CIÊNCIA

Os fantasmas que habitam a escola do país que não se quer ver

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Há dias em que o chão treme de um jeito diferente. Não porque algo novo aconteceu, mas porque algo velho demais voltou a acontecer diante dos nossos olhos e seguimos fazendo de conta que é exceção. Em Portugal, mais uma criança teve o seu corpo ferido dentro da escola. Desta vez, dedos decepados pelos colegas. Uma brutalidade que, por si só, deveria ser suficiente para parar o país. Mas que, tristemente, se junta à longa lista de violências que atravessam a vida escolar e que insistimos em tratar como casos isolados.Como pedagoga, formadora, alguém que pisa em escolas deste país e também como mulher migrante que aprende todos os dias que o “olhar sobre o outro” é uma fronteira que pode ferir, escrevo sem distância. Escrevo atravessada.Ao longo dos últimos anos, temos ouvido repetidamente relatos de agressões, perseguições, humilhações e exclusões dentro das escolas portuguesas com crianças que, supostamente, não se encaixam num suposto molde esperado.Apesar de cada episódio extremo ganhar manchetes, o que raramente entra na discussão pública é a profunda complexidade das violências que atravessam esse país e, por consequência, seu sistema educativo. Não se tratam apenas de agressões físicas ou de conflitos visíveis; trata-se de um ecossistema em que desigualdades sociais, insultos cotidianos, microviolências, isolamento, racismo, xenofobia, precariedade institucional e ausência de políticas pedagógicas continuadas coexistem.E, apesar de ser jargão antigo, é preciso lembrar sempre que as escolas não estão isoladas da sociedade. Elas são atravessadas pelas tensões sociais mais amplas — e também pelas escolhas políticas que precarizam o trabalho docente, fragilizam as equipas escolares, ignoram a saúde mental e negligenciam a formação para o acolhimento.E essa negligência institucional é antiga. Há anos, coletivos, associações, pesquisadores, estudantes e profissionais denunciam as falhas estruturais do sistema educativo português: falta crônica de professores, ausência de tempo pedagógico para o trabalho relacional, inexistência de formação continuada que vá além do cumprimento burocrático, insuficiência de equipas multidisciplinares, carência de políticas que integrem diversidade, convivência e inclusão como pilares centrais e não como anexos.Todos esses elementos constituem formas de violência institucional. Não porque haja intenção de ferir, mas porque a ausência de condições adequadas produz contextos em que o cuidado se torna exceção e não regra. E, numa escola onde cuidar deixa de ser possível, prevenir a violência também deixa de ser.Viver a experiência migrante torna isso ainda mais evidente. O que parece “pequeno” — um comentário, um isolamento, uma piada, uma suspeita — pode ser a porta de entrada para hostilidades maiores. E, quando se soma a isso um discurso público que naturaliza a suspeição sobre grupos específicos, o terreno fica fértil para que crianças reproduzam violências que os adultos fingem não ver.Discurso políticoQuando um país e seu sistema educativo se recusam, ano após ano, a enfrentar com coragem os problemas que já estão amplamente mapeados, não só falham em proteger as crianças, como contribuem para fortalecer as dinâmicas que querem combater. Foge-se dos conflitos como se fossem desvios, quando, na verdade, são indicadores estruturais.Evita-se o enfrentamento crítico da história (do autoritarismo, do racismo, da desigualdade) como se esses fantasmas tivessem sido superados, quando basta arranhar a superfície para perceber que continuam vivos. São esses fantasmas que reaparecem nas interações entre crianças e jovens, nos olhares de desconfiança, nas exclusões silenciosas, nas escaladas de conflito que poderiam ter sido interrompidas se houvessem adultos preparados, equipes apoiadas, instituições responsáveis e, sobretudo, um ambiente político que não legitimasse a suspeição, a hostilidade e a desumanização.O discurso político não fica na televisão nem no plenário: entra nos corredores das escolas, na vida cotidiana. Influencia percepções, autoriza desconfianças, dá linguagem para o medo e espaço para preconceitos. Quando figuras públicas reforçam a ideia de que determinadas crianças são ‘problemas’, ‘ameaças’ ou ‘pesos’, isso não desaparece no ar, desce à prática, à convivência, às relações entre pares, e ajuda a consolidar um clima onde a violência se torna possível, repetida e, pior, compreendida como justificável.É urgente abandonar essa fantasia de que isto é novo ou isolado. Não é.Não começou agora.Não é um acidente.


É parte de um padrão denunciado há anos e que, ainda assim, segue tratado como tragédia individual.A responsabilidade por transformar esse cenário não é apenas das políticas públicas. Ela é coletiva. Está no quotidiano da escola, nos corredores, nas salas de aula, nos recreios, nos comentários que deixamos passar, nas piadas que desvalorizamos, nas agressões que relativizamos, nos pedidos de ajuda que interpretamos como exageros. E, sobretudo, está no modo de como a sociedade portuguesa tem lidado — ou evitado lidar — com os seus fantasmas.Por isso, insistir em soluções simplistas de “mais controle”, “mais autoridade”, “mais vigilância”, não apenas falha pedagogicamente, como mascara a questão essencial: a violência escolar é um sintoma, não a doença. Um sintoma de uma sociedade que continua a evitar enfrentar o seu passado colonial, que resiste a reconhecer a presença estrutural do racismo, que transforma a migração em problema e que permite que discursos de ódio circulem sem responsabilização. Uma sociedade que naturaliza a precariedade como destino e a desigualdade como inevitável.É nesse contexto que crianças e jovens crescem. E, como qualquer pessoa em formação, aprendem, mesmo quando ninguém está a ensinar explicitamente, quem merece confiança e quem merece vigilância, quem pertence e quem é constantemente colocado sob suspeição. Quando a sociedade reforça fronteiras simbólicas, a escola — que vive dentro dela — reproduz parte dessas fronteiras.Cada gesto não nomeado, cada exclusão não reconhecida e cada criança deixada à margem constroem o terreno onde episódios extremos se tornam possíveis. Esses gestos também revelam quem somos enquanto coletividade. E é essa pergunta que Portugal precisa, urgentemente, encarar: não apenas que escola está construindo, mas, fundamentalmente, que tipo de sociedade quer ser.E, se não for capaz de reconhecer o que está entranhado — no discurso, no olhar, nas práticas — não será a última vez que ficaremos chocados.
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