Mesmo sem cianeto, novo projecto da mina da Lagoa Salgada não convence críticos
Luís Vital Alexandre, presidente da Câmara de Grândola, não se conforma com mais uma tentativa da empresa canadiana Red Corp em avançar com a exploração mineira subterrânea na Lagoa Salgada. Em causa está a exploração em Grândola não só de depósitos minerais polimetálicos de cobre, zinco e chumbo, mas também de mineralizações secundárias (estanho, prata e ouro).O autarca, recém-eleito pelo Partido Socialista (PS), o promete envidar todos os esforços para o projecto não avance. Luís Vital Alexandre manifesta a sua “total discordância” com a exploração mineira na Lagoa Salgada, assumindo “total empenho para que a mesma não se concretize”.Por sua vez, Guy Villax, presidente da direcção da Associação de Defesa do Ambiente – Proteger Grândola, insurge-se contra o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) do projecto reformulado da Mina da Lagoa Salgada. Ao Azul, afirmou que o documento “não é transparente, é cientificamente tendencioso e desrespeita a sociedade civil.”Prazo muito curtoA crítica de ambos é extensiva à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e prende-se com 0 prazo concedido, de apenas 14 dias, para que os interessados se possam pronunciar no âmbito da consulta pública do projecto.
Há um ano a empresa afirmava que só o cianeto funcionava; agora, quase por milagre, existe uma solução técnica mais segura e mais rentável
Guy Villax, Proteger Grândola
O conjunto de documentos colocados no Portal Participa compreende “mais de 30 novos ficheiros, totalizando mais de quatro mil páginas”, salienta Guy Villax.Também o autarca de Grândola refere no comunicado enviado ao Azul que o executivo municipal já formalizou junto da APA o pedido de prorrogação do prazo de consulta pública.Os serviços da câmara, com o apoio de uma equipa especializada em estudos de impacte ambiental, e com experiência na área das minas, pretendem “emitir um parecer rigoroso e fundamentado” ao projecto da Mina da Lagoa Salgada, observa Luís Alexandre.O que diz o EIA?Para contrapor a esta visão crítica, o Estudo de Impacte Ambiental, salienta que o projecto de extracção mineira no concelho de Grândola surge “num contexto caracterizado por desigualdades socioeconómicas, com um contexto empresarial subdesenvolvido e inserida numa envolvente com ecossistemas-chave ameaçados”.A empresa promotora do projecto diz pretender “contribuir para a promoção do desenvolvimento social, impulsionar a competitividade e a inovação, apoiando as PME locais e promovendo a restauração dos recursos naturais”.Para alcançar tal objectivo, a Redcorp pretende recorrer a estratégias “inovadoras, com o objectivo de vir a constituir um agente crucial para o desenvolvimento ambiental, social e económico da região e ser uma referência enquanto indústria mineira responsável”.Ampla contestaçãoContudo, o resultado da consulta pública do projecto da Mina da Lagoa Salgada realizada entre 14 de Março e 30 de Abril de 2025, com 631 exposições recebidas, das quais 602 de cidadãos, expressou a contestação aos predicados expressos nos documentos da empresa canadiana.Segundo a APA, os contestatários à extracção mineira, “discordam, na generalidade, da concretização do projecto, dado que o mesmo representa uma ruptura com a estratégia de desenvolvimento sustentável da região, provocando danos irreversíveis na paisagem, nos ecossistemas, nos recursos hídricos e na qualidade de vida das populações.“Entendem que a aprovação do projecto beneficiará essencialmente a empresa promotora, sem gerar ganhos duradouros para a população local, pelo que defendem a não-aprovação do projecto”, acrescenta a APA.
É urgente que o Governo e o Parlamento se possam envolver neste assunto, com frontalidade
Luís Vital Alexandre, autarca de Grândola
A proposta de Declaração de Impacte Ambiental (DIA), com a decisão desfavorável ao projecto, surge depois de terem sido identificados “impactes negativos significativos a muito significativos ao nível de factores determinantes para a avaliação, nomeadamente, recursos hídricos e uso de várias substâncias perigosas no processo de lixiviação, destacando-se o cianeto de sódio”.“Projecto não melhorou”Da análise já efectuada por Guy Villax emerge uma uma conclusão: a reformulação do EIA praticamente “não melhorou o projecto, mantendo-se os pontos críticos anteriormente apontados e que motivaram uma avaliação negativa da APA”.O presidente da Câmara de Grândola refere que a nova consulta pública sobre o projecto reformulado, que se prolonga até ao próximo dia 27 de Novembro, “evidencia dados muito preocupantes” pelo que “é urgente que o Governo e o Parlamento se possam envolver neste assunto, com frontalidade”.A página electrónica da empresa canadiana Red Corp realça a importância do couto mineiro, um projecto “altamente promissor” que apresenta uma mineralização típica de zinco, cobre, chumbo, estanho, prata e ouro “de alto teor”.A mesma fonte refere a existência de “um amplo potencial de exploração tanto próximo aos depósitos quanto em alvos prospectivos de expansão ao longo da extensa concessão de 7209 hectares”.
Com ou sem cianeto?Na versão reformulada, a “gigantesca factura ambiental” que o projecto mineiro poderá vir a provocar na região sofreu uma significativa alteração no processo de tratamento metalúrgico.A estratégia original de processamento do material do projecto Lagoa Salgada baseava-se na recuperação selectiva de metais preciosos, principalmente ouro e prata, através de lixiviação convencional com cianeto de sódio. Agora, é apresentada uma abordagem sem cianeto.Com a nova abordagem, baseada em flutuação, o uso do cianeto é abandonado, e “o processo ganha valor significativo ao incorporar o conteúdo de chumbo e vanádio que anteriormente era ignorado” mantendo-se mesmo assim a recuperação de ouro e prata embora em quantidades menores.A empresa canadiana garante que a mudança de filosofia metalúrgica “reforça significativamente a viabilidade económica e a sustentabilidade do projecto” argumento que contraria o que era afirmado no Estudo de Impacte Ambiental que acabou chumbado.No EIA de Novembro de 2024, a Red Corp afirmava que recorrer a cianeto de sódio era “a única abordagem que demonstrou viabilidade para o minério da Lagoa Salgada”.Em Novembro de 2025, mesmo sem cianeto, o projecto mineiro está “tecnicamente alinhado e economicamente optimizado para além de reforçar a viabilidade global do Projecto Lagoa Salgada, melhorando o seu perfil ambiental e aumentando a sua robustez financeira”.Ou seja, “há um ano a empresa afirmava que só o cianeto funcionava; agora, quase por milagre, existe uma solução técnica mais segura e mais rentável”, observa Guy Villax.Nem só as águas subterrâneas são afectadas pelo projecto mineiro. O impacte que será causado com abate entre 2102 a 2331 de sobreiros/azinheiras junta-se à enorme escombreira onde ficarão depositados os detritos resultantes da lavra mineira.Em causa estão cerca de 43 hectares de área ocupada, com cerca de 20 metros de altura, que ficarão destacados na paisagem alentejana, com as inevitáveis consequências na contaminação do aquífero de onde é abastecida a população dos concelhos de Grândola e Alcácer do Sal.Estimativas da exploraçãoAs sondagens realizadas até 2021 na área prevista para exploração definem duas massas minerais: o jazigo norte e o jazigo sul, onde foi detectada a existência, respectivamente, de cerca de 13 milhões de toneladas com um teor de zinco equivalente de 8,5%, e cerca de 15 milhões de toneladas com um teor de 1,4% de cobre por tonelada de rocha extraída.A produção estimada para a mina da Lagoa Salgada é de 5480 toneladas diárias de minério, durante uma vida útil de 11 anos, iniciada após uma fase de construção com cerca de dois anos.A empresa promotora assume que o projecto “contribuirá para o desenvolvimento económico local”, seja pela criação de emprego (300 postos de emprego directos e 700 postos de emprego indirectos), seja pelo volume de exportações previstas (valor médio de 111 milhões de euros de exportações anuais), ou ainda pela “transferência de parte do valor global das royalties para o município de Grândola”.A Red Corp socorre-se de um estudo apresentado em 2023 que indica um “crescimento significativo das receitas fiscais locais”, estimando que as “receitas públicas aumentem 8% (de 14 milhões para 15 milhões de euros) devido à derrama municipal do IRC e aos royalties”.A extracção mineira provocará “uma receita pública adicional de aproximadamente 14 milhões de euros, por ano, durante a fase de investimento” está citado na reformulação do EIA.No valor bruto da produção nacional haverá “um aumento de 381 milhões de euros na fase de investimento e, anualmente, de 131 milhões de euros na fase de exploração”. O estudo apresentado pela empresa canadiana destaca ainda os efeitos que o projecto poderá ter no PIB, nomeadamente, 156 milhões de euros na fase de investimento e, anualmente, 60,5 milhões de euros na fase de exploração.Estes valores levam a Red Corp a concluir que o projecto irá provocar “alterações positivas no tecido empresarial local pela subcontratação de serviços e compra de bens, contribuindo para o aumento da actividade das empresas locais e, subsequentemente, do emprego e volume negócios”.Saúde financeira da Red CorpGuy Villax encara com reservas a saúde financeira da empresa canadiana detentora da Red Corp, agora a Cerrado Gold, sucessora da Ascendant Resources, uma small cap com capitalização bolsista de cerca de 112 milhões de euros.A Ascendant Resources, entretanto, retirada da bolsa, nunca ultrapassou 24 milhões de euros de capitalização no seu auge. “Com tão poucos recursos financeiros, é incompreensível a atribuição de estatuto PIN [Projecto de Interesse Nacional] ao projecto”, enfatiza o presidente da Proteger Grândola.
Também o autarca de Grândola tece críticas ao estatuto de Projecto de Interesse Nacional. A sua atribuição só foi possível porque a Câmara de Grândola, no mandato anterior, liderado pela (CDU), “escolheu não se pronunciar sobre a matéria e não entregou um parecer à AICEP, a entidade que gere os projectos de interesse nacional”.Luís Vital Alexandre afirma que é necessário “corrigir o enorme erro que o executivo anterior cometeu ao não apresentar o parecer que lhe foi solicitado sobre o reconhecimento do interesse nacional do projecto”.Neste sentido, o autarca diz já ter reunido com a AICEP Portugal Global, a entidade responsável pelo estatuto PIN, e formalizou um pedido de reavaliação do reconhecimento do estatuto de potencial interesse nacional à mina da Lagoa Salgada.










