Meia-hora a tentar não cair na lama de Ventura
O primeiro de uma longa lista de debates televisivos entre os candidatos à Presidência da República tinha tudo para ser um óptimo entretenimento. A proposta de assistir a uma disputa retórica entre António José Seguro e André Ventura assumia-se, à partida, tão promissora como a de tentar perceber como correria a missão de um professor de religião e moral que aceitasse o repto de participar num rodeo sem cair no mar de lama despejada por um chafurdeiro.Sabe-se que o líder do Chega, homem para (quase) todas as disputas eleitorais, não costuma regatear esforços no que toca a essa táctica, a de encontrar novos altos para o ir bem baixo. Afinal, é disso que se alimenta politicamente. Mas também se sabe que o candidato socialista, que, afinal, não é apoiado por muitos dos socialistas, porque ele próprio não sabe se é socialista, não tem sido propriamente pródigo em revelar-se claro no seu posicionamento ideológico.Manuel Carvalho pô-lo de forma clara, há poucos dias, nas páginas deste jornal, quando falava de Seguro como alguém a “insistir numa pose de candidato bacteriologicamente puro”. Um colega aqui da redacção, ao saber que eu iria escrever uma crónica sobre este debate, riu-se e sugeriu não ser assim tão difícil encontrar um ângulo, pois o momento televisivo desta noite poderia ser o de “os dois candidatos que não são de esquerda”.Uma humorada referência ao reiterado esquivar do antigo líder do PS em ser categorizado como “de esquerda”, como aconteceu numa recente entrevista ao PÚBLICO, em que disse que preferia não ser metido nessa “gaveta”. Ou outra qualquer, já agora. O desafio para este debate era saber então se, mesmo quando desafiado, Seguro estaria disposto a abdicar dessa espécie de estado de embutimento.A verdade é que, fazendo jus ao nome, o candidato até se mostrou seguro. Não é que tenha feito um esforço para sair um milímetro que fosse daquela pose de seminarista que tanta urticária tem provocado a quem tem apreço por pessoas que se assumem. Mas, pensando bem, essa postura de extrema cordialidade, ante os golpes retóricos mais rasteiros, acabou por ser o meio mais eficaz para irritar Ventura.Resistindo o mais que pôde às provocações mais básicas e ao tom de conversa de tasca, António José Seguro parece ter tido a inteligência suficiente para deixar o líder do Chega fazer o seu espectáculo habitual de má criação, respondendo-lhe sempre com cortesia e educação. E quase lhe descobrimos um perverso prazer em perceber como assim ia conseguindo arreliar André Ventura, ao não desarmar, não cedendo à rasquice.“Não é por falar mais alto que resolve os problemas. Ainda por cima, está a dizer falsidades. O senhor não baseia a sua retórica em factos”, disse Seguro, quando Ventura puxou da corriqueira carta de xenofobia e achincalhamento dos que não são “portugueses de bem”.Nos tempos que correm, em que, fruto do caldo de cultura de quase duas décadas de redes sociais, dizer o óbvio sobre as regras de convívio cívico pode assumir-se como algo inesperado, Seguro marcou pontos por não se ter deixado arrastar para a lama.E fez bem, no final, onde, porventura, já denotaria algum enfado com tanta má-criação, quando lhe disse. “Não me deixo provocar por si. Não consegue discutir nos termos da nossa constituição”. Nem mais.










