando-a à guerra sem alternativas, sem qualquer cálculo efetivo de ganhos e perdas, e sem pensar em estratégia, nas consequências de cada uma das ferramentas de política externa, em alternativas políticas – ou sem pensar de todo.Sem ser ainda um ator militar e estando diminuída economicamente, o resultado só poderia ser este: uma Europa perdida, sem voz, sem qualquer relevância no desfecho do conflito. A UE assiste à distância, e sem influência aos avanços diplomáticos sobre a Ucrânia. Veja-se a cimeira do G20, onde os líderes das grandes potências não marcaram presença, denotando um fórum diplomático menor, e o papel a que a UE e a Europa se votaram a si mesma, de ‘maior dos menores’.Pelo contrário, enquanto os EUA retomam as suas principais preocupações internacionais (algo que era previsível, mais cedo ou mais tarde, fosse qual fosse o líder ou partido no poder), a UE ganhou um inimigo na porta ao lado, com o qual não faz ideia de como lidar. A população europeia não beneficia em nada desta estratégia, e, pior ainda, terá de pagar a conta da guerra, como se vê no apelo de Ursula von der Leyen de 135 mil milhões de euros aos estados-membros para 2026-27.O único aspeto positivo para a UE – para além, claro, do fim da guerra na sua vizinhança – é a possibilidade de repensar cada uma das três propostas que defendeu recentemente para financiar a Ucrânia na guerra e os seus défices orçamentais: a contestada estratégia de utilização dos ativos russos congelados para um empréstimo à Ucrânia, ou “pelo menos” 90 mil milhões de euros a fundo perdido pagos pelos estados-membros, ou dívida conjunta da UE emitida com juros estratosféricos. O eventual fim do conflito permite à UE não ter que tomar nenhuma destas três desastrosas opções lançadas por von der Leyen no seu pedido aos estados-membros.Como sempre dissemos, diplomacia e negociação significam encontrar uma posição de mal menor para cada uma das partes, que ambas consigam aceitar, não sendo perfeita ou ideal. O impasse militar, óbvio há muito, facilitava tal desenvolvimento. Veremos que caminho tem este plano, que ajustes lhe são feitos e como decorre o diálogo entre as várias partes.Não é possível fazer, neste momento, futurologia sobre se será eficaz, ou quanto tempo durará o acordo. Mas a simples pausa no conflito – e, muito mais, o fim do mesmo, independentemente da duração – é infinitamente melhor do que a sua continuação sem qualquer resultado tangível. O que fica é a trágica evidência de que a persistência numa via militar insustentável teve um custo incalculável. A Europa assistiu e pagou a fatura, mas o fracasso em antecipar a inevitabilidade negocial foi pago pelas centenas de milhares de vidas que a diplomacia, com pragmatismo, poderia ter poupado, um preço infinitamente mais alto.

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