DESPORTO

Desabafo de uma “portuguesa”

17 de outubro de 2025. É sexta-feira, um dia religioso para os muçulmanos. Desloco-me para a mesquita, faço a oração, almoço, socializo com outras mulheres e volto para a casa. Ligo a televisão e vejo a notícia de última hora – “Parlamento aprova proibição da burqa em espaços públicos”. Choque e fúria são as duas emoções iniciais que sinto. “É para dar liberdade às mulheres muçulmanas”, dizem eles. Outros defendem que é “uma questão de segurança”. Desligo a televisão e começo a refletir. Será mesmo chocante aquilo que acabou de acontecer? Nem por isso. Tenho vindo a sentir essa animosidade crescente, não no meu quotidiano, mas sim nas redes sociais: nos comentários às notícias sobre imigração, às notícias sobre crimes em Portugal, até nos comentários a um post que um clube desportivo publicou a desejar aos muçulmanos um Feliz Ramadão.


Até há uns anos, não tinha redes sociais. A minha concepção de Portugal era apenas a das minhas experiências pessoais que, com a exceção de um ou dois incidentes de racismo, eram sempre positivas. Talvez por o meu círculo social, apesar de ser muito pequeno, ser feito de pessoas sinceras e genuínas, que gostam de mim independentemente de quem sou – e sinto-me abençoada por isso. Mas, não sei se foi a maldição das redes sociais ou se a tendência tem mesmo vindo a aumentar, o facto é que, nos meus 15 anos a viver em Portugal, nunca vi tanto ódio, tanto desdém pelos imigrantes, sobretudo pelos muçulmanos.Os imigrantes são acusados de não se integrarem em Portugal. São culpados pelo aumento dos crimes em Portugal. Basta haver um crime em Portugal e a primeira religião e/ou etnia a ser acusada nos comentários é a dos muçulmanos ou dos indostânicos (um termo que pessoalmente detesto). Há uns meses, um avião de uma companhia aérea indiana despenhou-se na Índia e matou quase todos a bordo. Quando a lista das vítimas foi divulgada, sete eram portuguesas. E os comentários a esta notícia? “7 vítimas ‘portuguesas’ ”; “e como se chamavam estes portugueses?”; “não vejo nenhum nome português na lista das vítimas”. E eu pergunto-me: nem na morte estas pessoas mereceram um pouco de dignidade? Este artigo era para ser escrito na altura, mas tenho uma filha de 15 meses e, às vezes, é difícil arranjar tempo livre. Mas quando ouvi a notícia da proibição da burqa em Portugal, decidi que já não podia deixar de escrever.Então, vamos a isto. Eu sou uma muçulmana, de naturalidade paquistanesa, e resido em Portugal desde 2010. Uso o véu para cobrir a minha cabeça e pescoço desde os dez anos, e uma espécie de abaya ou casaco comprido desde os 15 anos. Conheço muitas mulheres que vestem uma abaya mais comprida, outras que só usam um hijab ou véu. E há mulheres muçulmanas que não tapam a cabeça de todo. Cada mulher muçulmana veste-se como quer. Mesmo nos países muçulmanos, nem todas as mulheres andam de cabeça tapada, e, ao contrário da perceção que o Ocidente tem, não são mortas por não obedecerem à ordem islâmica. Não estou a negar que isto aconteça, porém, meia dúzia de incidentes não representam uma religião inteira. Existem muçulmanos em diferentes regiões do mundo, que pertencem a culturas diferentes e etnias diferentes e, por isso, a maneira de tapar a cabeça e/ou o corpo varia, e a religião permite isso. Uma mulher muçulmana paquistanesa usa um véu diferente do que usa uma mulher da Guiné-Bissau, por exemplo. Já uma mulher muçulmana que emigra para o Ocidente adapta-se duma maneira ou de outra e tenta “modernizar” o seu véu ou abaya, embora nem todas o queiram fazer – e isso chama-se liberdade, algo que o Ocidente proclama defender.A principal razão que estava a ser dada pelos defensores desta proibição era a de “garantir a liberdade das mulheres muçulmanas”. Porquê é que se atribui uma mulher a usar véu ou hijab ou burqa à falta de liberdade? A religião muçulmana tem regras de conduta, e uma dessas regras é tapar a cabeça e o corpo, e não deixar o corpo à imaginação. Quem segue a religião vai fazê-lo. Quem não quiser não o faz. É tão simples quanto isso. Porque é que se acha necessário tirar a burqa à mulher para esta se integrar? Há mil outras maneiras de se integrar numa cultura ou num país. Aprender a língua, socializar com as pessoas, aprender sobre a cultura, trabalhar e contribuir para a economia, participar em trabalhos comunitários. Porquê é que tenho de mudar a minha identidade pessoal, cultural e religiosa para me integrar, se o que visto não interfere na vida de ninguém? Porquê é que a definição de integração é deixar de poder praticar as coisas que a minha religião me proíbe de fazer? Como é que isso é justo? Há centenas de vídeos de turistas que viajam para os países muçulmanos e que nunca tiveram de mudar a forma como se vestem para puderem passear. As redes sociais estão cheias desses vídeos. Mas há sempre um ou outro que vem com esta acusação: “Quando nós vamos aos vossos países, também nos vestimos de acordo com os vossos costumes, então vocês têm de fazer o mesmo”. É triste que um incidente aqui ou ali leve a generalizações sobre uma religião ou uma região inteira.


Outra razão que estava a ser dada era a da “questão de segurança”. Porque não se sabe quem está por baixo da burqa: um homem ou uma mulher. E eu entendo. Como um senhor disse na televisão, é lógico proibir burqa durante um exame, pela possibilidade de o aluno estar a usar cábulas. Existem outros sítios também onde não é possível permitir que se use burqa. Mas proibir de todo nos espaços públicos? Porquê?Primeiro de tudo, quantas mulheres existem em Portugal que usam burqa? Dessas mulheres, quantas vezes aconteceu levantarem a burqa e encontrarem um homem por baixo, e não uma mulher? Quantas vezes houve um crime cujo perpetrador fosse uma mulher a usar burqa? A Europa sofreu uma vaga de ataques terroristas há alguns anos. Desses ataques, quantos foram perpetrados por mulheres a usarem burqa? E então pergunto: será isto por uma questão de segurança? Ou é apenas uma tentativa de incitar ainda mais ao ódio contra uma religião específica? Será isso preocupação com a liberdade das mulheres muçulmanas? Ou será porque se sentem desconfortáveis ao ver uma mulher coberta?Considerando o facto de eu nem usar burqa, o leitor poderá pensar que esta conversa toda é fútil, uma vez que nem se aplica a mim. Por isso este assunto nem me devia afetar. Mas afeta. Porque sei muito bem que esta proibição não tem origem na preocupação com a liberdade das mulheres muçulmanas. Porque se houvesse preocupação com a igualdade das mulheres (muçulmanas ou não), o foco dos que nos representam no Parlamento seriam assuntos como disparidade salarial, violência doméstica, os group chats no Telegram de homens a partilharem fotos íntimas das suas parceiras. Mas incitar ao ódio contra uma religião já odiada atrai mais votos, logo é isso que temos. Portugal passa neste momento por problemas nos setores da educação, da saúde, uma crise da habitação, salários baixíssimos e rendas absurdamente altas. O foco devia estar nesses assuntos. Ao invés, distrai-se o povo com meia dúzia de mulheres que usam burqa, que vivem a sua vida e não interferem na vida de ninguém. Passei muito menos tempo no meu país de origem do que em Portugal, que considero a minha casa. Tenho imenso medo de andar de avião, mas, no momento que me aproximo de Lisboa e vejo as luzes infinitas, esqueço-me de tudo, porque sei que estou quase a chegar a casa. Por isso é triste ver a minha casa tornar-se um sítio tão intolerante como o país do qual fugi.

Sei muito bem que esta proibição não tem origem na preocupação com a liberdade das mulheres muçulmanas




Talvez os comentários que leio e os políticos que oiço não representem o povo português. Talvez a maioria seja tolerante e acolhedora. Mas raramente vejo essa maioria a criticar os seus líderes, a mandar calar o pessoal que tanto ódio tem pelos migrantes. Só vejo silêncio, que é pior que o ódio, porque dos que odeiam não espero nada, mas aqueles de quem espero alguma empatia e apoio, e que preferem mostrar-se indiferentes, fazem com que se deixe de ter fé, que se acredite que há boas pessoas no mundo. O amor devia-se fazer ouvir mais alto do que o ódio. Infelizmente e ironicamente, o silêncio é que se ouve mais alto.A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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