Cultura e Poder: o que nossas escolhas revelam sobre nós
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A notícia, ainda recente, informava que “Criança tem dedos parcialmente decepados em alegada agressão por colegas”. O que me incomodou foi o “alegada”. O caso é de xenofobia — mas ainda que não o fosse, sempre seria uma agressão. A menos que o menino, de nove anos, tivesse decidido decepar seus próprios dedos, “parcialmente” ou não (e esse advérbio, convenhamos, também tem algo de sonso). As palavras se submetem a intenções que seus falantes nem sempre reconhecem. Comunicamos mais do que pretendemos. E é desse modo — muito mais do que indo ao teatro ou ao futebol — que fazemos cultura, cotidianamente.Considero aqui cultura como um sistema de significados compartilhados que nos permite organizar nossas experiências e dar sentidos ao mundo – e, mais do que isso, construir nossas próprias identidades. É por meio da cultura, simultaneamente recebida e produzida por nós, que interpretamos a realidade em que vivemos. Longe de ser homogênea, ela é um campo de tensões e conflitos, no qual diferentes grupos disputam significados e interpretações, moldando as relações de poder na sociedade.Por isso, a cultura não pode ser confundida com as artes, nem reduzida a um conjunto de costumes ou objetos que expressam tradições. Cultura é um sistema de formas e de processos sociais que se convertem em símbolos – isto é, práticas, palavras, imagens, comidas ou gestos que passam a significar mais do que aquilo que são, concentrando em si valores e modos de ver e sentir. Esses símbolos articulam-se entre si e organizam a nossa experiência no mundo. Por isso, a presença de uma palavra – ou sua ausência – não apenas descreve uma cultura, mas a estrutura e a revela.Uma cultura cria sentimentos de pertencimento, mas também produz tensões, pois regula sentidos e condutas, tornando-se discurso, identidade e poder. Ela se materializa em palavras, objetos, rituais, saberes e crenças. A feijoada é tão fundamental quanto a bossa nova. E o samba é uma expressão cultural tão importante quanto o fado. Cada uma dessas expressões traduz a presença e a permanência de um coletivo no mundo.O funk e o balé coexistem, mas são valorizados de formas distintas e reverberam diferentemente nos comportamentos sociais. Assim, a relativização da gravidade de criança brasileira sofrer um crime por xenofobia dentro da escola, sob a guarda do Estado, diz muito mais sobre a cultura que estamos construindo – lenta e cotidianamente – do que o poderia dizer Dona Amália Rodrigues cantando um fado. Isso porque a cultura é um fazer de todos os dias.Trata-se de um processo sempre dinâmico, por isso conflituoso e complexo. A sua existência depende necessariamente da abertura para o outro, gerando os mais variados diálogos, usualmente marcados por tensões, troca de valores e jogos de poder. A formação cultural brasileira resulta do encontro conflituoso entre matrizes indígenas, africanas e europeias e dos povos emigrados para este país, como japoneses e sírios, por exemplo. Cada novo diálogo, um novo embate, e debatemo-nos com o aumento da violência urbana, com as pressões internacionais, com a crise climática e por aí vai…Portugal formou a sua rica cultura do encontro de muitos povos, inclusive africanos escravizados e portugueses retornados de muitos cantos do mundo. De uns tempos para cá, impuseram-se novos diálogos, ao passo que o país recebeu imigrantes e descendentes de portugueses que emigraram. O que não se pode permitir é que isso signifique a destruição da essência da identidade portuguesa com a qual o Brasil tem conversado desde que se constituiu como nação até hoje, ao passo que muitos para ali emigraram, como meus pais e avós. Em nenhum momento, naturalizar a injustiça e desejar o sofrimento do inocente e do fragilizado deveria ser aceito como parte da cultura portuguesa.
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